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Cinefilia em Construção: “Rashomon”




















Cinefilia em Construção


"Rashomon"                                                  (publicado: 052017)


Por Rei Souza

Minha família conseguiu um vídeo cassete ali pelo início dos anos 2000. Aliás, assim como boa parte da vizinhança, sinal de que a situação econômica estava mudando. O boom das locadoras se deu entre 98 e 2006. Com o recente poder de locação a gente conseguia se movimentar com mais avidez pelos filmes, e consumia com mais apetite. Podíamos escolher e experimentar mais títulos, e assim escapávamos de vez da rigidez programada pelos canais de televisão. Meu primo e eu gostávamos de filmes que conseguiam algo mais: filmes em que o herói, graças ao esforço dedicado em sair da espiral que o envolvia, nos apresentasse uma característica nova durante essa escapada, ou no mínimo desse um nó na nossa percepção. Aí a gente se encontrava e discutia cada milímetro daquela sensação. Lembro de passar horas dentro das locadores, vasculhando. Foi numa dessas que encontrei um filme chamado Ghost Dog. Me impressionou muito: primeiro, por conter algo da filosofia oriental aplicado ao assunto dos samurais que muito me atraía; e, depois, por conta da trilha sonora, composta por música negra. Lembro que na época havia me causando mais espanto que Pulp Fiction e Snatch, e até mais que Clube da Luta (era comum entre meus conhecidos não saberem o nome dos autores dos filmes, e muito menos se interessarem por esse dado: pareciam invisíveis, o pessoal usufruía do enredo, quando um ator parecia em diversos filmes diziam, “esse cara aí é bom!”. Aprendemos a desfrutar dos filmes assim, com essa leveza marota e sem maiores pretensões: se nos era dado o enredo e algumas sensações, então tomávamos isso pra nós, e era tudo! Quando a pirataria chegou com suas centenas de títulos quinzenais essa prática deve ter se potencializado. São apenas filmes, que tenho eu com seu autor ou com sua equipe de produção e mais: que diabos de autor pode ter um filme?). Lembro que pipocava pelo bairro as recentes lan-houses, e foi numa delas que pela primeira vez procurei ler sobre um filme. Foi a primeira vez que dediquei um tempo ao diretor de um filme, no caso Jim Jarmusch, procurando compreender mais ou menos o processo de criação daquele filme. Ghost Dog havia me impressionado por conta da trilha sonora, das citações do Hagakure, e havia algo mais: um detalhe no tempo, algo que eu não entendia, mas que se dava na montagem: eu tentava compreender como aquele filme se diferenciava de tudo que já tinha visto. Naquela primeira pesquisa descobri haver muitas referências no filme de Jarmusch, e numa dessas foi que pela primeira vez vi ser citado o nome de Akira Kurosawa. Por essas bandas e talvez em muitas outras por aí, era (ou ainda é) comum a concepção de que filme é filme, e cinema é cinema, tipo: cinema é o lugar no shopping onde se exibem os filmes. E cinema era algo distante, inacessível, com seu ar imponente, preços surreais, poltronas vermelhas, ar condicionado e pipocas grandes. São tantas as coisas que prejudicam o acesso à arte, impedem a descoberta dos inúmeros processos de criação, marginalizando assim o entendimento. São tantas as coisas que são ofuscadas pelas necessidades mais urgentes de uma vida prejudicada pelas carências... Mas, aqui, corre-se o risco de se perder: portanto que prevaleça o foco.

A descoberta de Ghost Dog abriu a suspeita de que havia algo errado aí. Lembro que eu possuía uma certa e frágil intuição na qual me agarrava com unhas e dentes, e que se fortalecia graças à invenção da internet, expandindo assim o campo de investigação e potencializando a curiosidade. Um belo dia, passando pelas locadoras do centro da cidade, descobri uma fita no canto mais distante das intermináveis prateleiras: estava escrito Rashomon, havia a imagem de Thoshiro Mifume na capa, e logo abaixo o nome de Akira Kurosawa, o mesmo citado no texto que havia lido na lan-house. Foi meio complicado fazer a ficha pra locação ali, mas consegui. Dali, a ver Os Sete Samurais (que encontrei na mesma locadora, assim como Trono Manchado de Sangue), Taxi Driver, 2001, Uma Odisseia no Espaço, Apocalipse Now, Psicose... foi um pulo! Esses filmes sempre estiveram por lá, mas não conseguia ver porque era preciso escapar do condicionamento criado pelo estilo de filme que estava disponível no início dos tempos de locação, que é também um fluxo criado pela televisão e que cerceava a minha imaginação: portando condicionava o meu querer. Foi como se um mundo se abrisse a cada filme visto e a cada ida até a lan-house, para uma leitura induzindo a novos títulos.

