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Cinefilia em Construção: “10 Curtas”


























Cinefilia em Construção


"10 Curtas"                                                  (publicado: 04/2017)


Por Rei Souza

Escolhi dez curtas dentre os meus preferidos e os revi em sequência para depois escrever um pouco sobre cada um deles. E a brincadeira é meio um exercício, mas também uma forma de homenagem. Segue na mesma sequência em que foram vistos. (Todos os filmes citados estão ou no Youtube ou Vimeo, com exceção do filme do Cao Guimarães).

Da Janela do Meu Quarto
Cao Guimarães, 2004, 5min.


A câmera como uma ferramenta que vasculha o que a aparência das coisas nos entrega. O filme como o resultado dessa aventura. Da Janela do Meu Quarto versa sobre duas crianças brincando num dia de chuva e lama. Não há narração, cartela, ou sequer enredo, fora a edição de som e alguns recursos de montagem não há nada além de duas crianças brincando num dia de chuva e lama! O filme como algo que exige da gente um certo movimento, ou melhor, deslocamento! É preciso vencer a passividade diante da imagem para que comecemos a ver direito: até que, quem sabe, consigamos desemaranhar as camadas do aparente e assim, por fim, perceber o trágico e o cômico entrelaçados nos gestos mais banais. Nada além de duas crianças brincando num dia de chuva e lama... Tudo além...


Dias de Greve
Adirley Queirós, 2009, 24min.


Aqui encontrei uma rara amostra da melancolia que contorna os traços do rosto do homem que habita o cerrado (uma variação do mesmo sentimento que habita o homem do resto do país, guardadas as sutis peculiaridades). O autor do filme compreende cada movimento, parece entender bem a formação daquele mundo, parece olhar de dentro as pequenas crises que justificam seus personagens. Que greve é essa? “Não pode ser séria”, diz um dos personagens. E é séria! Tudo no filme é demasiado sério. E as frustrações que apontam lá no horizonte? E não deve ser a primeira vez que ela dá as caras por aquelas paragens. Um mal estar atravessa todo o curta. No fundo, eles sabem que não vão conseguir muita coisa com a greve, mas não tocam no assunto, permanecendo um certo tipo de silêncio, sustentado com gestos corriqueiros, com a preparação do cerol pra pipa, com o futebol na rua, copos de cervejas nos bares. Não sei ao certo se durante o desfile, Assis é tomado de uma vez por esse mal estar, ou se apenas sente dores no joelho, mas parece que algo de muito importante acontece ali. Mas há o dia seguinte...


Um Pouco Mais De Um Mês
André Novais, 2013, 22min.


Acho que todos já vivenciamos de alguma forma, guardadas as proporções e variações de ritmo, o que foi encenado por este filme. Ele versa sobre um entretempo, sobre o processo de se ajustar ao outro, sobre o que há de mais trivial nesses processos, e também de mais singelo. Percebo nele todas as minúcias que permeiam aqueles instantes e ainda as pequenas tentativas de superar os sutis incômodos que vão se escondendo e se revelando a cada mínimo gesto. Se conseguirem vencer essa pequena aventura, outras virão, e assim a vida seguirá... E não é ela, a vida, uma coisa fantástica?


Malunguinho
Felipe Peres Calheiros, 2013, 15min.


O que perfaz o homem negro é a impossibilidade de encarar a si mesmo de maneira correta, dentro de uma sociedade que prefere fingir não ter responsabilidade alguma pelos males causados aos seus ancestrais e, por conseguinte, à sua pessoa. Nós não nos vemos direito! Digo 'nós' porque o problema, em verdade, nos abraça a todos: pretos-marrons-amarelos-brancos. Vivemos tortos, adaptando-nos ao que não nos cabe, fluindo no que há de mais sujo e nocivo, e fazendo de conta que nada demais está acontecendo, tão acostumados estamos com o que nos cerca. O fogo no filme é algo que me incomoda muito e parece denunciar tudo o que foi dito acima. No Brasil, a prática da destruição das matas parece simbolizar o anseio secreto da dizimação da culpa: talvez, dizimando as matas, conseguirão acabar com todos os vestígios (e cicatrizes profundas) deixados pelos usurpadores. Pode ser uma impressão errônea, mas ela vem e fica, e ainda mais com Miró da Muribeca derramando sua oralidade cheia de dor, iluminado por um dourado fogaréu dizimando a mata, bela e imponente mata, que parecia ser um dos personagens principais do filme.


Nada Levarei Quando Morrer Aqueles Que Mim Deve Cobrarei no Inferno
Miguel Rio Branco, 1981, 19min.


Um dos curtas que estão no topo dentro os meus favoritos. É ácido. É violento. É brutal. Quantas e quantas vielas como aquelas não há, ainda, por aí neste brasilzão de meu deus? E o que sabemos sobre o Brasil? O Brasil é um monstro e estamos sendo carregados por ele enquanto tentamos escapar das suas entranhas, enquanto viramos o rosto negando as suas vísceras, e negando também nossa responsabilidade quanto a sua construção, ou invenção. Miguel Rio Branco é artista visual e documentarista, mas parece atuar aqui mais como um médico que recorre a procedimentos escusos para revelar o que não aceitamos: é como se ele dissesse, “somos isso, não há pra onde correr”. E assim, com seu filme, ele faz uma cisão precisa, mostrando o que estamos habituados a fingir não perceber: e ele corta de dentro, porque ele também pertence a tudo aquilo; e ele não nega e nem pretende negar isso; ele olha direto e nos força a olhar direto. E é assim: nós não conseguimos fugir da verdade; nós estamos de fato lá dentro, somos vizinhos daquelas vielas; nós somos aquelas vielas.


