Fonte: [+] [-]

PROJETO EM CARTAZ: “CADA UM VIVE COMO QUER” (24 de fevereiro a 01 de março de 2012)




























PROJETO EM CARTAZ: “CADA UM VIVE COMO QUER” (24 de fevereiro a 01 de março de 2012) (Cinequanon)


Por Cid Nader

Estranho e lindo é poder ver ou rever in loco (na tela, seu campo, seu meio) o artista e sua obra, tempos (décadas) depois que suas performances foram alardeadas como inconformadas revolucionárias marcas de um cinema que não coadunava com a malha tramada de forma mais aceitável e confortável, como eram as saídas do tear de produção alienante que representava a grande e condutora indústria do cinema ianque. Mesmo que o autor seja o Bob Rafelson do início dos setenta, e o filme, nada mais nada menos do que a pérola negra, Cada um Vive Como Quer (muito mais apropriadamente, 5 Easy Pieces, realizado em 1970), sensações de possíveis desastres ante tanto espaço de tempo e possíveis datações causavam medos, além de incertezas sobre se valeria entrar nessa jornada de (re)descoberta.

Estranho e lindo é sair numa manhã, de um dia de semana qualquer, da sala do Cine Olido (bem no centro dessa São Paulo por vezes tão mal cuidada) com todas as sensações de inquietações (do autor e da obra) faiscando na íris, e as (in)certezas oralizadas por Robert Eroica (!!!) Dupea retinindo no tímpano, para comprovarem que as datações e as genialidades estavam mesmo armazenadas pelo tempo, mas que, enfrentadas, somente (re)acenderam o quanto é bom esse cinema: que estabelece temporalmente os momentos em que fluiu, quase como documento de uma época perdida (época linda e plácida/chacoalhante dos momentos em que o ocidente foi tocado fortemente pelo ideário beatnik); que guardou sob a proteção de várias chaves a imagem de uma “América” que podia ser, tanto o abrigo familiar, quanto os recantos que abrigariam os inconformados ao que estabelecia a educação formal brotada desses núcleos agasalhantes (esses, os familiares); e que entregou no momento uma compreensão novidadeira da narrativa da arte que raramente se viu repetida com tanta capacidade pelos anos seguintes (nem pelo próprio Rafelson – excetuando O Dia dos Loucos, de 1972).

Porque há um Jack Nicholson que dá cara e vida ao contrariante Dupea, com interpretação que jamais poderia ser imaginada para outras feições e trejeitos (como se ele fosse o único ser apto para representar esse personagem - que renega uma família que nem era tão coadunante com o que era a faceta nuclear da América contestada pelos já estabelecidos beatniks, já que era composta por músicos que habitavam as florestas geladas do norte dos EUA, num “fechado” doentio sim, mas doentio lá dentro de sua reclusão), que opta em largar tudo para ir trabalhar num campo de petróleo e que também namora uma garçonete daqueles “mitológicos” restaurantes de comida veloz que tanto impuseram representação concreta de signos de então (junto com a estrada que indicava a oportunidade de um deslocamento constante, seus caminhões – ou trens, em outros casos – e seus motéis, ou os postos de gasolina, ou ainda as primeiras cervejas em lata...). Esse Dupea, que foge de um passado musical culto e tem de trabalhar com o desejo dessa sua “namorada” (temporária, já que a ideia é nunca se estabelecer, nem amorosamente – será?), que quer ser cantora de música “country” e ouve Tammy Wynette insistentemente, o que inferiria imaginá-lo fugindo alucinadamente em busca de algum outro esconderijo, mas que, ao ficar, se faz mais digno de ser criação de Rafelson, já que age de modo mais inesperado ainda do que seu inconformismo sugeriria: se bem que ante a figura (datadíssima) estonteante de Karen Black (interpretando Rayette Dipesto), com sua beleza carnal e cabelos setentistas...

Enquanto a trama desloca o casal em direção ao norte, à casa ancestral da qual fugira Robert, para onde volta na intenção de rever o pai que adoecera, onde reencontra irmã que deveria fugir mas não o faz, o irmão mais conformado com uma pupila/namorada, Catherine Van Ost (sob interpretação da bela cool Susan Anspach) – por quem se apaixona (paixão fugaz, perdida, alucinada e justa ao não seu conformismo) naqueles breves instantes -, reforça na impressão de quem acompanha o filme a sensação de distanciamento à narrativa comum (a das cartilhas): fato já bem estabelecido e determinado desde os primeiros momentos. Essa raridade que poucos conseguiram concretizar como Rafelson faz aqui consiste no abandono da lógica explicativa dos fatos, da preparação ou de alguma bula que explicará os procedimentos passo a passo para uma compreensão que permitirá mergulho mais seguro na história e nas certezas do que irá contar. Os fatos, os dados, vão surgindo e sendo costurados à trama toda (entenda-se aí trama como uma construção costurada que, unida por pedaços, resultará o tecido no todo). E o que surtirá história mais complementada se dará por mescla entre procedimentos técnicos competentes (zooms em olhos, criação de pequenos cenários enquadrados pela captação das lentes, ou panorâmicas amplas revelando a imensidão da natureza gelada, da estrada que se “oferece” novamente para a fuga...) e a compreensão que a mente exigida do espectador terá de buscar.

Como se fosse uma homenagem em arte inventiva ao que pregava o movimento que modificava fortemente desde os 50 todo o modo de ser da juventude do pós-guerra, no ocidente (os beatniks saíram pelo mundo, beberam vinhos baratos e cervejas de lata, alguns comeram comidas vegetarianas e trouxeram à baila os orientalismos e a busca pela natureza pura – há no filme o casal de garotas que vai ao Alasca para tal vivência -, enquanto não se cansavam de trabalhar em empregos menos nobres só para juntarem mais um trocado, indo em busca de um novo trem de cargas ou de um caminhão para continuarem seu ritual de desapego), a aparente desorientação construtivista de Cada um Vive Como Quer na realidade configura-se quase como um truque, como uma enganação dos que o veem de forma mais veloz. Porque a profundidade dos relacionamentos (que é até mais visível e constatável) é tão densa quando a elaboração que aparenta ser amontoado de situações: a estrutura que exige raciocínio do espectador orienta-o sutilmente para a compreensão, pois na acumulação das partes, percebe-se, com atenção, que não ocorreram solavancos e que as costuras são limpas e azeitadas. E resta lindamente a sensação de um filme de uma época que só poderia ser aquela, com cores que só poderiam ser dela (num belo trabalho de restauro), e com clima muito próximo (na idade, nos anos) dos momentos mais importantes na mudança de estruturas e comportamentos da sociedade ocidental.



Cada um Vive Como Quer
(5 Easy Pieces, EUA, 1970, 98’, 35 mm)
Direção: Bob Rafelson
Elenco: Jack Nicholson, Karen Black, Susan Anspach


Em comemoração aos 40 anos de Cada Um Vive Como Quer, clássico da Nova Hollywood, dirigido por Bob Rafelson e com Jack Nicholson no papel principal, a Sony Pictures promoveu sua restauração digital em 2010.

Para isso, técnicos especializados transferiram os negativos originais de imagem da película35 mm para um arquivo digital com qualidade de resolução 4K e, a partir desse material, começaram um minucioso trabalho de reparação, remoção de arranhões e sujeiras quadro a quadro. Finalizada essa fase do trabalho, o arquivo digital restaurado foi transferido novamente para o negativo 35mm que, finalmente, deu origem à cópia que será exibida no Cine Olido.