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20ª Mostra de Cinema de Tiradentes




* “Guerra do Paraguay” (28/01/2017)

Por Humberto Pereira da Silva


Guerra do Paraguay
Direção: Luiz Rosemberg Filho
Duração: 75min.
UF/Ano: RJ/2016


O veterano Luiz Rosemberg Filho brindou o público da 20ª Mostra com seu recente Guerra do Paraguay, exibido na “Sessão Olhos Livres”. Em primeiro lugar, como o próprio Rosemberg alertou a plateia, não se trata de um filme sobre o evento histórico, mas sim um filme que parte de um evento para refletimos sobre o presente. A guerra do Paraguay é o pretexto para discutir a guerra em sentido amplo. Daí, o filme de Rosembergo por fundamentalmente duas visões em confronto: a belicista e a pacifista. Essas duas visões expressam sentidos diversos não na compreensão do mundo, mas principalmente o sentido da vida frente ao absurdo do mundo.

O sentido da vida frente ao absurdo do mundo de algum modo alude ao teatro proposto por Samuel Beckett. Ainda que Rosemberg não tenha essa referência explícita, no filme ele faz alusão a autores como Molière e Rousseau, parecendo-me notório que sua Guerra do Paraguay não pode ser visto sem que se sinta ao fundo ecos de romances como Malone Morre e Dias Felizes. Nesses romances, em certo sentido inclassificáveis, Beckett, com humor sardônico, põe personagens em situações tão patéticas quanto mordazes, tragicômicas, sarcásticas. O teatro do absurdo de Beckett, então, me parece o caminho mais apropriado para situarmos diante da parábola que Rosemberg nos conta.

Em cena, quatro personagens: um soldado brasileiro que toca um bumbo e evoca a vitória do exército brasileiro na guerra do Paraguay; o espectro de um soldado paraguaio, que questiona o significado da vitória brasileira; e duas atrizes mambembes, que empurram uma carroça com rodas de madeira sem qualquer direção precisa. Nas primeiras imagens do filme, um longo plano sequência mostra as mulheres carregando a carroça. Ao fundo, o som de um helicóptero como a indicar uma disrupção temporal, pois na sequência das imagens surge o soldado vestido com as roupas do exército brasileiro na guerra que, como sabemos, ocorreu entre 1865 e 1870.

Fica claro, então, que a preocupação de Rosemberg é com um clima, como um estado em que, de forma teatral, personagens expressem ideias. O soldado encontra as duas mulheres, uma loquaz e a outra, com alguma insanidade mental, completamente muda. Após o encontro, todo o filme se concentra em infindável diálogo entre o soldado e a mulher loquaz. Enquanto ele defende as razões da guerra, a importância de sentido à vida pelos feitos no campo de batalha, ela o tempo todo se contrapõe a ele para mostrar os malefícios da guerra, como esta reduz a humanidade a uma condição primitiva: explicitamente ele diz que a guerra faz dos homens não mais do que trogloditas.

Embora estejam conversando sem parar, o soldado e a mulher não estabelecem diálogo: cada qual, a partir de seu ponto de vista sobre a guerra, monologa. Ou seja, não há comunicação entre eles. A verdade do que cada um diz se encerra em si mesma, completamente intangível ao que o outro fala. E assim o filme transcorre, exigindo do espectador uma posição. Na maneira como a narrativa é conduzida, Rosemberg deixa claro ser favorável à posição pacifista da mulher. Mas simultaneamente ele indica que se sua posição é sensível àqueles que estejam predispostos a aceitá-la, ela não toca àqueles que de antemão lhe são contrários. O alcance moral da parábola, portanto, se confina aos convertidos.

Visto assim, o filme efetivamente aponta para o presente. O Brasil nos anos recentes vive momento de indigesta polarização. De sorte que duas visões excludentes sobre os destinos do país estão em disputa sem que qualquer dos lados ouça o outro. Cada lado fechado em si mesmo não admite que o outro possa dizer algo de lúcido e verdadeiro. Na impossibilidade de comunicação nos dias atuais, algo como as posições do soldado egresso da guerra e a artista mambembe. O que se tem, de qualquer forma, ao fim, é um desfecho que revela grande dose de pessimismo sobre os rumos do país.

Guerra do Paraguay, infelizmente, como a obra de Rosemberg, ficará restrito a poucos. Uma pena, pois frente à voga panfletária em nossos dias, é uma obra que deveria ser vista e discutida por todos que de algum modo se colocam na posição de pensar sobre o país. Trata-se de um filme engajado com todas as nuances e matizes que uma obra assim, creio, exige. Para além do mero panfleto, um filme que nos desafia a pensar nosso presente a partir de um evento que, sabemos, foi decisivo para surgimento da República e a derrocada do Império. Nesses pouco mais de dois anos que nos separam da eleição presidencial de 2014, e que gerou um momento extremamente conturbado, Luiz Rosemberg Filho, na forma de parábola, nos apresenta um quadro tão pessimista quanto absurdo da condição em que nos encontramos.




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