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Viva a Boca do Lixo - "Terapia do Sexo"




















Viva a Boca do Lixo


Terapia do Sexo                                                   (publicado: 09/2012)

Por Gabriel Carneiro

Ody Fraga foi um dos sujeitos mais produtivos da Boca do Lixo. Dirigiu 25 filmes e roteirizou mais de 60. Entre eles, um dos mais atípicos ao local, o documentário com momentos de ficção Terapia do Sexo. O híbrido é uma das coisas mais estranhas que se fez na Boca do Lixo, podendo ser dividido em três partes, que conversam muito mediocremente entre si. Na primeira, um conjunto de desenhos estrangeiros, em particular indianos, com uma narração que clama pelo caráter exótico do sexo em outras tradições culturais; na segunda, a explanação ilustrada dos problemas sexuais mais comuns encontrados em casais; e na terceira, um exploitation sobre problemas de saúde advindos do sexo, entre outras mesuras a se tomar precauções.

Mesmo reforçando alguns estereótipos, padrão da produção da Boca do Lixo, Ody Fraga cria uma obra deveras inusitada, especialmente pelas partes dois e três. É notável o jogo que Fraga faz, em especial no segundo entrecho, quando encena os problemas de comportamento no âmbito sexual que um casal pode ter. Tendo como ensinamentos os dizeres do psicólogo José Ângelo Gaiarsa, Ody segue a simples fórmula da dramatização. Mas há muito mais que isso, a começar pela encenação. A parte documental do entrecho consiste em Gaiarsa falando num gravador sobre os possíveis problemas que um casal pode ter. A ficcionalização é feita toda em estúdio, com fundo pintado de coloração não usual (vermelho, etc), e os objetos de cena indispensáveis (cama, criado-mudo, etc), tal qual um esquete cômico não-cinematográfico, onde os atores criam performance sobre o que é dito por Gaiarsa. O tom de leveza, tão criticado por José Carlos Monteiro (ler aqui) , d’O Globo, um dos poucos a escrever sobre o filme na época, é seu grande trunfo. Ody sabe que a melhor maneira de tocar em questões tão delicadas é buscar a leveza e o humor para tirar a seriedade do fato, pois não precisa ser encarado como tabu. Usa assim o fazer cinematográfico como ensinamento quase antropológico ao fazer o espectador rir dos próprios problemas – porque, claro, é natural que todos se identifiquem com ao menos algum aspecto do que Gaiarsa está falando, seja do sujeito que prefere sexo matinal, à garota que gosta de trocar palavras românticas antes do ato: não tendo, ambos, obviamente, correspondência com o parceiro/a.

Mesmo porque, o discurso de Gaiarsa, extremamente avançado ainda hoje quanto a questões sexuais, vai justamente na direção de acabar com os tabus e apontar tais problemas como questões banais, comuns. No mesmo sentido, muito cômico – por questões extrafílmicas – quando Gaiarsa é subitamente cortado durante sua exposição sobre a normalidade do homossexualismo, e posteriormente sobre a erotização durante a infância. Cômico, pois sabemos que aqueles cortes abruptos foram feitos por conta da censura do Regime Militar, que desaprovava que tal conteúdo chegasse à população – subversivo demais, talvez.

Tão abrupto quanto isso é a mudança da segunda para a terceira parte. Quase do nada, Terapia do Sexo segue o inusitado caminho de mostrar diferentes profilaxias contra DST e gravidez, acompanha a consulta de uma moça num ginecologista e conversa com especialistas sobre doenças e acompanhamento médico. Se há sentido dentro de uma lógica educadora, é estranhíssimo conceber tal filme dentro da produção da Boca do Lixo, que priorizava empreendimentos que viessem a dar retorno financeiro – e, convenhamos, um filme que mostra o que são DSTs através de desenhos bastante realistas, e uma cesariana, não é necessariamente algo que aponte para um grande sucesso financeiro (ao que parece, o filme teve bom retorno sim nas bilheterias).

