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MFL 2017 – Mostra do Filme Livre




*ÍNDIOS ZORÓ – ANTES, AGORA E DEPOIS?

Por Cid Nader

Índios Zoró – Antes, Agora e Deppis? (longa)
Direção: Luiz Paulino dos Santos
Duração: 70min.
UF/Ano: PE/2015

Luiz Paulino dos Santos é um caso raríssimo em nossa cinematografia: diretor de pouquíssimos trabalhos (tem 83 anos de idade, já), muito mais ligado a questões indígenas (ele próprio com descendência), que trata com um misto de ódio às instituições (políticas e religiosas) e misticismo todos os assuntos que toca, talvez tenha sido resgatado para o mundo mesmo do cinema num fusão entre sua alegria durante a CineOP de 2008, quando andava por todos os cantos registrando tudo e a todos com uma microcâmera digital, e a “oportunidade” de ressurgir em a=maior escala no filme Estafeta, codirigido com André Sampaio, diretor da nova geração, que normalmente trata o cinema como local de experimentações, mas que por coisas do destino afeiçoou-se ao que seria um velho mestre.

Sua figura sempre habitou as cabeças de quem está mais por dentro do mundo do cinema - pouco conhecido pelos leigos -, principalmente por conta da conturbada história da realização do clássico Barravento, dirigido por Glauber Rocha. Acaba comparecendo nos letreiros do filme como produtor da obra - função que mais o marcou na história da confecção de filmes -, mas o que existe por trás parece ter determinado fortemente o que sucedeu em sua vida particular. Resumindo: foi o autor da ideia do filme e o primeiro diretor contratado para realizá-lo; mas como é de conhecimento geral, Barravento acabou dirigido por Glauber. Mais uma das razões para algum de seus rancores. Que o levaram ao misticismo, ao Santo Daime... melhor assim.

Em 1982, realizou o curta documental Ikatena? Vamos Caçar, onde retrata índios Zoró, quase em extinção (principalmente no que concerne a tradições e traços: e que se nota por boa parte deste longa de agora, Índios Zoró – Antes, Agora e Depois Depois?, ser um trabalho lindo, de belíssimas imagens e atenção lúdica a seu comportamento. Imagens antigas que acaba sendo um “desfavor” ao longa, que as têm por vezes bem tomadas, e por outras com aquela qualidade típica da pressa e facilitação que as câmeras digitais. Se formos ampliar as comparações levando ao conceito dos dois filmes, notamos que aqui, no de agora, o que era puramente elegia indígena, se transformou num misto de preocupação com as perdas deles (principalmente no que é do dia-a-dia – modos de locomoção e tal – e na questão do “sequestro” religioso feito com suas mentes por missões cristãs evangélicas), e um monte de idiossincrasias sendo costuradas a essas preocupações – no filme são explanadas a mais suas questões com o que trisca religiosidades, compreensão da natureza embalada por algo de teor divino, sua birra e questionamentos à nossa política (bastante falha, ou omissa mesmo) na relação com a exploração e roubo das terras amazônicas (quando gasta boa parte do trabalho denunciando os cortes de árvores e mostrando atrocidades), e também a relação de seu doc com o que os índios atuais pensam vendo-o exibido por um pequeno projetor.

É compreensível que o longa seja instável, porque no fundo mesmo ele se trata mesmo de um filme de regresso, de tentativa de resgate de coisas que provavelmente sucumbiram ao mundo moderno, de repentes e invasão de um mundo que não via há muito tempo, e tudo tratado de forma bastante aleatória nas captações (o que se estende ao momento da montagem – nesses casos de não roteiros prévios, normalmente se imagina uma roteirização/organização maior na hora de editar o material, o que não ocorre), O resultado é mesmo algo que pode atrair pela emoção de um ser que embarca no processo muito mais movido pelos sentimentos do que por qualquer razão: e isso se faz evidente no final das contas. Comprar ou não o resultado talvez tenha muito mais a ver com identificação com a figura e ao misticismo de Paulino. E sobra, de toda forma, um documento de complementação a outro, com pitadas de imagens exóticas para finalizar o quinhão místico dele mesmo.




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