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MFL 2017 – Mostra do Filme Livre




* COM O TERCEIRO OLHO NA TERRA DA PROFANAÇÃO

Por Humberto Pereira da Silva

Com o Terceiro Olho na Terra da Profanação (longa)
Direção: Catu Rizo
Duração: 66min.
UF/Ano: RJ/2016

O aspecto mais notável que chama a atenção em

Com o Terceiro Olho na Terra da Profanação

, de Catu Rizo, é que se trata de um filme estranho. E por estranho se entende algo de que não se consegue dizer com segurança o que se revela. Um filme é estranho quando suas imagens, narrativa ou propósitos desnorteiam, geram a impressão de que alguma coisa ficou no meio do caminho e que qualquer apreciação precipitada pode não passar de mal entendido. O título do filme de Catu Rizo já traz o sentido de estranhamento. Como entender as expressões “terceiro olho” e “terra da profanação”? Não há indícios que façam já do título uma zona isenta de ruídos residuais. Parece que o “terceiro olho” refere-se ao misticismo hindu: o chakra que diz sobre a clarividência e a criatividade. Parece, pois, que a vida espiritual hindu pode não passar para a cultura ocidental de um profundo mal entendido. Nesse sentido, então, é que se deve entender a “terra da profanação”?

Pode ser, mas justamente por isso a palavra “estranhamento” ganha sentido. O filme mostra três adolescentes em Nilópolis, Baixada Fluminense, que caminham a esmo pelos becos, vielas, terrenos baldios e degradados, cujas vidas estão ligadas por um pacto pouco definido na narrativa, mas que revela que elas encerram um mundo interior fechado em si mesmo. Ao mesmo tempo em que Catu Rizo deixa sinais de que busca referencia no misticismo hindu, não parece nenhum pouco evidente que as jovens tenham presente essa ligação religiosa. Ou, parece um contrassenso que as jovens, que vivem o universo funk na periferia de um grande centro urbano, tenham o horizonte espiritual marcado por uma religiosidade tão distante. Esclarecendo: no estranhamento da situação vivida Catu Rizo traz à tona o quanto o mundo globalizado põe em contato, com todas as contradições possíveis, realidades culturais e religiosas tão afastadas?

Se foi esse o caminho, se essa é uma maneira de procurar resposta para o estranhamento do filme, também é verdade que Com o Terceiro Olho... deixa a sensação da falta de propósito com respeito à realidade vivida pelas jovens. Ainda que elas circulem e se apresentem em espaços sociais, como num bar sem nome ao som de uma banda punk rock, não há interação alguma entre elas e os circundantes. Um dado curioso a esse respeito: trata-se de um filme de silêncios, tempos mortos, pontuado pela voz off de uma das jovens. Praticamente não há som direto. Apenas nos minutos finais as jovens esboçam murmúrios que indicam diálogos truncados. A realidade social em que vivem é vista, mas num paradoxo com o estranhamento da vida delas, essa mesma realidade lhes é estranha.

Com o Terceiro Olho... parece, então, um filme com propósito de trazer à baila o quanto de tédio e absurdo existencial há em jovens adolescentes na periferia de um grande centro urbano repleto de contradições. Nas cenas finais, uma delas puxa, como se puxasse um cachorro de estimação, a carcaça de um computador. Nessa cena, creio, uma maneira de exibir um mundo em destroços cujo sentido estaria no alheamento do que é palpável e na entrega a uma fantasia mística distante. Descoladas da realidade imediata, de qualquer forma, as três adolescentes são três figuras tristes, que andam a esmo e que tão só acentuam o sentimento de que são espectros que vagam sem sentido de um lado para o outro.

Caso Catu Rizo tenha querido captar a desesperança de jovens adolescentes na periferia do capitalismo, seu filme de fato exibe um retrato triste, estranho e desesperançado de um mundo onde as adolescentes trafegam sem motivação existencial. A sensação de tédio acompanha todas as cenas do. Contudo é um filme que, como as personagens que retrata, carrega narrativa tediosa; ou que não escapa ao tédio de que se serve como recurso de estilo. A ausência de sentido no movimento das jovens exigiria um filme com uma profundidade filosófica de que é carente. A se cobrar profundidade de um filme com temática tão adensada, Com o Terceiro Olho... é obra superficial, caricatural: enfim, estranho com o sentido negativo a que essa palavra possa se referir.




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