O mais interessante no último estrato é como Ody Fraga incorpora os filmes exploitations originais - aqueles que usavam do caráter educativo para passar na censura do Código Hays, nos anos 30 e 40, nos EUA -, mostrando cenas de nudez, entre outras, numa época em que tudo relacionado a sexo era um grande tabu. E vemos em Terapia do Sexo mulheres despidas para consultas, detalhes mórbidos sobre genitálias e outras questões que tanto atraíam o público para os exploitations.

A título de informação/curiosidade, Terapia do Sexo é um dos poucos – se não o único – documentário feito na Boca do Lixo. É, portanto, curioso ver o uso do som direto, já que não havia como dublar as entrevistas e as palavras espontâneas de Gaiarsa. Curioso, porque nos permite vislumbrar a ineficiência da prática: o som era muito mais ruidoso, captando os barulhos da câmera, e a qualidade era igual à da dublagem da época.


FICHA TÉCNICA:

Direção e roteiro: Ody Fraga
Assistência de Direção: Alessandro Comisso
Produtores: Antonio Polo Galante, R. P. Galante
Diretor de Fotografia: Henrique Borges
Montador: Jair Garcia Duarte
Diretor de Fotografia (sequências adicionais): Henrique Borges
Direção de Produção: Edson Romano
Operador de Câmera: Henrique Borges
Operador de Câmera (sequências adicionais): Antônio Moreira
Assistente de Câmera: Hídeo Nakayama
Música: R. P. Galante
Chefe de Equipe: Ulisses Eleutério Malta
Fotos Still: Edson Romano
Engenheiro de Som: Walter Goulart
Eletricistas: Ulisses Eleutério Malta, Rubens de Souza
Maquiadora: Creusa de Souza
Elenco: Neide Ribeiro, Marta Maciel, Sueli Aoki, Teka Klaus, Tânia Concio e Nerê de Passy, Sueli Aoki, Sula de Paula, Rubens Ramos, Wilson Sampson, Ricardo Muniz, Fábio Vilalonga, Olindo Dias, Carlos Eduardo, Michel Cohen, Marco Antônio, Werp Gomes, Toni Rodi, Marcus Cardi, Djalma de Castro, Ricardo Sabat, Moni, France Mary, Wanda Sevic, Sônia Saeg, Fátima Trindade, Dora Munhoz, Regina Helena, Alvamar, Marta Maciel, Teresa Rodrigues, Eliana Sandy, Regilza Andrade, Tuca, Walter Gasbarrom, Celso Costa, Luiz Umpierez, Eduarda Solange, Zeli Oliveira, Malu de Souza, Lucy Luzia, Walter Pastos, Fábio A. Pinto, Sergio Gaeta, Edna Costa, José M. Rocha, Terezinha, José Carlos.
Participações Especiais: Dr. José Ângelo Gaiarsa, Dr. Amaury M. Maurício, Dr. Basílio A. Bertolani Hertel, Dr. Augusto V. Pesso.

Ano: 1978

Produções Cinematográficas Galante S/C Ltda.



FOTOS 2, 3, 4, 5, 6, 7 - Arquivo da Cinemateca Brasileira



Sobre a Boca do Lixo

Geograficamente, a "Boca do Lixo" está situada no centro de São Paulo, vizinha à estação da Luz. Nos anos 1950, recebeu esse nome por ser pauta das crônicas policiais da cidade. A proximidade com as estações ferroviárias atraiu o cinema. Era muito mais barato manter sua distribuidora e/ou produtora em um local com fácil acesso a tais estações, para o transporte das cópias dos filmes.
A partir dos anos 1960, a "Boca" se tornaria o principal polo produtor cinematográfico do país, congregando produtores, técnicos, diretores, atores e intelectuais nas cercanias da Rua do Triumpho. Berço do chamado Cinema Marginal e responsável por uma grande variedade de filmes de gênero, quase sempre com apelo erótico, a "Boca do Lixo" frutificou em questão de público e bilheteria, mas naufragou quanto às avaliações críticas.
A "Boca" continuou produzindo filmes populares, de baixo orçamento e sem verbas estatais até o final dos anos 1980, quando já estava dominada pelo cinema de sexo explícito.