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MFL 2017 – Mostra do Filme Livre




*LA ÚLTIMA TIERRO

Por Cid Nader

La Última Tierra (longa)
Direção: Pablo Lamar
Duração: 77min.
UF/Ano: RJ/2016

Conheci ao cinema do paraguaio Pablo Lamar quando de seu curta-metragem, Ouço Seu Grito (Ahendu Nde Sapukai), de 2008, numa coprodução com a Argentina (onde estudou cinema), sendo exibido aqui no Brasil durante o Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo, quando me espantei por notar que de lá do empobrecido Paraguai parecia estar surgindo uma cinematografia nova (à época fez sucesso por algumas Mostras pelo mundo o longa Hamaca Paraguaia), e que além da novidade, surgia com apelo de nenhuma acomodação na linguagem cinematográfica, e parecendo querer resuscitar os fantasmas que tomaram conta do país após o massacre imposto a eles durante a Guerra do Paraguai.

Pouco tempo depois, Lamar desembarcou no Brasil, para aqui viver (no início lá por Pernambuco, após, se não me engano, indo pras Minas Gerais) e poder trabalhar com cinema, onde se pode notar com o acumulo de trabalhos feitos que sua área principal dentro da arte estava na coisa do som. Muitos anos depois volta à direção (havia realizado, como diretor, mais um curta em 2009), e desta vez estreando no universo dos longas-metragens... Me ver diante de A Última Terra, de algumas maneiras foi como remeter ao passado, a seu curta de 2008, e também compreender o quanto sua função trabalhando com o som no cinema lhe é justa. Como no curta, aqui a situação ocorre num mundo isolado, que dispensa as falas para ver contada sua história por imagens, com a diferença de que, aqui, as lentes estão presentes ao lado dos personagens (enquanto lá atrás, tudo tomado num plano bastante longínquo, que até parece um tanto reverenciado na sequência final, desta vez, quando a câmera vagarosamente disseca montanhas e vales distantes).

Como no curta, se fala da tristeza da morte preenchendo o ar. No longa, um casal idoso vive isolado, à beira da morte da mulher: todo o processo de descobrimento disso se dará no início por situações bastante estranhas, com atitudes do homem que se revelarão num porvir, tudo tomado de muito próximo pelas lentes, com luz diáfana, qualidade nos quadros e edição calma, vagarosa e precisa. Como no curta, as imagens são belas (mesmo quando tratam de fins), de grande composição dos quadros imaginados, importantíssimas em sua qualidade já que, como dito, o filme dispensa os diálogos para facilitar o que quer contar. Como no curta (e na vida optada pelo diretor), o som é tremendamente possante, fino, detalhado, talvez a “peça” técnica mais importante e mais bem cuidada entre todas (isso num filme que tecnicamente é bem bom), por todo o tempo da existência dele em tela. Talvez, alguns possam questionar se tanto preciosismo estético – num abandono radical de qualquer viés comum na construção e no mote – não poderia considerar o trabalho algo que seja mais de exercício estilístico do que cinema mesmo.

Diante de tanta pobreza que notamos hoje em dia em ovas produções que vêm cheias de trejeitos e nada nos contam, nem incitam, vejo aqui algo que confirma um padrão, e um padrão que é do mais puro cinema. Não sou dos que gostam de enxergar referências nas obras, mas, enquanto escapava por vezes (já que o modelo narrativo nos convida ao escape, nos permite ir por outros rumos), imaginei o som e as luzes externas em movimento, a natureza servindo de abrigo, lembrando instantes do triste A Luz Silenciosa, melhor filme do hiperestimado Carlos Reygadas; pensei, na cena da mulher no leito, quase num mesmo quadro fixo que notamos no homem que dorme em sua cabana de O Cavalo de Turim (de Béla Tarr)... Mais algumas, que prefiro frear aqui.

O que importa é perceber em Pablo Lamar, alguém que chamou a atenção lá atrás, uma fidedignidade ao que passou de intenções, então, na confirmação de que anda por tentativas que parecem assustar aos mais acomodados. Sim, não é uma obra-prima, mas quem quer isso, por enquanto?




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