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Sessão Vitrine Petrobras



* A Cidade Onde Envelheço

Por Cid Nader

A CIDADE ONDE ENVELHEÇO
Direção: Marília Rocha
Duração: 99min.
Ano: 2016

Ivo Lopes Araújo fotografa esse longa de Marília Rocha: cito-o porque ele esteve presente em mais dois trabalhos exibidos no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, onde vi o filme pela primeira vez. E dos três, no trabalho mais simples, mais pé no chão, mais cotidiano comum, em seu início surge como o menos inspirado, quando a câmera parece estar agindo tão de improviso quanto as atrizes portuguesas que o protagonizam (Francisca Manuel e Elizabete Francisca). Mas o decorrer, o fluir, faz bem à fotografia, que se nos aconchega à íris com suas possíveis indecisões, já que o clima do filme se faz propositalmente algo que busca a sensação da leveza, de querer-se solto. Algo que também ocorre com as protagonistas: se bem que no caso de Ivo, o acostumarmo-nos consegue fazer entender que há alguém ali que está buscando o acerto, enquanto a liberdade das atrizes remete a entender A Cidade Onde Envelheço muito mais como uma ação entre amigas.

As falas por vezes são improvisadas: nem precisaria ouvir a diretora para ter-se a certeza disso. Algumas das situações também. Parece bastante óbvio que foi feito com duas portuguesas, mas que Marília poderia ser uma delas, ou ser mais uma personagem (ação entre amigas). Dá para entender que muito do ritmo é ditado por quebras do roteiro, sem saber até onde teria mesmo ali um roteiro fechado (se não, se a opção das improvisações foi justamente incentivada pela falta de um roteiro controlador, mil pontos para a diretora). A opção da leveza combina corretamente com alguém que chega a Belo Horizonte e passa a desnudá-la com alma mais livre do que a outra que já mora aqui há mais tempo (fica evidente a graduação do instante de carinho de cada uma para com a cidade no momento de uma visita a um apartamento que está para alugar: quando a que chegou mais recentemente gosta de tudo, e a que está por mais tempo já anda naquela fase de reclamar do comodismo dos brasileiros, “nos acabamentos de uma reforma no banheiro”, por exemplo).

Dentro da possível despretensão que carrega personagens e espectadores por trajetos leves que ao menos seduzem com o avançar, há interessante observação antropológica para algo de BH: e se torna mais interessante (ganha potência compreensiva) porque não tenta desvendar ou ostentar setores amplos de algumas regiões, se atendo mais a sutis comportamentos de pessoas normalmente de alguma proximidade com elas, ou trechos de menos escape, mais fechados.

Marília Rocha invade o mundo dos longas ficcionais com um trabalho que a revela indecisa por muitas vezes, tentando algum amparo justamente na camaradagem dos personagens, e em situações muito próximos ao que é dela: mas que ganha corpo com o decorrer, corpo leve, solto, caminhando para o final de forma bem mais atraente do que no seu início. É filme que cola nos nossos recantos de carinho na primeira visada, e que cresce como cinema (na opção que passa a parecer mais calculada no deixar estar e acontecer marcando não ser tão assim), na revisão.




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