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CINEOP - 12ª Mostra de Cinema de Ouro Preto




*Escola de Cinema

Escola de Cinema

Por Humberto Pereira da Silva

Uma boa surpresa na 12ª CineOP foi ver o documentário Escola de Cinema, dirigido por Ângelo Ravazi. Ex-aluno do curso de cinema da ECA-USP, Ravazi concebeu um filme sobre o processo de criação do curso nos anos de chumbo da ditadura militar, assim como sua solidificação nos primeiros anos de redemocratização. Para tanto, contou com entrevistas elucidativas de nomes como Carlos Augusto Calil, Ismail Xavier, Jean-Claude Bernardet, Maria Rita Galvão, Maria Dora Mourão, Carlos Roberto Souza, Alain Fresnot.

Ravazi deixa seus entrevistados falarem livremente e eles expressam principalmente o clima opressivo do final dos anos de 1960 e a maneira como, impulsionados por Paulo Emílio, levaram adiante o projeto de um curso de cinema. Paulo Emílio, de fato, é exibido como a figura aglutinadora que reuniu em torno de si pessoas que, com a utopia da transformação social, viam no cinema um canal privilegiado para se pensar e refletir sobre o país.

Todos os entrevistados tributam a Paulo Emilio o papel de figura chave para que, nas brechas da ditadura, fosse criado um curso de cinema na USP, quando essa tinha por reitor o jurista Gama e Silva, signatário do “Ato Institucional Número 5”. As circunstâncias que permitiram a criação do curso no mesmo momento em que professores como Fernando Henrique Cardoso foram compulsoriamente apostados por Gama e Silva não são esclarecidas.

De fato, o final da década de 1970 é extremamente conturbado e controverso. Paulo Emilio e Jean-Claude tinham se demitido da UnB, onde igualmente tinham organizado um curso de cinema que teve suas atividades comprometidas em razão da censura do regime. Nos depoimentos colhidos por Ravazi, seria interessante se se pudesse ter explicação do por que o curso de cinema da USP não ter tido o mesmo destino do da UnB. De qualquer forma, Escola de Cinema consegue captar dos entrevistados o clima de medo e de paranoia que marca a realidade política no Brasil durante o AI5.

Colhidos hoje por figuras determinantes naqueles anos de formação do curso, os depoimentos nos mostram os tortuosos caminhos da cultura em nosso país. Caso o documentário não seja suficientemente esclarecedor, deixa evidente, por outro lado, que apesar da forte esquema repressivo a ECA se manteve no fio da navalha: e os principais impulsionadores do curso de cinema sobreviveram para contar a história. Uma história que, sim, nos faz ver o quanto em momento de crise o cuidado com o trajeto intelectual é vital.

Sem que se tenham comprometido com o regime, os entrevistados que se manifestam no filme deixam claro que a solidificação do curso de cinema da ECA – não se pode falar propriamente em resistência numa instituição do governo – foi em grande parte resultado de empenho pessoal, exposto a toda sorte de risco. Para a geração dos dias de hoje, e incluo Ravazi, o exemplo de que nossa história cultural exige perseverança, e que nos jogos do poder não há qualquer indício de que uma inciativa seja bem sucedida.


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