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Viva a Boca do Lixo - "Patty, a Mulher Proibida"
















Viva a Boca do Lixo


Patty, a Mulher Proibida                                    (publicado: 10/2012)

Por Gabriel Carneiro

Patty, a Mulher Proibida é um desses filmes inexplicáveis. Explico: parece que não vai dar em nada. Um título genérico, um diretor desconhecido, um filme obscuro que pouco se comenta a respeito. Se já é assim no panorama do cinema da Boca do Lixo, imagine no resto. E, assim como se não quer nada, surge um baita filme. Os mais atentos e curiosos talvez cheguem a ele mais interessados na Helena Ramos como musa principal, ou no escritor e roteirista Marcos Rey. Estão certos, mas há, nele, certamente, mais do que isso.

Adaptado pelo próprio Marcos Rey de seu conto “Mustang Cor de Sangue”, Patty, a Mulher Proibida narra a história do anão Jujuba, um apresentador televisivo infantil, muito rico, que se aproveita de sua posição para ganhar mulheres desesperadas pela luz do holofote. Típico das produções da época, o título visava conquistar o público masculino através da beleza e do corpo de Helena Ramos, a tal Patty, uma mulher sedenta pela fama - ainda que o mustang pouco apareça no filme.

Isso porque quase toda a ação é centrada no casarão de Jujuba. Hábil escritor, Rey sabe como criar uma história policial verdadeiramente interessante, sem abdicar dos aspectos populares e mundanos. Além de Jujuba e de Patty, há também o Escriba, intelectual fadado a morrer de fome que é resgatado da penúria por Jujuba para escrever os roteiros do programa, a atuar como seu advogado e seu motorista. Escriba é um faz tudo submisso.

A partir dessa premissa, o diretor então estreante Luiz Gonzaga dos Santos (que apenas assina L. Gonzaga), pupilo de Jean Garrett, de quem foi assistente de direção, mostra um talento único, especialmente na Boca. Artesão da melhor estirpe, Gonzaga, que só faria mais um longa, “Anúncio de Jornal” (1984), tem pleno domínio de ritmo, é cuidadoso na decupagem e ainda é ótimo dirigindo atores – o Escriba talvez seja a grande atuação da vida de Roberto Miranda, que já era um ótimo ator, uma das melhores de Helena Ramos e Dilim Costa, o anão Jujuba, é um destaque à parte. .

Há toda uma tensão em volta das três personagens, na linha tênue entre a atração e a repulsa. Gonzaga se aproveita disso para conduzir seu filme. É isso o que interessa, afinal de contas: a relação de poder, seja fruto do dinheiro, da fama, da inteligência ou do sexo, são todas armas usadas para desbancar uns aos outros. A influência do cinema noir é nítida, mas o cineasta avança nessa construção. Patty pode ser a razão da perdição, mas nele não se exclui toda a ganância e ambição nascido do desejo, da luxúria, sem a culpa cair em cima dela. Se o Escriba é apaixonado por aquela mulher que faz espetáculos eróticos no cabaré, isso não diz respeito à vontade de possuí-la antes e mais do que seu chefe. Mesmo porque o Escriba, melhor personagem do longa, representa a pura desilusão: submisso e covarde, tem a plena consciência disso tudo, da exploração, e não faz nada a respeito, por misto de comodismo e medo.

Esse aspecto mundano presente no roteiro de Marcos Rey e ressaltado por Gonzaga na escolha, especialmente, da arte do filme e na direção de atores, é o que faz o longa tão vivo e tão necessário de ser visto: são os fodidos tentando se entender sem cair em fáceis psico ou sociologismos, sem politicagens – afinal, pouco importa se o rico é anão e negro, se a mulher é gostosa ou se intelectual se cansou da esquerda, o que vale, ali, são as relações humanas.



FICHA TÉCNICA:

Direção: Luiz Gonzaga dos Santos (L. Gomzaga)
Roteiro e Argumento: Marcos Rey
Continuidade: Martha Salomão Jardim
Produtor Executivo: Paulo G. Gregório
Diretor de Fotografia: Arcângelo Mello Jr, Edward Freund
Montador: Luiz Tanin
Montador Assistente: Joaquim de Lima
Direção de Produção: José Adalto; Heitor Carlos Tonhosol
Operador de Câmera: Arcângelo Mello Jr, Edward Freund
Assistente de Câmera: Odair Guarani Cirineu
Música (genérico): Sôon
Fotos Still: Giancarlo Baraldi
Técnico de Som: Benedito de Oliveira
Mixagem: Eduardo Santos
Chefe Eletricista: Isidoro F. D' Oliveira
Eletricistas: G.Parisotto, J. Pedro Silva
Decoração: Decoração: Tania P. G. Grebório, Tamara P. A Barbosa

Elenco: Helena Ramos, Gimba Jr, Dilin Costa, Roberto Miranda, Josimar Carneiro, Bianchina della Costa, Carmen Ortega, Regina Miranda.
Narração: Egrão.

Ano: 1979

Companhia(s) produtora(s): Singular Importação, Exportação e Representação Ltda; Haway Filmes.
Companhia(s) produtora(s) associada(s): América Internacional Filmes



FOTOS 1, 2, 3, 4, 5, 6 - Arquivo da Cinemateca Brasileira



Sobre a Boca do Lixo

Geograficamente, a "Boca do Lixo" está situada no centro de São Paulo, vizinha à estação da Luz. Nos anos 1950, recebeu esse nome por ser pauta das crônicas policiais da cidade. A proximidade com as estações ferroviárias atraiu o cinema. Era muito mais barato manter sua distribuidora e/ou produtora em um local com fácil acesso a tais estações, para o transporte das cópias dos filmes.
A partir dos anos 1960, a "Boca" se tornaria o principal polo produtor cinematográfico do país, congregando produtores, técnicos, diretores, atores e intelectuais nas cercanias da Rua do Triumpho. Berço do chamado Cinema Marginal e responsável por uma grande variedade de filmes de gênero, quase sempre com apelo erótico, a "Boca do Lixo" frutificou em questão de público e bilheteria, mas naufragou quanto às avaliações críticas.
A "Boca" continuou produzindo filmes populares, de baixo orçamento e sem verbas estatais até o final dos anos 1980, quando já estava dominada pelo cinema de sexo explícito.