ago-4-2009

Morreu Bernardo Vorobow

Posted by Cesar Zamberlan under Cinema / Memória

 

   

Li no blog do Inácio que morreu no último sábado Bernardo Vorobow. Bernardo foi programador da Cinemateca Brasileira por muitos anos e responsável talvez pelo período mais brilhante da Sala Cinemateca, quando esta era na Fradique Coutinho. Nesse período, a Sala fez várias retrospectivas fundamentais para a formação de qualquer cinéfilo que se preze e tinha uma política de exibir com freqüência os filmes do acervo, além de manter um diálogo fortíssimo com a Cinemateca de Montevidéu.

 

Devo muita ao Bernardo e à Sala Cinemateca pois me formei como cinéfilo naquela local. Via de seis a quatro sessões por final de semana e pelo menos uma a cada dia da semana. Vi todo Truffaut lá, quase todo Chabroll, Rhomer, Godard, Garrel, Ozu etc etc.

 Lá também conheci muitos cinéfilos dos quais sou amigos até hoje. E tenho certeza que toda uma geração de cinéfilos, assim como eu, gostaria de agradecer a Bernardo pela chance que nos deu de conhecer o bom cinema.

 

Hoje, a Sala Cinemateca mudou muito de cara, ficou chique, já não cumpre mais o mesmo papel, além de ficar num local de difícil acesso. Já as novas gerações deixaram de se formar cinefilicamente na tela grande. O emule é a cinemateca deles. Perdem, entre outras coisas, a tela grande e a chance de trocar idéias após a sessão.

 

Os tempos mudaram muito e pessoas como Bernardo Vorobow ficam para a história.

 

 

 

 (Foto Carlos Adriano)

 

 

 

 

 

abr-3-2009

Minimum (1) – Arroz, feijão, bife e ovo, e sem TV.

Posted by Cesar Zamberlan under Andanças, Minimum

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 O centenário Ernesto Sábato num de seus últimos livros cujo título é bastante significativo, “Resistência”, relata entre outros horrores do mundo “moderno”, a sua aversão aos aparelhos de TV que se tornaram habituais também nos cafés argentinos. Conta ele, que por ser famoso, e aproveitando também o peso da idade, sempre pede que o dono do estabelecimento desligue a TV para ele tomar seu café em paz. Como forma de respeito, inteligência e reconhecimento, é, na maioria das vezes, atendido.

 

Nós, pobres mortais, não podemos fazer o mesmo, e ou engolimos a TV junto com a comida ou café ou precisamos andar muito em busca de um paraíso perdido.

 

Eu, que nunca tive o hábito de comer em casa – prefiro comer na rua, em botecos de preferência -, dia desses, andando pelos lados da Consolação, perto do cemitério, na esquina da Sabará com a Sergipe, achei finalmente um cantinho legal, com aparência de boteco antigo, boa comida, bom preço e, pasmem, sem TV. Eles até têm um rádio no estabelecimento, mas raramente o ligam.

 

Minimum é querer o mínimo. Simples como arroz e feijão.

 

 

Lá, posso comer meu o meu prato preferido: o velho e bom arroz, feijão, bife e ovo, sem ter que conviver com esses aparelhos insuportáveis, ligados o tempo todo, a berrar a tragédia eleita do dia ou a opinião sensacionalista e quase sempre grosseira de comentaristas insuportáveis de “mesas redondas” ainda mais insuportáveis sobre futebol.

 

Acabei transformando o lugar em um refúgio. Vamos ver quanto tempo isso dura.

 

 

mar-11-2009

Pornografia filme e livro

Posted by Cesar Zamberlan under Cinema e literatura

Gosto tanto da relação literatura e cinema – não necessariamente nesta ordem - que a transformei em objeto de estudo acadêmico e sempre que posso procuro ler um livro que virou ou vai virar filme e ver um filme que foi adaptado de um livro, estabelecendo possiveis relações e vendo como a transposição, gosto desse termo, se dá.

Essa semana, terminei de ler PORNOGRAFIA do polonês Witold Gombrowicz, recém-lançado pela Cia da Letras e o livro me fez relembrar do filme de Jan Jakub Kolski que passou numa mostra de cinema polonês no Cinesesc em junho de 2005, meses antes do Cinequanon entrar no ar. Na época, tinha escrito sobre o filme, mas, num desses desastres inexplicáveis, perdi o texto que seria um dos primeiros do site e nunca mais consegui recuperá-lo e muito menos rever o filme.

