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MFL 2017 – Mostra do Filme Livre




*UM HOMEM SENTADO NO CORREDOR

Por Humberto Pereira da Silva

Um Homem Sentado no Corredor (longa)
Direção: Felipe André Silva
Duração: 72min.
UF/Ano: PE/2017

Uma das coisas mais interessantes no momento atual do cinema brasileiro é vermos o empenho de uma geração para filmar com recursos mínimos num contexto de improviso e de forma arejada. Esse, o caso de Um Homem Sentado no Corredor, de Felipe André Silva. Nele, Felipe procurar captar instantâneos de jovens em Recife que vivem um ambiente alegre numa academia de dança e se encontram para conversar sobre veleidades da vida. Está claro desde as primeiras sequências, assim me parece, a despretensão de exibir conflitos, dramas ou incertezas da juventude frente aos desafios da vida. Na despretensão, uma maneira de ver Um Homem Sentado... como tentativa de captar um universo de jovens hedonistas, que buscam o prazer da vida em festas, baladas, sem preconceitos ou compromissos emocionais. A vida, no universo mostrado por Felipe, transcorre de modo fugaz, sem tensões.

Assim, duas meninas se encontram numa praça, fazem um piquenique e aguardam uma terceira, com quem mantém conversação quase indecifrável em razão do ruído dos carros na avenida anexa à praça. Assim, também dois rapazes que fazem “colegial” se encontram no apartamento de um deles para jogar “games”. Falam de trabalhos escolares, de festas, e acabam transando (boa parte do filme se retém no momento de transa e diálogos entre eles). E, assim também, dois rapazes universitários se encontram, conversam sobre assuntos diversos, trocam carícias, fumam maconha... Enfim, é um filme de encontros fortuitos, casuais, sem antes nem depois, marcado por conversas vagas e despretensiosas em ambientes de alegria sem culpa. Nenhum dos personagens do filme é afrontado com exigências de sobrevivência ou com prestação de contas sobre o modo como vivem. São jovens, burgueses, alheios a responsabilidades.

Felipe André Silva possivelmente tenha querido fazer um recorte da juventude de classe média recifense que vive apenas em busca do que na filosofia recebe o nome de “boa vida”. Ou seja, com a boa vida busca-se encontrar os meios para tornar a existência agradável e plena. Nisso, a arte de encontrar o caminho para bem viver conforme o momento, sem as amarras sociais, sem o crivo de preconceitos e sem projeção de futuro. Viver bem é tão somente buscar uma condição de felicidade nas situações de vida mais simples, que não sejam, portanto, perturbadas pelas conveniências e cobranças do mundo. Sendo esse o recorte proposto por Felipe, o filme exibe o retrato de uma juventude hedonista, feliz naquilo que faz, prazerosa em seus encontros casuais, e descompromissada.

Ao mostrar jovens, digamos que com uma postura epicurista frente à vida, Um Homem Sentado..., no espírito de um filme livre e arejado, nos traz obra a ser refletida naquilo que efetivamente sugere. A boa vida é alcançada no instantâneo, na fugacidade dos momentos de felicidade, nos encontros agradáveis e plenos de sentido. A maneira como a narrativa é conduzida, de fato, deixa o espectador com a sensação de que na boa vida há a suspensão de compromissos, que só geram ansiedades e potencializam frustrações. De qualquer forma, não deixa de trazer um inconveniente: a vida se resume em conversas fúteis e vagas?

Ao fim e ao cabo, a atitude dos jovens, no filme de Felipe André Silva, convém a quem veja o alheamento do mundo como indício de que possam ser manipulados, de que são tolos e convenientes ao sistema do qual, convenhamos, afetivamente não estão descolados (a praça na cidade de Recife não é o jardim das delícias de Epicuro...). Se o filme de Felipe André Silva não for visto por esse prisma, entendo que se está diante de um mal entendido entre o que se exibe e o mundo vivido, com suas contradições sociais.




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