Nego Fugido
Cláudio Marques, Marília Hughes, 2009, 16min.


Quando o companheiro entra no personagem do nego fugido, o que será que ele vê? Percebo que seu olhar de interesse muda, as mãos que seguram a câmera vai perdendo o enquadramento, ela vai se afastando aos poucos, enquanto o companheiro mergulha cada vez mais fundo no personagem. Em voz off, logo no início do filme, diz: "a carta de alforria de cada um já está escrita, quem irá ler em voz alta, quem irá?" Seria aquela a leitura da carta de alforria da menina? Ou a de seu companheiro? Trata-se de um jovem casal interessado pela cultura popular, caçando seu lugar no mundo, aparentemente tentando descobrir sentidos num mundo louco, enquanto o filme parece ser sobre um fugidio instante de descoberta. O mundo é lugar instável e de planejamentos simples, para um dia qualquer podermos encontrar as sombras que nos darão as respostas a que tanto almejamos.


O Som e o Resto
André Lavaquial, 2007, 22min.


Após chegar atrasado na igreja e levar uma bronca do pastor, Jair deixa sua música escapar, e das regras estabelecidas ele faz viradas virtuosas na bateria, revelando outra possibilidade musical, exprimindo assim sua insatisfação. É a gota d'água pro pastor. A partir dali tudo começa a se desfazer. E a se consolidar. Não é a narrativa de uma derrocada, mas de outra coisa, que não sabemos bem de imediato o que é, até porque vivemos o mundo a partir de um fluxo de aceitações e negociatas... Depois de expulso da igreja ele corta a cidade com sua bateria num carro de mão emprestado. E depois de vários percalços, ao parar num espaço público, volta a deixar sua música sair. Um policial chega e Jair o enfrenta. Tudo no filme parece construído com muita garra, com força, com vontade, como a música de Jair, distante do padrão e do controle: um filme que tem esse lance de guerrilha, a vontade de dizer algo, de fazer algo, de fugir das aceitações e negociatas...


Brasília, Contradições De Uma Cidade Nova
Joaquim Pedro de Andrade, 1967, 23min.


A Brasília sonhada se desfez diante da realidade, o sonho tomou outro rumo, mais áspero, e até desumano. Creio que o filme não revela apenas as contradições da nova capital, mas também de todo um sistema que não está em crise, um sistema que é a própria crise, que trabalha por meio da instabilidade, que precisa de toda e qualquer turbulência para se perpetuar, sem falar na sua capacidade de adaptação à mecânica da contradição humana. Fora essas ideias gerais, não sei bem o que falar sobre Brasília, Contradições De Uma Cidade Nova. Vejo nos rostos dos candangos os rostos de meus tios, de minha mãe e meu pai, vejo minha avó Rosa, vejo-os em seus sofreres, à deriva, procurando um cantinho pra se estabelecer, trabalho, um pouco de paz. Vejo uma cidade cruel, enrijecida ainda que tão nova, uma cidade insensível. O filme é sobre essa energia soturna em torno da invenção de uma cidade, e sobre esse sistema desumano que se mascara bem e simula com precisão não possuir culpa alguma diante de tudo...


Onde São Paulo Acaba
Andréa Seligmann, 1995, 12min.


Não me lembro de ter visto filmes sobre a periferia nos anos 90. Não nos víamos nas telas. O que a televisão nos mostrava não era suficiente. Meus amigos e eu (e já ouvi de outros manos em outros lugares a mesma coisa) buscávamos nas imagens de filmes gringos abastecer o nosso imaginário, ainda mais quando os mesmos filmes eram ilustrados pela música rap. Descobri este filme há pouco tempo e ele me impressionou bastante. As posturas, as falas, a marra, a desilusão, o crime: como se pareciam com as coisas que experimentávamos nas periferias de cá. E como elas se parecem. Periferia é periferia em qualquer lugar, como diziam os Racionais. Pra mim, Onde São Paulo Acaba é um documento importante pra história do rap nacional: ali está contido os vestígios da consolidação do rap como forma de expressão dos excluídos do processo. E é importante, também, pra história das quebradas, porque tudo ali grita a exclusão.


O Porto de Santos
Aloysio Raulino, 1978, 19min.


Gosto do olhar que Aloysio Raulino dedica ao homem e ao lugar onde o homem se encontra. É como se ele sentisse uma profunda empatia por tudo que filma: por isso sua câmera é tão delicada ao retratar os homens, tão cuidadosa ao percorrer os lugares, tão poética nos seus encontros. Aloysio Raulino parece controlar bem seus filmes, parece possuir pleno conhecimento do valor de cada um dos elementos fílmicos quando aplicado ao recorte da realidade. Cada plano, cada corte, o som, o tempo. No entanto sinto, revendo O Porto De Santos (e aqui a imaginação toma as rédeas de vez desse pequeno texto, talvez elevando a irresponsabilidade desses escritos ao último grau) que por trás desse aparente controle há algo mais: como se ao tentar dominar o que tem em mãos o diretor percebesse que algo lhe escapa, e ao observar esse sutil movimento de fuga ele decidisse por perseguir aquilo que foge, mesmo sem saber bem o que lhe escapa. E graças a essa perseguição descobre, enfim, o coração do seu filme. É possível aprender muito com Aloysio Raulino e seus filmes, são como pequenas-grandes aulas sobre a arte cinematográfica!



Rei Souza é artista visual e recentemente vem desenvolvendo pesquisa como documentarista.