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Cinefilia em Construção: “Vence na Vida Quem Mais Caminha”




















Cinefilia em Construção


"Vence na Vida Quem Mais Caminha"          (publicado: 03/2017)


Por Rei Souza

Iracema Uma Transa Amazônica é um filme daqueles! E digo porque: ele me permite resgatar imagens praticamente perdidas dos tempos da minha infância, coisas que conseguia entrever nalgumas fotografias.

Sim, é um filme daqueles, pelo menos pra este que vos fala.

Está ali, no seu decorrer, de alguma forma, meu pai e minha mãe buscando a sobrevivência naquele absurdo estado do Pará. Consigo, enfim, entender de fato as histórias que minha mãe conta e a amargura com que as narra. Antes de tudo, qualquer câmera fotográfica ou filmadora captura o seu tempo, e a ele se atrela de uma vez por todas: as mãos, os olhos, os movimentos, estão condicionados ao tempo presente da filmagem... E o presente vai, se perde, enquanto tudo muda - mas as imagens permanecem presas naquele momento, e assim denunciam, revelam e esclarecem pro pessoal do futuro como eram as coisas. E o cinema, coitado, é e sempre será um troço datado. Não tem essa de achar bom ou ruim, mas sim aceitar sua sina, e pronto! E Iracema é um mapa que nos leva a um tempo revelador, por conter muito do que hoje nos parece invisível, mas que ainda está aí e pertence a todos nós, de uma forma ou de outra.

Vendo a “topografia” dos rostos que vão surgindo durante o filme, nota-se que o coração do Brasil mesmo é lá em cima! De lá emana a diversidade de feições, a mistura de traços, e o que há de mais genuíno no sofrimento do brasileiro, que é quem forma o país em todos os seus cantos. Iracema vem do rio, vive o sofrimento de seus pais, e num instante de distração do destino (ou de atuação ferrenha) se perde nas entranhas da cidade. Aos poucos a gente vai entendendo que Iracema não está tão perdida assim, e que o destino nem está atuando de maneira tão extraordinária. Ela faz o caminho, consciente de todos os percalços, desvios e acidentes, que pertencem àquela cidade-pandemônio. Iracema parece compreender bem aquele mundo, e o aceita como é. Num diálogo com a amiga, enquanto se arrumam para ganhar a vida, deixa claro que “não pretende deixar aquele mundo, que não há nada lá fora”. A amiga, sonhadora, diz que “há sim, e que ainda estava ali por azar de uma carona na direção errada, mas que em breve tentaria de novo”.

E é aqui que Iracema Uma Transa Amazônica revela uma característica intrigante: não podemos acreditar em nenhum de seus personagens. Nem na amiga, nem em Iracema, que logo depois se entrega ao caminhoneiro Tião Brasil Grande - talvez numa tentativa inconsciente de fuga, como a da amiga -, e nem mesmo no caminhoneiro Tião, com seu discurso progressista malandreado. E vamos além, no filme: não podemos nem confiar nos diversos personagens marginais que surgem e vão expondo uma ou outra coisa sobre aquele mundo, sobre aquele tempo. Talvez porque seja um mundo por demais inseguro, um tempo perigoso, e sem perspectiva alguma. Eles mentem quando conversam, falam generalidades, escondem o medo. E assim é Tião, o que assume prontamente essa característica e a potencializa: ele discursa, positivista que é, encanta, dobra seu interlocutor, entretém. O Mundo tá uma merda e não há possibilidade de melhora. A ditadura já está falida, e o progresso (?) só foi até ali. Numa mesa de bar o sujeito diz: “sabe qual é a melhor estrada?”. Tião responde: “a melhor eu não sei, mas quero saber qual é a que dá mais dinheiro”. Ao que o companheiro responde, sem o encanto de Tião, mas com o mesmo cinismo: “não, não: é a estrada de chão que dá mais dinheiro”.

Claro, é onde se vai conseguir ganhar mais, já que é também onde a lei e a ordem não chegam, e preferem a distância, já que não suportam a ausência do tão abundante conforto do sul. Tião parece amar aquele caos: aceita tudo o que for dúbio e apresenta um outro discurso, tentando ocultar seu lado egoísta, se encenando um falastrão nacionalista; mas o progresso que lhe interessa mesmo vem justamente das transgressões possíveis naquela terra; o seu Brasil mesmo, o grandioso e tudo o mais, é aquele ali, e o resto é só conversa de bar. Tião é o mistério da formação do caráter do brasileiro em pessoa, e é possível quase ser desmistificado por completo na sua atuação todo o mistério: ainda, sim, por pouco ele nos escapa de alguma forma. Tião Brasil Grande, o agente duplamente provocador: provoca o mundo ao seu redor, provoca a nós enquanto espectadores.

Iracema se encanta e vai com Tião, que joga o tempo todo com Iracema, assim como faz com o mundo, e percebendo a inocência da menina a conduz até o coração do inferno, deixando-a ali, sozinha, apenas por diversão, ou pra lhe ensinar algo, ou por um momento de tédio. Mas Iracema não se assusta com nada não, e parece conhecer os caminhos de antemão. Chegou um momento em que eu já não sabia se era o seu desejo escapar de tudo procurando o caminho pro sul ou qualquer outro lugar o mais longe possível, ou apenas ser jogada de um lado pro outro, desejando o movimento à inanição, como recusando aceitar a vida, como a sua mãe diante de uma máquina de costura e aquela apatia diante das desgraças. No momento em que conversa com a mãe, depois de tanta desgraça sofrida, Iracema, deixa à mostra seu profundo desencantamento com o mundo. E esse desencantamento é muito caro ao filme. É o seu mote, seu cerne, sua substância: veja como o mundo é construído em cima dos desencantamentos.

O final deixa um gosto amargo, sombrio, desesperador. E o que será de Iracema, meu Deus?

Meu pai e minha mãe saíram na marra, à força, daquele norte: escaparam daquele Pará e desceram rumo ao sul. Quando chegou na cidade de Anápolis minha mãe disse: “daqui eu não saio mais!”. Nunca compreendi bem já que o mundo lá fora sempre me pareceu bem mais interessante. Haviam as narrativas da minha mãe e algumas fotografias: e só. Iracema é um filme que me ajuda a preencher os espaços vazios e assim compreender melhor as narrativas que cresci ouvindo, as poucas fotografias que haviam no álbum de família, as motivações tão caras à minha mãe.



Rei Souza é artista visual e recentemente vem desenvolvendo pesquisa como documentarista.