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Filmes são acessórios para os festivais de cinema?




Filmes são acessórios para os festivais de cinema?


Por Marcelo Lyra (colaborador do site)

A produção de curtas e longas vem crescendo exponencialmente a cada ano. Desde que integrei a comissão de seleção de curtas do Festival de Brasília, em 2003, quando o total de inscritos mal chegava a cem (mais ou menos o total da produção brasileira na época), até os mais de 500 filmes inscritos este ano no Festival de Curtas de São Paulo (de cuja comissão também fiz parte), o número de profissionais em busca de um lugar ao Sol é cada vez mais impressionante. Coloco dois fatores principais entre as causas. O barateamento das câmeras digitais em HD, de excelente qualidade, e a profusão de escolas de cinema em todo Brasil. O problema é que muitos festivais e mostras do país parecem não estar adaptados a esse crescimento cada vez mais abrupto.

Com tanta gente fazendo filmes, os festivais de cinema ganham inestimável importância principalmente para os curtas, pois são praticamente o único mercado exibidor, a única chance desses filmes terem uma platéia. O problema é que nem todos os festivais e mostras tem critérios decentes para selecionar filmes. Em geral tenta-se caprichar na escolha dos júris, que aparecem mais para o público, mas as comissões são entidades obscuras, relegadas a um segundo plano.

No mês passado o site oficial do Festival de Brasília anunciava os 12 curtas-metragens selecionados de um total de 415 inscritos. O que me assustou foi que a comissão teve apenas oito dias para selecionar os filmes. Ora, se cada curta tiver 15 minutos em média, seriam necessárias 16 horas por dia para assistir tudo. Missão impossível. Mesmo que jantassem, almoçassem e tomassem café da manhã assistindo curtas, seria humanamente impossível ter qualquer discernimento para avaliar a qualidade de um curta depois de algumas horas de sessão. Um dos membros da comissão de curtas dizia, para quem quisesse ouvir, que fizeram uma pré-triagem onde cada examinador assistia apenas três minutos de cada filme.

O mesmo vale para longas. Eram 114 inscritos e apenas oito dias para assistir. Conversei com um dos membros e ele afirmou que todos os filmes foram vistos, exceto um ou outro que não atingiram a duração mínima. Isso ofende a inteligência de qualquer pessoa que goste minimamente de matemática. Se cada longa tiver no mínimo 70 minutos (em geral tem bem mais), nem trabalhando 20 horas por dia daria. É evidente que longas e curtas foram selecionados por trechos, num flagrante desrespeito aos cineastas. Tanto em curtas quanto em longas, pode-se afirmar com toda segurança que nenhum membro da comissão de seleção assistiu integralmente todos os filmes inscritos. Provavelmente nem à metade. Não é por acaso que entre os selecionados, boa parte é de nomes conhecidos.

Isso é um escândalo, um erro grosseiro dos organizadores. Critico com tristeza, pois tenho o maior carinho pelo Festival de Brasília. E a despeito de ter vários amigos nas comissões, arrisco-me a perder todos afirmando que questiono também os integrantes das comissões de seleção, que deveriam ter pedido demissão assim que souberam que não poderiam assistir a todos os filmes na íntegra (seus nomes estão lá no site). É uma questão de respeito aos realizadores e ao público do festival. Eu pergunto: será que os membros das comissões gostariam que seus filmes fossem avaliados da mesma forma que eles fizeram?


O problema não é só o erro de Brasília

A falta de critérios na hora de escolher os filmes não se restringe só a Brasília. Muitos festivais estão dando pouca atenção para a seleção, como se filmes fossem quase coadjuvantes nessas festas. Na verdade, eles deveriam ser o centro das atenções. Quando a diretoria de um festival escolhe uma comissão de seleção ou um curador sem muito critério, a tendência é que o “bongostismo”, o filme médio bem feito, o filme piada, prevaleça. O filme mais ousado, com invenções ou radicalismos, esse que move a roda da história, que oxigena o fazer cinematográfico (como a seu tempo um “Bandido da Luz Vermelha”), tendem a ser rejeitados.

É aí que mora o perigo: o predomínio dos médios, do mais do mesmo. Um novo Rogério Sganzerla passa a ter pouca chance nessa selva. Não quero dizer que só os filmes radicais devam prevalecer. Há que se encontrar o equilíbrio.

Em resumo, a pergunta que não quer calar é: como está a coisa no geral, nos mais de duzentos festivais e mostras que existem hoje no Brasil?

Entre os festivais mais conhecidos há outros com modos de seleção questionáveis. O milionário festival de Paulínia, por exemplo, tem sua seleção feita por funcionários da Secretaria de Cultura. Ninguém especializado em cinema. O resultado é o predomínio do filme médio, bem feitinho. O publicitário “Os 3”; “O Palhaço”, filme dirigido por Selton Melo; o elogiado “Trabalhar Cansa”, escolha óbvia já que havia sido selecionado para o prestigiado festival de Cannes e a emblemática presença da comédia “Onde Está a Felicidade”, dirigida pelo ator Carlos Alberto Riccelli. Ok, havia o documentário de Wladimir de Carvalho, que é um dos nossos maiores documentaristas e o radical “Febre do Rato”, mas Cláudio Assis é premiadíssimo por seus trabalhos anteriores.

