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CINEOP - 12ª Mostra de Cinema de Ouro Preto




*Sobre dois curtas que impressionam

A Voz e o Vazio: A Vez de Vassourinha” e “Aniceto do Império, Em Dia de Alforria...?

Por Humberto Pereira da Silva

Uma das experiências mais gratificantes numa evento como a Mostra de Cinema de Ouro Preto é a oportunidade de acesso a filmes que de outro modo são praticamente inacessíveis. É o caso dos curtas documentais A Voz e o Vazio: A Vez de Vassourinha, dirigido por Carlos Adriano, e Aniceto do Império, Em Dia de Alforria...? , de Zózimo Bulbul. Nesses dois filmes, o foco em Vassourinha e Aniceto, dois cantores populares representativos em momentos distintos de nossa história e hoje esquecidos.

Somados, nos filmes menos de 30 minutos de exibição. Em menos de meia hora, portanto, a importância de se puxar para trás e vermos como nossa memória cultual de veio popular cai no esquecimento. Vassourinha foi um sambista paulistano do início da década de 1940 que gravou seis discos 78 rpm e morreu precocemente aos dezenove anos. Aniceto põe em cena depoimentos do sexagenário sambista carioca fundador da escola de samba Império Serrano.

Um ponto em comum liga os dois filmes: tratam de artistas negros, pobres, e que criaram suas obras a partir das condições sociais em que viviam. Por conta desse ponto em comum, são filmes de que se pode destacar o sentimento de resgate, tanto quanto o de evocação nostálgica. Vistos hoje, ascendem a memória para um tempo outro, em que de origens bem simples artistas se expressavam sem a sedução midiática atual.

De Vassourinha, na verdade, pouco se sabe. Até as condições de sua morte precoce não são precisas. Para conceber seu filme, Carlos Adriano se apoia em fotos e notícias de jornal da época. Não há no filme imagens em movimento e sim a junção de fotos que se alternam enquanto se ouve a voz de Vassourinha. Trata-se de um filme que pega o espectador desprevenido, porque deixa a sensação do quanto sabemos pouco de nosso universo cultural.

O ritmo em que as imagens sucedem e a voz do artista ressoam o sentimento de necessidade de preservação, de que um artista assim não merece ser esquecido. Sem que apele ao oportunismo sentimental, Carlos Adriano nos faz ver a pobreza de nossa memória cultural. Realizou, pois, um curta tocante e exemplar do cuidado que se deve ter com artistas que trazem o sentido profundo de uma época.

Embora Vassourinha e Aniceto sejam contemporâneos, o último vive para contar sua história no início da década de 1980. Criador de enredos da escola de samba Império Serrano, Aniceto teria seu nome e glória reconhecidos. O que se vê no filme de Zózimo Bulbul, no entanto, é um sexagenário cansado, que mal desce os degraus de uma viela, e que fala de modo melancólico sobre seu papel na cena do samba carioca.

Algumas cenas do filme de Bulbul, de fato, são deprimentes. A mais chocante é a que se vê Aniceto descarregando um caminhão no porto. Ele mal consegue se dobrar e empilha sacos de comida numa empilhadeira. Em seguida, para relaxar, vai tomar alguns goles de cerveja e canta uma de suas criações. Ao ver Aniceto, seu modo de vida, seu sentimento de mundo, a percepção de que, enquanto registro de nossa realidade social, Bulbul revela a incontornável importância do cinema.

Enfim, provavelmente esquecidos depois das projeções, esses dois curtas documentais mostram que os projetos pessoais de seus autores estão em sintonia com os personagens retratados. Ou seja, com sorte serão mostrados em eventos casuais em algum momento do futuro. Triste, mas nisso uma constatação cruel, para reafirmar, de nossa pobreza cultural.


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