Ficou, à época, a atmosfera carregada da película, uma névoa envolvendo os personagens que no interior da Polônia, em plena segunda guerra, criam uma teia envolvendo dois adolescentes num jogo erótico sofisticado e um tanto quanto perverso. 

Pois bem, li agora o livro e ele se mostrou igualmente grandioso, construindo novas imagens na minha mente , visto que pouco lembro do filme. Vida e morte, Eros e Tanatos, nazismo, resistência e em meio a isso a beleza virginal de Henia e Karol como único refúgio para Witold, o escritor-personagem, e seu estranho amigo Frederik. Um belo livro e um belo filme.

Como aperitivo, fica este trecho do filme que está quase todo no you tube. 

mar-2-2009

“Papel não embrulha brasas” de Rithy Panh

Posted by Cesar Zamberlan under Rolou em Sampa

Apenas seis pessoas estiveram na tarde de quinta-feira (26/2) no Cinema Olido no centro de São Paulo para ver “Papel não embrulha brasas” do cambojano Rithy Panh na mostra Panorama do Documentário Francês. A Mostra durou apenas três dias e não foi muito divulgada pela mídia. Essa foi a segunda vez que o filme é exibido em Sampa, a primeira, também numa única sessão, foi no Festival de Documentários de 2007 no Centro Cultural São Paulo. Poético, o filme de Rithy Panh é, ao meu ver, um dos melhores documentários recentes da história do cinema, pena que mais uma vez tenha passado tão despercebido. Transcrevo abaixo a crítica que fiz do filme quando exibido no É Tudo Verdade.

http://www.cinefrance.com.br/_images/filmes/lepapiern_f01cor_2007110383.jpg

O papel não embrulha brasas

Rithy Panh consegue nos seus documentários – se é que assim podemos chamá-los – algo surpreendente, extrai dos seus personagens diálogos primorosos, quase straubbianos, para usar a precisa observação de Francisco Guarnieri, companheiro da Revista Paisà, deixando no ar uma dúvida enorme: como consegue isso num documentário? Em “Atores do Teatro Queimado”, ele trabalhava com atores que perderam seu espaço de trabalho, mas eram atores, pessoas ligadas à arte. Neste novo filme, sua câmera registra o doloroso dia-a-dia de jovens prostitutas de Phnom Pehn, capital do Camboja, e a fala delas é de uma força poética reveladora.

O cineasta capta conversas entre as adolescentes como se não houvesse nenhum dispositivo registrando esses momentos. A câmera invisível de Rithy Panh não julga em momento algum suas personagens, se coloca entre elas, sem que ela, câmera, aparentemente altere qualquer tipo de opinião ou procedimento. Ele filma os diálogos geralmente em plano americano com poucos movimentos de câmera e via de regra corta para o outro interlocutor do diálogo ou para um plano mais aberto com ambos. O enquadramento e a montagem levam a crer que ele trabalhe com duas ou mais câmeras, o que torna a invisibilidade da câmera ainda mais impressionante. Outra opção, seria filmar com uma câmera apenas e repetir alguns diálogos, encenando-os, o que não parece ser o caso tão preciso é a montagem de som e imagem dos diálogos. De uma forma ou de outra, fica claro ao ver o filme que ele consegue algo que poucos conseguem: diálogos fortes, sinceros e de uma naturalidade impressionante.

Ressalte que esses diálogos não são dados, salvo um no final do filme, para a câmera, mas como registro da conversas de algumas das 13 garotas que moram num casarão que abriga jovens prostitutas na capital cambojana. E nesses diálogos, o filme é extremamente dialogado, elas falam de vários assuntos que acabam por compor um painel extremamente rico e doloroso de suas experiências de vida. Falam sobre os maus tratos que sofrem dos clientes, das tentativas de suicídio, da exploração a que são submetidas pela madame (a cafetina), da vida antes da prostituição geralmente em pequenas aldeias rurais, do motivo que as levaram à prostituição, da guerra recente imposta pelo Khmer Vermelho, do uso de drogas, de filhos, abortos, do quanto recebem pelos programas, do valor que fica para elas e do quanto deixam com a cafetina, entre outros assuntos.