Revi Rashomon várias vezes desde então e sempre me impressiona! O filme é baseado em dois contos do escritor Ryunosuke Akutagawa: “Dentro do Bosque” e “Rashomon”. Tempos depois adquiri o livro “Contos Fantásticos”, que continha esses contos, tamanha era a minha fascinação. No conto “Rashomon”, um samurai dispensado pelo seu mestre espera a chuva passar debaixo de um imenso portal: havia cadáveres na torre, (naquele tempo as tragédias eram frequentes e pululavam cadáveres por todo o feudo), ali ele encontra uma velha roubando fios de cabelo e a mesma lhe apresenta aos tempos em que ele se encontra. No filme, a figura da velha e também, porque não, do samurai, é representada pelo personagem que atravessa a chuva e procura sob o portal proteção: é como se ele amalgamasse os dois personagens, gerando um terceiro mais cruel e mais cínico. E assim, ao se abrigar da chuva e ao perceber o camponês e o monge suspirando ele os provoca, na tentativa de saber o que lhes causava tanto espanto e buscando afastar o tédio proveniente daquela maçante chuva. O filme se estrutura principalmente no conto “Dentro do Bosque”, que versa sobre o interrogatório: houve um crime, ouvimos as partes envolvidas, e a cada depoimento somos levados a desconfiar de todos os envolvidos. Mas Kurosawa cria um episódio novo, explora o ponto de vista do camponês, revelando sua participação no crime. No conto, tudo fica em aberto; já no filme, Kurosawa fecha o círculo. A criança ao fim revela o nível de desumanidade daqueles tempos: o terceiro personagem rouba o tecido que envolve a criança, como o samurai rouba o quimono da velha no conto “Rashomon”.

A história varia dependendo do interesse. A versão do camponês talvez seja a que mais se aproxime da verdade dos fatos, mas após seu crime ser revelado não temos mais certeza de nada: ele pode ter feito algo ainda pior. É como se a vida fosse sempre um jogo entre criminosos, e é isso que preocupa o pobre monge. Ao perceber a criança desamparada, o camponês decide adotá-la, como que querendo expiar seus crimes; e o personagem do monge entrevê ali a possibilidade de manter a fé no homem. Mas voltando na narrativa, lembro da luta entre Tajômaru e o Samurai sob o ponto de vista do camponês: uma luta totalmente esvaziada da famosa graça e controle de técnicas de que os contos e lendas de samurai tanto se vangloriavam. Tajômaru parece viver apenas da fama, assumindo fatos desencontrados, como se fossem seus, criando uma falsa narrativa de feitos maldosos: ele e o Samurai lutam de tal maneira que suas espadas tremem - mal se encontram, mal se olham, tropeçam, rastejam pelo chão, desmentindo os vinte e três cruzamentos de espadas citados pelo bandido no depoimento. Provocados ou manipulados pela mulher descontrolada eles se veem obrigados à luta: antes, acusam a mulher de ser um ser fraco; depois, provam eles mesmos serem seres fracos, medrosos, covardes. A fama é uma forma de mentira - ela se antecipa e sustenta as ficções -: as pessoas sabem construir reinos inteiros em cima desse alicerce fantasioso, há de se desconfiar de tudo nessa vida, parece nos provocar o filme. Fui perceber essa luta com mais clareza tempos depois, quando observei a ausência de graça, de perícia, daquela grandeza samurai que tanto me encantava. O mito do samurai desconstruído de forma tão magistral. Mas poderia ser apenas birra do camponês: “pode ser que ele deteste todo e qualquer samurai, pode ser que ele estivesse mentindo”.

Eis um grande filme, que sabe como escorrer pelo tempo! E que tá entre os dez mais na minha listinha desengonçada dos melhores filmes que já vi!



Rei Souza é artista visual e recentemente vem desenvolvendo pesquisa como documentarista.