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A arte foi bela













Érico Fuks

A arte foi bela

Sonhar é preciso. Sonhar faz bem. Imagine conviver com uma sociedade organizada, numa metrópole-modelo, referência para os padrões internacionais. Encerrar a sua jornada diária num cinema que nada mais é do que a extensão de sua casa ou de seu trabalho e, portanto, localizado na própria rua em que você está acostumado a habitar. Suponha que sejam as ideias que movem e transformam o mundo. Ideias valem mais que dinheiro. E é no cinema que você vai se alimentar delas, pra depois descarregar seu esforço cíclico ao se reunir com seus amigos num bar de esquina em frente ao cinema. Uma taverna famosa por congregar os mais entusiasmados artistas, intelectuais, cientistas e manifestantes políticos. É o cinema que provoca, desconstrói e reformula suas ideias. É o cinema que te traz insumos para travar as discussões homéricas com estes amigos nas rodadas de cerveja. E é neste bar que você irá, por causa do filme que acabou de ver, tentar entender melhor o ser humano ou traçar os rumos pra consertar a desordem deste país.

Diante deste quadro que beira o absurdo, seja pela utopia de sua proposição ou pelo desbotamento descritivo de suas linhas, fica fácil concluir que o cine Belas Artes morreu por causas naturais. Infelizmente, o templo heptagenário da cinefilia paulistana estava praticamente falido depois que perdeu o patrocínio do banco HSBC. O bar de esquina (Riviera) fechou faz tempo, não existe mais. A intelectualidade então, nem se fala. Tirando os eventos de relativo sucesso (“Noitão” e “Sessão Cineclube”, dependendo do filme) e os dias da semana com valores dos ingressos mais convidativos (segunda e quarta-feira, R$ 10), foram poucas as vezes que vi o Belas Artes movimentado. Já faz um tempo que o cinema se afastou de seu(s) público(s). A população considerada “média” prefere os blockbusters que não passam ali. Para essas pessoas, o cinema está mais para a diversão do que para a reflexão. Nada mais rentável então do que fazer apostas seguras, considerando-se que filme é como uma bolsa de investimentos e de cotações e não objeto de análise da matéria. Este nicho prefere a segurança dos shoppings, redoma e cárcere do consumismo, e a “Sétima Arte” ali se mistura ao odor homogêneo das batatas fritas, dos perfumes de marca, ao som irritante dos bipes das senhas e do poperô das lojas, ornada com o visual sinestésico e multicolorido Flicts, amálgama acinzentado do nada. Cinema de shopping não tem cara, não tem gosto, não tem vida. Mas se é ali que se depositam os trocados que fazem a diferença nos relatórios semanais de bilheteria do “Filme B”, resta pouco a se criticar. Mas o Belas Artes não perdeu a guerra somente em relação a essa cultura rasteira. Os próprios cinéfilos de rua andaram preferindo outros redutos vizinhos. Para eles, o Belas Artes ficou devendo a reforma que nunca houve. Com o patrocínio bancário, realizou apenas uma maquiagem nas suas instalações, mudou o visual, trocou assentos, tirou o mau cheiro e tal. Mas faltou uma reformulação em sua estrutura. Em tempos de dolby surround e 3D, a qualidade de som permaneceu discutível até os últimos dias. E a projeção também deixou a desejar, se comparada à concorrência. Isso sem falar na projeção em formato digital, que nem vou mais entrar nessa seara. Na verdade, as salas que valiam a pena frequentar eram as superiores, numa tentativa de se colocar a arte mais próxima ao culto e à adoração divina.

Verter lágrimas pelo Belas Artes é mais um ato simbólico do que uma manifestação sincera de tristeza. No ano passado, o “Gemini” também fechou suas portas e não conseguiu trazer nenhuma comoção maior do que o caráter saudosista que embalava os farrapos descosturados das salas decadentes. Esse tipo de manifestação em caráter de luto traduz apenas um sintoma de que o cinema de rua, como um todo e não especificamente este ou aquele caso citado, está morrendo aos poucos. Houve uma mudança cultural, uma migração progressiva e inerente de hábitos. O download internético e individualista é um processo irreversível, assim como as fitas VHS também um dia foram uma ameaça ao cinema em película. De um modo geral, 2010 foi festejado com um aumento de bilheteria, mas isso causou pouco impacto à sobrevivência do Belas Artes. A esquina da Paulista com a Consolação (nome de rua bastante apropriado ao momento) vai ficar na memória por causa de sua carga cinematográfica histórica, como a exibição exclusiva de Godard e a confusão que seu “Je Vous Salue Marie” gerou, a polêmica em torno de “O Último Tango em Paris”, as intermináveis sessões de “O Carteiro e o Poeta”, “Cinema Paradiso”, “As Bicicletas de Beleville” e, recentemente, “Medos Privados em Lugares Públicos”, os festivais de cinema russo, a nouvelle vague, o período Gaumont, a Mostra de Cinema, etc. É bom lembrar que o charme dessa esquina nada mais é do que um imóvel para fins comerciais. Seu destino ainda é uma incógnita, mas tudo aponta para um templo do comércio, do pagamento a prazo, do atendimento frio e impessoal que nada lembra o aconchego da sala escura. Não adianta chamar o seu Maluf de mesquinho ou insensível à causa. O prédio do Belas Artes foi colocado em leilão. Ganha quem oferecer mais pelo espaço. No contexto capitalista que permite a proliferação de cultura em shopping, essa atitude é até natural. Se o verdadeiro cinéfilo ama o Belas Artes, só que à distância dele, em nada adianta o proprietário amargar prejuízos mensais em nome do luxo de oferecer à cidade um patrimônio da belle époque. A única maneira de manter o Belas Artes vivo, ainda que respirando por aparelhos, seria uma intervenção da Prefeitura ou alguma medida judicial proibindo a mudança de sua trajetória. Amor platônico não é forte o suficiente para manter a arte viva. Numa sociedade em que o cinema é pensado como produto, amor que sustenta a arte é o amor pago. É o amor prostituto.


do blog "Lentilhas Vesgas"