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The Creation of the Humanoids: uma pequena gema

















Gabriel Carneiro

Antes de mais nada, uma consideração: o Gabriel Carneiro, aqui do site, tem uma certa predileção, fixação, indisfarçável afeição, por filmes e ficções científicas que tenham sido realizados com os "auspícios" do baixo orçamento, que se vejam distantes do forte engajamento do poder da grande indústria (se bem que não renegue alguns clássicos bastante bem abastecidos pela grana em sua confecção - o que denota sua maleabilidade, seu não rancor), que transitem por salas de projeção afastadas do que se consideraria "salas para toda a família". A ponto de estar fazendo, por conta de seu TCC (na faculdade jornalismo), um almanaque voltado à produção das ficções científicas da época da (e alusivas à) Guerra Fria.

Imagino que num dia de conferência de trabalhos do gênero ele tenha se "encantado" um tanto a mais, a ponto de resolver pensar um texto referente ao "The Creation of the Humanoids", de Wesley E. Barry. Texto enxuto e interessante, que merece agora seu espaço aqui na coluna "Grande Angular". Boa leitura. (Cid Nader, editor)





The Creation of the Humanoids, dirigido por Wesley E. Barry e com roteiro de Jay Simms, pode ser uma grata surpresa no meio das ficções científicas de baixíssimo orçamento. Há nele um desenvolvimento filosófico muito bem trabalhado, buscando dizer realmente algo, ao contrário de muitos outros que visavam a apenas explorar a temática vigente. Não à toa, foi considerado pelo cineasta e artista visual Andy Warhol como um de seus filmes preferidos.

Ele parte da premissa da eclosão de uma guerra nuclear, que teria durado dois dias e dizimado 92% da população mundial. Para ajudar, então, a revitalizar e construir cidades, criaram-se robôs inteligentes e auto-suficientes. Com o avanço da tecnologia, melhores ficaram as máquinas, a ponto de serem feitas nos moldes do homem, mas ainda trazendo várias características robóticas. Os andróides começaram por si sós a buscar inovações, e chegaram ao modelo R-96, um verdadeiro humanóide, uma duplicata do homem, com memória e sentimentos, só que feito de metal e sangue verde.

Mesmo que feito com parcos recursos e uma qualidade técnica duvidável – apesar de contar com bela fotografia do veterano Hal Mohr -, o filme acaba tendo um quê vanguardista, ao retratar um mundo em que há a fusão entre máquina e o homem. Essa temática só seria retratada mais enfaticamente pelo cinema a partir dos anos 80, com “Blade Runner: O Caçador de Andróides”, “O Exterminador do Futuro” e “RoboCop”. Em The Creation of the Humanoids, há a Order of Flesh and Blood (algo como Ordem da Carne e Osso), que vê nos robôs um desvirtuamento de valores, especialmente naqueles que se parecem humanos. Pregam uma maior segregação entre ambos e os vêem apenas como mão-de-obra. Pode-se notar uma relação entre o que é visto no filme e a luta negra pelos direitos civis, efervescente na época – o filme é de 1962. Em ambos os casos há uma disputa de poder: no caso dos robôs e dos negros, de reconhecimento como seres iguais, e não apenas como subservientes.

Para aquela sociedade parece não haver muito futuro. A radioatividade da bomba permanece no ar, fazendo com que a taxa de natalidade não seja alta. Os robôs estão crescendo em número – o que faz com que a referida ordem tema uma rebelião de máquinas -, e novas maneiras de se relacionarem surgem. O homem e a máquina combinados em um corpo parece ser o futuro, mesmo que tenham dificuldade de aceitar isso.

Algo intrigante e até irônico é a maneira pela qual o preconceito é construído. O robô foi programado para não se ofender e não ofender, machucar ou matar humanos. A derrocada para a luta da ordem se dá quando um R-96 recém-criado mata o médico que fez a operação. Ou seja, quanto mais próximos dos humanos, mais violentos e mortais eles se tornam, quase como se tivessem medo da própria espécie. Em determinado momento do filme, um andróide, Pax, diz: “Por que quanto mais nos parecemos com eles, mais nos odeiam?”

The Creation of the Humanoids também discute a robótica no nível metafísico e filosófico. O longa todo é permeado pela necessidade de autoconhecimento, de saber responder à pergunta ‘quem sou eu?’. Os humanóides não sabem que são robôs, pois possuem a mente do humano original, que morreu em alguma circunstância – que não assassinato -, e foi duplicado. Os humanóides e os demais andróides ficam o tempo inteiro tentando descobrir seu papel no mundo, e se relacionar com possíveis novas descobertas.

Ao término, uma nova questão: fim, um novo começo? Até que ponto a vida é cíclica?





Gabriel Carneiro é editor da Revista Zingu!, e colaborador titular do Cinequanon.