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CINEOP - 12ª Mostra de Cinema de Ouro Preto




*Mulheres da Boca

Mulheres da Boca

Por Humberto Pereira da Silva

Nessa edição da Mostra de Cinema de Ouro Preto (vulga 12ª CineOP), um dos destaques é a seleção de filmes realizados por mulheres. Mais: mulheres diretoras que se voltaram para questões específicas das mulheres. Da seleção, realço pela ousadia e inevitável choque o curta-documental Mulheres da Boca, um filme de 1982, realizado por Cida Aidar e Inês Castilho.

Na sequência do ciclo da Pornochanchada, o início dos anos de 1980 é marcado pela guinada para os filmes de sexo explícito. Importante lembrar que, com a Abertura Política do final da década de 1970, filmes de conteúdo político e erótico proibidos pela censura foram liberados. E as pornochanchadas, que exibiam cenas de sexo implícito, se tornam bem apimentadas, gerando enorme produção de trabalhos na região da Boca do Lixo, momento em que Cida Aidar e Inês Castilho realizam esse Mulheres da Boca.

O filme delas, então, se insere no contexto de época. Lançar um olhar para uma região da cidade de São Paulo que se notabilizava pela vasta produção de filmes com conteúdo sexual. Os filmes realizados na “boca do lixo”, claro, invariavelmente exibem a vida das mulheres que vendem o corpo, cafetões e personagens do submundo do crime. Importantes diretores daqueles anos oferecem um quadro etnográfico daquele espaço, o que nos faz pensar no quanto o cinema ficcional é fonte de registro da realidade social.

Mulheres da Boca, de qualquer forma, não é ficção e, sim, pelo olhar de duas mulheres, a crua e sórdida realidade de mulheres que vivem em condições indigestas. Cida Aidar e Inês Castilho realizam um filme forte, com imagens chocantes, de um mundo terrível, desolador, sem expectativas. Com cenas externas na região da “boca”, em quartos de hotel, em boates, onde prostitutas, cafetões e a corrupção policial de imbricam de forma promiscua e nada velada.

A miséria da condição humana é revelada sem retoques, sem aparos. Ao ver o curta, penso no quanto a realidade social de uma cidade como São Paulo pode ser chocante, no quanto há um submundo sórdido no qual o mais mórbido é saber que se trata de uma realidade desesperançada. Porque, feito por duas mulheres, ainda que isso fosse desnecessário, o filme ganha uma legitimidade que seria diversa por mãos masculinas.

Quando se tem em mente hoje a necessidade de um discurso politicamente correto, pelas mãos de um homem, Mulheres da Boca poderia cair no risco do distanciamento, da falta de experiência vivida de fato para abordar tema tão delicado. O politicamente correto não deixa de ser uma faca de dois gumes. Feito por mulheres, inevitável destacar a forma como Cida Aidar e Inês Castilho captam numa entrevista o olhar cínico e sereno de uma mulher que vive da exploração de outras mulheres.

Corajoso e indigesto, Mulheres da Boca exibe o fundo de um iceberg para o qual grande parte das pessoas vira as costas. Por suposto, não é um filme para se gostar ou não. Mas, para refletirmos no choque entre o mundo civilizado, higienizado, asséptico e a barbárie no qual alguns estão imersos.


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