Todo esses temas são expostos de uma maneira casual, reproduzindo cenas do cotidiano das meninas durante a tarde, enquanto descansam e se preparam para a noite e o trabalho. E em meio a esses diálogos, encaixados, sem que uma opção de roteiro ou projeto pré-determinado transpareça, Rithy Panh insere cenas das meninas no prédio, enclausuradas, muitas vezes tendo à cidade ao fundo, num contra luz belíssimo. Existe uma seqüência em que elas estão no terraço do prédio em meio à chuva que é de uma beleza inenarrável.

Curioso, que a relação destas meninas com a cidade é muito parecida com a dos atores do seu filme anterior, “Atores do Teatro Queimado”, estes também eram seres à margem da cidade, presos a um prédio abandonado, integrados à ruína do espaço do qual só se desgrudavam para transitar como zumbis numa cidade que só lhes sugava. Nos dois filmes e mais neste, a ausência de um projeto, de saída, da possibilidade de deslocamento é gritante. Mas um grito mais de resignação que de desespero.

Além da expressão que dá título ao filme, extraída de um dos diálogos das meninas, há várias falas no filme que explicitam essa resignação. Uma das personagens fala que a comida as salva da fome e o sono do medo. Em outro momento, outra menina fala que se elas tiverem aids vão morrer e que se não tiverem, vão morrer do mesmo jeito. Numa outra fala, a personagem diz que é prisioneira da culpa por ter levado sua irmã mais nova para a prostituição e essa ter contraído a Aids. Dizem ainda que são culpadas sempre: por serem pobres, por não terem instrução, por terem se prostituído para ajudar a família, por terem filhos, por pegarem Aids; por tudo.

Triste, doloroso e poético. “Papel não embrulha brasas” é um filme imperdível, acima de tudo por não fazer nenhum tipo de julgamento da realidade e dos personagens que retrata. A câmera de Rithy Panh se doa aos personagens, se entrega a eles, e eles a ela. Há uma cumplicidade entre ambos, entre esses olhares e as imagens que dessa relação emergem ficam em nossa retina por muito tempo com a força que só as obras-primas conseguem ter.

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jan-30-2009

Kumpanhia Algazarra

Posted by Cesar Zamberlan under Andanças

Capa do único CD do Kumpanhia

Depois de um longo tempo sem postar, volto ao blog num post relacionando cinema e música. Conheci em Portugal, por acaso – escolhi aleatoriamente o CD pela capa numa loja em Lisboa – uma banda cujo trabalho é muito próximo ao da banda do cineasta Emir Kusturica, a Non Smoking Orchestra, o nome da banda é Kumpanhia Algazarra. Coloco abaixo uma apresentação deles na rua porque o som e a empolgação dos caras diz mais que qualquer texto sobre eles. Eu e Maria Clara vimos um show deles na cidade de Cartaxo, próxima a Lisboa. O show abaixo é de julho no Solar dos Zagallos em Almada, Portugal.

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ago-7-2008

Duas sequëncias perturbadoras

Posted by Cesar Zamberlan under Seqüências de filmes

Finalmente o site novo está no ar com a blogosfera Cinequanon. E para estrear o novo MUVUCOFOBIA queria fazer alguns comentários sobre alguns filmes em cartaz. Na realidade, comentário sobre duas seqüências de dois filmes que não critiquei no site: “Escafandro e a Borboleta” e “O Segredo do Grão”.

Gosto dos dois, mas quero comentar o início do primeiro e o final do segundo. A câmera subjetiva nos minutos iniciais de “O Escafandro e a Borboleta” nos coloca sob o ponto de vista do personagem e nos aprisiona tanto quanto ele. Um ótimo início de filme, pois joga o espectador para dentro da tela e o aproxima do personagem. Depois, o filme toma outros rumos não tão radicais na sua narrativa, promovendo um necessário “respiro” aos espectadores, caso contrário o filme seria ainda mais duro do que já é.

Já o final de “O Segredo do Grão”  demonstra o quão impossível é a integração entre europeus e não-europeus no velho continente. A dança final é das coisas mais tristes que já vi no cinema e retrata de maneira muito cruel como ainda somos regidos e vistos pelos colonizadores. A sensualidade da afilhada de Slimane, recurso último para entreter os convidados, é a marca dessa relação impossível, fadada ao naufrágio. Cruel como poucas seqüências do cinema contemporâneo, ela é uma metáfora potente desse olhar dos “colonizadores” diante daquilo que é diferente, diante do exótico que se rebaixa para ser notado.

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