Fonte: [+] [-]

A Criança e o Cinema - Vinil Verde


























A Criança e o Cinema


Vinil Verde                                                          (publicado: 02/2013)

Por Beatriz Saldanha

Janeiro foi o mês de Kleber Mendonça Filho. Quase um ano depois de sua “première”, em Roterdã, o primeiro longa-metragem do diretor estreou no Brasil. O filme foi chegando aos poucos nas principais cidades do país e finalmente o público brasileiro pôde conferir O Som ao Redor, do qual tanto se falou no decorrer do ano passado.

A escolha pela narrativa pouco convencional, os elementos simbólicos e sua temática incitaram discussões sobre gênero cinematográfico, a relação do cinema com as questões sociais e, claro, evocaram os curtas-metragens dirigidos anteriormente por Kleber. Entre eles, Vinil Verde (2004), curta que antecipa um dos temas explorados pelo cineasta em O Som ao Redor: a dominação das pessoas pelo medo. No caso do longa, mais especificamente o medo urbano. Em uma das cenas memoráveis, uma menina sonha com incontáveis ladrões pulando o muro e invadindo sua casa.

Em Vinil Verde, Kleber encontra apoio na linguagem dos contos de fadas para contar uma história de horror que mostra o despertar do medo em uma criança. O curta possui apenas duas personagens, Mãe e Filha, que moram em um apartamento em Casa Amarela, na cidade de Recife. Muito dedicada e amorosa, a mulher presenteia a menina com uma vitrola e uma caixa cheia de discos infantis. Dentre todos os discos, a mãe insiste que a filha não ouça um deles: o vinil verde. A criança se compromete, mas desrespeita o acordo. Naquele dia, quando sua mãe chega do trabalho lhe falta um braço. A menina volta a contrariar a recomendação nos próximos dias e sua desobediência culmina com a morte da mãe, que ficou sem braços e pernas.

Inspirado em história popular russa, Vinil Verde é narrado em tom de conto de fadas. Desde referências mais diretas, como a frase “Era uma Vez”, na abertura, indo às fotografias que surgem como ilustrações de livros infantis, passando pela tripla repetição dos fatos – nos contos de fada, em geral, os fatos repetem-se três vezes antes da conclusão, com consequências distintas –, e a provação da protagonista. Muito comum nestas histórias colhidas da oralidade, os infortúnios vividos pelo protagonista tinham o propósito de assustar e, desta forma, educar. E é esta a grande ironia do curta de Kleber: rebelde enquanto criança, Filha cresce e vira Mãe, herdando, assim, todos os seus medos e aflições.

A educação através do medo é tão antiga quanto o ser humano. O estudioso de mitologia Robert Walter declara que somos todos descendentes daqueles que foram cautelosos, que sobreviveram para procriar: “Somos o produto de geração após geração, de reação ao medo. Tudo tem sido em termos do que você precisa ter medo para sobreviver”, é o que diz.

A escolha pelos nomes genéricos das personagens de Vinil Verde, claro, não foi à toa. Funciona para ressaltar a universalidade da história narrada. Afinal, esta é a razão pela qual as histórias populares resistem através dos séculos: sua generalidade, fácil de associar a uma grande variedade de pessoas e situações.

O curta trabalha ainda de forma primorosa o suspense, orientado por narração lenta, quase preguiçosa, que culmina em cenas de forte impacto. A música original do filme é igualmente marcante, ao unir o teor lúdico da música infantil à letra sinistra e ameaçadora. Kleber Mendonça Filho realiza, aqui, um grande curta-metragem – com o perdão do trocadilho sem graça.


VER O CURTA AQUI (postado no “Porta Curtas”)


FICHA TÉCNICA:

Direção: Kleber Mendonça Filho
Fotografia: Kleber Mendonça Filho
Roteiro: Bohdana Smyrnova, Kleber Mendonça Filho
Montagem: Daniel Bandeira, Kleber Mendonça Filho
Tratamento digital/Efeitos: Daniel Bandeira
Produção executiva: Daniel Bandeira, Isabela Cribari, Kleber Mendonça Filho, Leo Falcão
Assistentes de direção: Daniel Bandeira, Luciana Alves
Narração: Ivan Soares
Música: Silvério Pessoa
Som (design e ruídos): Kleber Mendonça Filho
Edição de som: Daniel Bandeira, Kleber Mendonça Filho
Estúdio de gravação: Muzak (Recife)
Técnico de estúdio: André Oliveira
Mixagem: Estúdios Mega (São Paulo)
Consultor Dolby: Carlos B. Klachquin

Elenco: Gabriela Souza, Verônica Alves.

Ano: 2004

Companhia produtora: Cinescópio, Símio Filmes




Beatriz Saldanha é graduada em Letras pela Universidade Federal do Ceará. Esteve à frente do Cineclube João e Maria, projeto de extensão da universidade vinculado ao grupo Infância e Interculturalidade. Realizou através do CNPq a pesquisa "Violência e erotismo nos contos de Grimm: Releituras no cinema pós-moderno".