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MFL 2017 – Mostra do Filme Livre




*MARTÍRIO

Por Cid Nader

Martírio (longa)
Direção: Vicent Carelli, Ernesto de Carvalho, Tita
Duração: 162min.
UF/Ano: PE/2016

Nesse Brasil tão indígena, que foi de tantas nações índias, de modo tão diverso e espalhado por toda sua extensão, sempre existiram os de atenção reclamante em sua defesa, numa contrapartida à secular dizimação deles. No mundo do cinema temos diversos casos de diretores que tomam as causas e tocam suas autoralidades em torno delas: só para ficarmos na atualidade, pensar em Andrea Tonacci, Jorge Bodanzki, Leonardo Sette, por exemplo, além de uns casos já de realizadores índios (os kuikuros são craques com uma câmera na mão). E evidentemente há Vincent Carelli, criador (ou principal figura) do movimento Vídeo nas Aldeias, que talvez menos cineasta do que os outros é com certeza a maior autoridade entre todos para poder tentar contar em filme muito do que acompanha já por décadas.

E é com essa “secura” maior no approach que Carelli concretizou Martírio - que é/seria o segundo de uma trilogia iniciada com o necessário Corumbiara -, impactante, importante, essencialmente documento de quem conhece demais o assunto que aborda: porque existem os documentaristas que fazem seus trabalhos a partir basicamente da pesquisa (diria que quase todo o processo cinematográfico-documental é feito por essas vias da pesquisa precedendo necessariamente a ida à concretização), mas diante de um trabalho como esse, não resta dívida sobre se a coisa se referindo ao contado e mostrado, quem vive seu objeto que será documento, no cotidiano, leva vantagem enorme.

E diante do filme nos vemos encarando a importância do que é relatado por um conhecedor extenso do assunto, evidentemente, mas ante um cineasta que domina suas técnicas com menos ousadia, mais sóbrio e pé no chão, mais apegado ao que é das cartilhas. Quando o diretor isola a saga de uma de nossas etnias (a dos Guaranis-Kaiowas) fazendo questão de destacar num princípio de apresentação que foram eles os mais gentis e receptivos ao colonizador (a localização dos guaranis junto aos locais da chegada dos portugueses foi sua maior tragédia), e emendando opinião abalizada e esclarecedora sobre mudança em seu comportamento ancestral para tentar sobreviver ao extermínio possível, percebemos que o filme tratará com qualidade do assunto. E é assim que as coisas caminham: entre filmagens mais comuns pelas lentes de Vincent; conversas íntimas com os índios que resultam aproximação rara ao sentimento deles na atualidade (quando se os notamos frágeis, necessitados de luta, mas gentis e “estranhos para consigo mesmo” na necessidade da briga pela sobrevivência); coisas de arquivos importantes para o impacto denunciante buscado como elemento maior razão de ser da obra (e isso se dá na exposição dos políticos, da invasão do Congresso, na palavra da galera do agronegócio – agronegócio, palavra até sonoramente feia...); mais coisas de arquivo antigas, impactantes umas, até lúdicas outras, no início da captura de seus retratos/faces, no instante maluco da ditadura militar, situações elucidadoras de como eram seus comportamentos; e o instante em que eles com uma câmera dada retratam situação que a nós de longe parecem situação só de noticiário...

A potência eleva ao cubo quando o diretor com seu conhecimento relata fatos, destaca dados, impõe a olhares e ouvidos que inacreditavelmente nunca pensaram nos assuntos dos índios situação a mais degradante e desumana do país: dentre tanta pobreza e injustiça, o que sempre se fez com nossos nativos é a pior coisa. Derrapa um pouco justamente no quinhão elaboração do filme, como filme: nas suas ligações/emendas; em algumas importâncias que desprezam momentos dos fatos para que o viés mais autoral prevaleça como modo de fazer-nos ver Carelli ali sofrendo por eles (até justas, mas desnecessárias diante da percepção de sua importância diante de tudo que vai nos sendo relatado); na opção por um off se estendendo por vezes mais extenso em existência do que o necessário (seria mais “cinematográfico” procurar alguma outra solução, menos comum: se bem que essa seja da eficiência que o doc busca – mas podia ser melhor se mais arriscado)...

O negócio é o seguinte: poucos pontos negativos não tiram a potência que o filme alcança como denúncia, nem diminuem a percepção de que Vicent Carelli provavelmente é quem mais pode se estender nas causas indígenas via cinema.



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