O Festival de Gramado, muito criticado por privilegiar a badalação, não faz jus à fama, pois usa um método interessante de seleção, semelhante ao do Festival Internacional de Curtas de São Paulo, com todos os filmes inscritos sendo enviados para membros da comissão (formada por críticos e realizadores), e todos eles sendo vistos por no mínimo três pessoas na fase de pré-seleção: e os classificados sendo vistos por todos.

O Festival de Recife, famoso por sua sala de três mil lugares, uma espécie de Maracanã do cinema, é mais personalista e familiar. O simpático casal Alfredo e Sandra Bertini está no ramo há anos, mas ambos são essencialmente empresários, sem formação cinematográfica. Muitos filmes medianos, que não são selecionados em lugar nenhum, podem ganhar espaço lá na base da amizade. Algumas vezes a pré-seleção de curtas ficava ao cargo de um representante do Grupo Severiano, dono de uma rede de cinemas. É uma pessoa mais credenciada a falar de longas comerciais, não de curtas. De qualquer forma, a palavra final é do casal, o que costuma garantir uma programação bastante irregular, com mediocridades convivendo com alguns acertos.

O casal Raquel e Quintino Hallack, responsáveis pelas mostras de Tiradentes e Ouro Preto, é um caso que tinha tudo para ser idêntico ao Bertini, mas eles deram uma grande virada quando apostaram numa curadoria. Contrataram o crítico e cineasta Cléber Eduardo e lhe deram carta branca. O curador assiste a todos os filmes inscritos e freqüenta diversos festivais para escolher filmes. O resultado é que Tiradentes é uma mostra voltada para realizadores jovens, reconhecida por ter um perfil definido, ter personalidade. Com isso está ganhando prestígio e atraindo curadores de festivais internacionais, que vem garimpar filmes. Já foi citado até na famosa revista francesa Cahiers Du Cinema.

A Goiânia Mostra Curtas tem a curadoria feita pela própria presidente, Maria Abdala. Embora a forma personalista seja questionável, como vimos acima, é preciso considerar que Abdala freqüenta habitualmente pelo menos uma dezena de festivais, participa dos debates e conversa com diretores.

O Cine Ceará e o Cine Esquema Novo (RS) tem a vantagem de ser realizados por diretores de cinema, Wolney Oliveira e Gustavo Spolidoro, respectivamente. No primeiro, há uma complicada engenharia na seleção de longas iberoamericanos.


É fundamental escolher bem os filmes

Falei dos que conheço. Há mais de uma centena por esse Brasil adentro que não conheço, que nem por isso deixam de ser janelas importantes, oportunidades raras de se exibir filmes nacionais. Não quero crucificar ninguém, e sim trazer à baila essa discussão. Há dois modelos sérios para seleção de filmes. As tradicionais comissões de seleção e as curadorias. Gosto dos dois modelos e é importante que coexistam. Comissões com membros de perfis distintos podem fazer com que se traga à luz filmes mais ousados. Mas podem tender ao filme médio e ao “bongostismo”, dependendo dos membros. Curadorias com nomes competentes e respeitados podem dar um bom perfil ao festival, mas se a escolha do curador não for criteriosa, pode eventualmente cair no “amiguismo”: filmes de pessoas queridas prevalecendo sobre outros. Um jovem diretor estreante pode ser condenado ao ostracismo simplesmente por falta de competência dos festivais. O essencial é que os nomes tenham formação cinematográfica.

Um ponto que também me preocupa e precisa muito ser discutido: por conta do enorme volume da produção, há a tendência, entreouvida em vários festivais, de se deixar uma única pessoa fazer uma pré-triagem. Só os de “boa qualidade” iriam para as comissões. O problema é que uma única pessoa incapacitada pode vetar um filme mais ousado ou inventivo, deixando só os estética e politicamente corretos. É talvez o maior perigo, a maior ameaça ao talento, à originalidade.

Os patrocinadores dos festivais e mostras também têm responsabilidade e precisam acompanhar essas escolhas de comissões de seleção e curadores. No mínimo porque estão lidando com dinheiro público, obtido por patrocínios à base de renúncia fiscal. Os patrocinadores não colocam dinheiro próprio, mas sim redirecionam quantias que iriam ser pagas como impostos.

Em resumo, boas comissões ou curadorias são essenciais. Os tempos mudaram e cada vez haverá mais filmes. Essa é uma questão que diz respeito não só aos realizadores, mas a todas as pessoas envolvidas com cinema. Penso que Ancine e ABDs, CBC, APACI, Abraci etc, deveriam estar nessa discussão. Quem lida com cinema sabe o trabalho, o esforço e a dedicação necessárias para se fazer um curta metragem. Um longa, então, nem se fala. Cuidado e responsabilidade na hora de selecionar os filmes é o mínimo que se exige de festivais que, volto a insistir, são bancados com dinheiro público e precisam estar cientes de seu papel como difusor de obras de arte. Me comprometo a acompanhar mais de perto esse assunto.



Marcelo Lyra é jornalista e crítico de cinema.