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MFL 2017 – Mostra do Filme Livre




*NOITE DE SEXTA, MANHÃ DE SÁBADO

Por Cid Nader

Noite de Sexta, Manhã de Sábado (curta)
Direção: Kleber Mendonça Filho
Duração: 15min.
UF/Ano: PE/2006

Acho que estive diante do melhor curta-metragem que já vi na vida (texto escrito em 2006). Exagero? Confesso que não consegui parar de pensar no filme desde que o vi. Saí com a certeza de que é o melhor de Kleber Mendonça Filho – o que já não seria nada pouco para quem conhece a obra do autor, sua fama, seu rigor, seu conhecimento de cinema. O diretor pernambucano trabalha em seu ofício como poucos. Nunca conclui um filme seu com menos de um ano de trabalho. Extremante consciente do que quer deixar transparecer facilmente em seus curtas, jamais desperdiçaria um espaço, uma tomada, um ângulo, um "som". Faz filmes bem quadrados em sua concepção de câmeras quase sempre fixas que buscam o "quadro exato" a ser utilizado.

Pois é. Gênio é gênio, e dessa vez ele resolveu que teria que perseguir seus dois personagens com câmera veloz, grudada ou que caminha em paralelo para encontrá-los lá na frente. Distancia seu casal por um oceano e pelo tempo do relógio. Tenta uni-los pela tecnologia (usa o celular para tal). Em Recife é madrugada, ainda escuro, e o homem da dupla procura o mar e a areia. Na Ucrânia (Kiev), sua amada é procurada por ele que liga e a encontra de dia (sol radiante e forte). Ela fala de lugares, referências. Ele retruca com saudades e também fala de referências físicas. O filme é ágil, com câmera na mão. São citados os irmãos Dardenne (Roseta) e Kleber parece querer homenageá-los nessa nova forma de filmar - aliás não tão nova na realidade, pois quem já viu seus filmes iniciais (lá dos antigamente mesmo) diz que essa velocidade já existiu. Ainda pra gabaritá-lo mais no quesito "técnica" é praticamente inventado um "campo-contracampo transcontinental".

Além do mais, o filme é belíssimo. Emociona. Quando ela pisa na areia; quando escreve nela. Quando ele não esconde a angústia proporcionada pela distância. Homenageia o cinema – há o travelling horizontal que a pega correndo em direção ao rio e capta ao afundo um enorme painel de "Hulk". Denso como poucas vezes vi no mundo dos curtas – talvez como nunca tenha visto no formato. Não se deixa apagar. Fica grudado. Obra de quem entende e pode até estar se retratando na tela (ou não). Obra-prima!




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