Fonte: [+] [-]





CINEOP - 12ª Mostra de Cinema de Ouro Preto




*É Um Caso de Polícia

É Um Caso de Polícia

Por Humberto Pereira da Silva

A premissa da preservação do audiovisual é vital quando se tem em mente a questão da identidade cultural. A memória cultural de um país fica impressa em filmes que legam às gerações seguintes uma atmosfera que reflete costumes, formas de vida, hábitos cobertos pelo tempo. Daí a importância de a 12º CineOP ter incluído em sua programação É um Caso de Polícia!, filme de 1959, e até hoje inédito.

Realizado por Carla Civelli, diretora italiana radicada no Brasil, trata-se do único filme feito por ela. Civelli, na verdade aqui no Brasil trabalhou principalmente com teatro e televisão. Foi diretora do TBC (Teatro Brasileiro de Comédia) e a primeira mulher a dirigir teleteatro e novelas na antiga TV Tupi. Seu trânsito pelo cinema se deu como montadora, pela Vera Cruz e a Maristela. Assim, a direção de É um Caso de Polícia! surge como um ponto fora da curva em trajeto.

Certo, filme dirigido por uma mulher, coisa raríssima naquela época, carregado muito de idiossincrasia de nosso cinema e de acasos. Feito, ficou guardado na casa de sua realizadora, que morreu sem ter visto nenhuma exibição pública dele. Seriamente ameaçado de perda foi restaurado em projeto criado pela sobrinha de Carla, Patricia Civelli, diretora da Memória Civelli Produções Culturais. Apenas por conta desse trajeto acidentado, já valeria a pena tomar conhecimento de É um Caso de Polícia! .

Mas o filme de Carla Civeli é mais do que mera curiosidade arqueológica. Valeria vê-lo simplesmente para ver a estreia de Glauce Rocha no cinema, assim como os então jovens Claudio Corrêa e Castro, Sebastião Vasconcelos, e Renato Consorte. Se isso não fosse suficiente, há a paisagem da época, as praias de Copacabana, Leblon, e o morro onde hoje está a Rochinha, ainda coberto pela mata. Isso tudo num filme com roteiro e argumento de Dias Gomes.

Considerados os elementos externos que instigam o espectador a vê-lo, trata-se de um filme que reflete as preocupações estilísticas e temáticas de então. A narrativa segue o modelo das chanchadas. Cenas cômicas, improváveis, num ritmo acelerado. O enredo tem por mote a confusão em que se mete uma jovem obcecada pela leitura dos crimes passionais que ganham manchetes na imprensa.

Com imaginação fértil, ela se enreda e carrega seu noivo numa trapalhada com o autor de uma novela de rádio. Ela ouve a conversa do autor com um colega, na qual ele está em dúvida sobre se mata ou não o personagem feminino da novela. A jovem toma o planejamento do crime na ficção como realidade, e tenta evitá-lo. Ao final, a barafunda é desfeita e o casal ganha manchete nos jornais como trambiqueiros.

Seguindo os parâmetros das chanchadas, É um Caso de Polícia! é um filme que entretém com situações engraçadas, com acento no cômico que revela muito do cotidiano urbanizado do final da década de 1950. Não se trata propriamente de uma obra-prima, mas de um filme que toca ao revelar a ingenuidade comportamental de uma época na qual a cidade do Rio era carregada de romantismo, em que as relações humanas não eram marcadas pela desconfiança.

Ao tentar evitar um suposto assassinato, a jovem entra /no casarão onde vive o escritor e é recebida pelo mordomo como se fosse recebida num baile. E pensar que hoje não conseguimos entrar num prédio para um exame médico sem sermos filmados, fotografados e termos a carteira de identidade devidamente registrada. Na dimensão nostálgica e no contraste com nossos dias, então, o grande apelo afetivo nessa fita de Carla Civelli: felizmente restaurada.


*Voltar à página inicial da cobertura




*Site do Evento