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MFL 2017 – Mostra do Filme Livre




*DIÁRIO DA GREVE

Por Humberto Pereira da Silva

Diário da Greve (longa)
Direção: Guilherme Sarmiento
Duração: 73min.
UF/Ano: BA/2016

Professor de dramaturgia na Federal do Recôncavo Baiano, Guilherme Sarmiento exibe na Mostra do Filme Livre Diário da Greve, cujo tema é, justamente, ocasião de greve entre professores na universidade. O próprio Sarmiento protagoniza o filme. Ele é um professor que se mantém alheio na situação de ócio durante o longo período grevista. No ócio, resolve filmar seu dia a dia improdutivo. Todo o filme, então, segue seus passos, pontuados por sua narração off, que exibe suas angústias, ansiedades, obsessões e isolamento social. Tudo que se passa, então, gira em torno dele.

Diário da Greve é uma interessante experiência de ficcionalização de uma situação real vivida pelo próprio cineasta. Traz um tanto da ideia de obra confessional. Mais, Sarmiento tem menos em vista o registro do dia a dia vivido como experiência externa do que interior. Há o cotidiano, há o encontro com outros professores na universidade, há conflito dele com moradores do condomínio onde vive, há sua presença no shopping, mas tudo isso fica a reboque de seus sentimentos, apreensões e obsessão para fazer um filme de garagem. Todo o filme passa pela necessidade de ele justificar que em meio à greve seu filme é expressão de seu posicionamento político, e não alienação frente à militância grevista.

A ideia que desenvolve é boa. O filme é importante registro do que se passa com um professor universitário num momento extremamente conturbado na vida política recente do país. Sarmiento, sensível, exibe as aflições e incertezas de um acadêmico que, ao mesmo tempo, lida com a polarização ideológica que separa “coxinhas” e “mortadelas”, verde/amarelo e vermelho, num mesmo espaço social, e o risco de ser tomado como alienado político. Assim, Diário da Greve não mostra ações de grevistas, piquetes, os debates sobre encaminhamento do movimento, mas tão somente a percepção que o protagonista tem de si próprio e do que está em sua volta.

A se pensar num filme político, que poria em cena confrontos sociais, as mazelas do sistema universitário brasileiro diante de uma greve de professores, Diário da Greve é mais propriamente um filme antipolítico. A política, entendida como espaço de exercício do poder e de confronto de interesses, está completamente ausente nesse filme de Sarmiento. Ao tomar o indivíduo em seus devaneios e obsessões, temos no fundo um personagem que se afasta da política em proveito da busca de sentido para o que se traduz como esporro, ou grito, cuja saída é a expressão artística. Nesse gesto, inegável considerar que Sarmiento se alia ao romantismo próprio aos artistas malditos do século XIX. Do ponto de vista da relevância social, criar tem mais valor que a ativismo em causas políticas.

Sendo essa a perspectiva, temos um filme que diz muito de nossos impasses políticos. Diário da Greve merece ser visto e discutido com atenção a um momento no qual pouco se pode dizer sobre certezas na condução de uma manifestação política. A greve, instrumento histórico de luta por excelência, assume no filme uma feição que, no mínimo, desconforta, pois descolada do que se passa nele. Ao final, também próximo do ideário romântico, o melancólico fim da greve: após a qual o professor retorna à modorrenta vida acadêmica.

Guilherme Sarmiento deixa questões a se pensar. Seu filme traz inquietações que exigem vê-lo com atenção ao momento político pelo qual o país passa. Concordemos ou não com o que propõe, Diário da Greve é uma obra que força o espectador a refletir. O reparo que faço é que as incursões surreais que expõe deixam a sensação de inapropriado exercício de estilo: como a assinalar, sem convencer, a ausência de separação entre pesadelo e realidade. Entendi que não é pesadelo, mas um retrato pessimista do que se passa hoje no país.





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