Fonte: [+] [-]





CINEOP - 12ª Mostra de Cinema de Ouro Preto




O professor, crítico, escritor, e por sorte colaborador do site, Humberto Pereira da Silva, está em Ouro Preto para algumas pinceladas sobre o festival que para nós do Cinequanon se estabeleceu como o mais diferenciado e agradável de ser acompanhado. Começa hoje falando da “última” (nunca, na realidade, pois sabemos de trabalhos dele em edição) obra-prima de Andrea Tonacci.

Então, ao CineOP.

*Já Visto, Jamais Visto (23/06/2017)

Por Humberto Pereira da Silva

Já Visto, Jamais Visto (longa)
Direção: Andrea Tonacci
Duração: 54min.
UF/Ano: SP/2013

Algumas personalidades têm importância singular em nossa filmografia. Tenho em mente de modo mais direto a figura de Mario Peixoto, que criou toda uma aura mítica em torno de Limite, único filme que realizou em 1931. No cinema mais recente, uma personalidade com características similares é a de Andrea Tonacci. Italiano, radicado no Brasil, é autor de dois filmes praticamente únicos em nossa filmografia: Bang Bang (1970) e Serras da Desordem (2006).

Vê-se já pelo hiato temporal a singularidade no ritmo de realização de Tonacci, assim como os diversos modos de vê-lo em nossa cena cultura. Bang Bang se insere no campo das produções do “cinema de invenção”, durante os anos de chumbo da ditadura militar; já Serras da Desordem é uma espécie de ponto fora da curva no “cinema da retomada”. O canto do cisne desse cineasta singular e genial é Já Visto, Jamais Visto (2013), exibido ontem aqui na 12ª Mostra de Cinema de Ouro Preto.

Nenhuma novidade, num primeiro momento, afirmar que Já Visto, Jamais Visto satisfaz plenamente à expectativa de que Tonacci apresentaria algo “diferente”, algo que não se vê tão frequentemente em nosso cinema. Sim, é um Tonacci em que ao mesmo tempo em que se reconhece sua assinatura, apresenta a peculiaridade de trazer algo novo em relação ao que ele fez: ou seja, é uma obra essencialmente diversa de Serras da Desordem, como Serras... é diverso de Bang Bang.

Nesses três filmes, simultaneamente se reconhece o autor e como esse mesmo autor cria algo em certo aspecto absolutamente novo em relação ao que fez anteriormente. Já Visto, Jamais Visto é o recolhimento de fragmentos de imagens filmadas por Tonacci ao longo da vida. Imagens soltas, despretensiosas, que em princípio se perderiam com o tempo. Assim, nessas imagens, o registro do cotidiano no ambiente familiar, conversa improvisada com amigos, com a câmara...

É um filme que justamente joga com a indefinida região fronteiriça entre o registro despretensioso e o falseamento da despretensão. Imagens calculadamente imprecisas, situações ilusoriamente improvisadas, lembranças voluntariamente registradas. Ou seja, deliberadamente, um filme para ser acidentalmente visto. Jogar com essa imprecisão faz dele cinema inquietante, e que desperta curiosidade.

Suas imagens não se situam no registro de decodificação imediata. Há algo mais a se extrair delas. O menino (seu filho Daniel) é posto na cama, ele vai dormir e para dormir dá corda em uma caixinha de música que toca Scott Joplin. Ao som do ragtime, o bonequinho de um palhaço que dança. A música toca, o menino dorme placidamente. O espaço em que o menino dorme, interessante, remete a um tempo diferente do atual: um tempo em que uma criança dormia ao som de uma caixinha de música.

A cena poderia ser apenas despretensiosa, mas é carregada de sentidos. Em Já Visto, Jamais Visto o tema de fundo é a memória, o resgato do registro do que foi coberto pela passagem do tempo. O caixinha de música é de outro tempo, para a criança que vai se deitar, mas é ela que liga a criança deitada às imagens em fotografia de Tonacci criança com os pais na Itália. Na caixinha de música o arco de tempo que separa as gerações por mais de meio século.

Nisso, nesse ponto essencial, assim entendo, a grandiosidade dele (do filme). Vale dizer: não o de tornar calculadamente o registro de memória, mas deixar o espectador sentir os registros a partir de suas próprias experiências. A caixinha de música é um dado que em cada um se revela por meio de outros objetos que nos enfeitiçam. Não suponho que Tonacci tenha pensado assim de modo deliberado, mas a mim, pelo menos, inevitável ver Já Visto... e não pensar em Marcel Proust.

Caso não tenha sido deliberado, Já Visto, Jamais Visto é uma das melhores “adaptações” que “Em Busca do Tempo Perdido” poderia ter. Na caixinha de música, ao som de Scott Joplin, a madalene proustiana.



*Voltar à página inicial da cobertura




*Site do Evento