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20ª Mostra de Cinema de Tiradentes




* “Histórias que Nosso Cinema (Não) Contava” (26/01/2017

Por Humberto Pereira da Silva


MOSTRA AURORA

Histórias que Nosso Cinema (Não) Contava
Direção: Fernanda Pessoa
Duração: 79min.
UF/Ano: SP/2017


Na década de 1970, em plena ditadura militar, as pornochanchadas foram o gênero de cinema mais visto pelo público no Brasil. Em razão de legislação que estabelecia percentual de filmes nacionais a serem exibidos nas salas de cinema, essas comédias de teor erótico, feitas com pouco dinheiro e em ritmo rápido, assinalam um momento importante em nossa filmografia. Até o fim da ditadura, os filmes de “mulher pelada” invadem as salas de cinema no país. A maior parte das pornochanchadas, de qualquer forma, foi malfeita e, sem exibir cenas explícitas de sexo, o forte estava efetivamente em tratar com deboche situações sexuais: em muitos casos, tão somente picantes. Ninguém ia ao cinema para ver numa pornochanchada uma história com drama existencial, ou que ela trouxesse algum aspecto crítico em um país que vivia em regime de censura a partir do AI5.

Fernanda Pessoa trabalha justamente com a enorme quantidade de filmes do gênero pornochanchada produzidos na década de 1970.

Histórias que Nosso Cinema (Não) Contava é um filme de edição de imagens, sem qualquer voz over contextualizando ou dando qualquer informação adjacente além das imagens exibidas. No início e final do filme um letreiro dá informações vagas sobre o que foi ciclo da pornochanchada e como era filmar em condições de pressão impostas pela censura. Trata-se, portanto, de um pot-pourri, uma miscelânea que reúne alguns dos mais emblemáticos filmes do ciclo. À medida que não didatiza, a exibição o filme aposta com duas coisas: que o espectador tenha em mente sobre ter havido uma época em que o cinema brasileiro era praticamente identificado ao filme de “mulher pelada”; e que o espectador também tenha em mente que foram realizados durante uma ditadura, cuja lembrança mais pregnante é a de censura às atividades artísticas.

Com esses dois emblemas do que foi o período em nossa cena cultural e política, Histórias... faz um recorte com forte dose de humor, com foco na maneira transgressiva como na ingenuidade das pornochanchadas subliminarmente a ditadura e os rígidos comportamentos morais eram tratador com sarcasmo. A edição de imagens e ritmo narrativo, então, são elementos vitais para que se tenha nele um painel de como sob a rigidez do regime o cinema pode tratá-lo de forma crítica e mordaz. Para quem viveu aqueles anos, inegável que o filme é evocativo, traz lembranças e convida o espectador a rever muito do que se perdeu no tempo. Para as gerações mais jovens, um painel que indica o quanto o cinema pode ter de transgressivo naquilo que é coberto pelo véu da ingenuidade, da brincadeira sem aparentes pretensões.

Histórias..., portanto, é um filme que além de resgatar para as novas gerações a memória de um momento em nossa cinematografia não se furta a exibir cada momento histórico feito de nuances: nuances que, devidamente consideradas, exigem reavaliações. Possivelmente, grande parte do público que via as pornochanchadas não tinha a menor ideia do teor crítico nas entrelinhas: provavelmente, sequer sabia do que se passava no país. E muitos para os quais as críticas à ditadura faria sentido, possivelmente viam com desdém as pornochanchadas, não procurando nelas elementos de questionamento do regime. Mas, isso apenas traz um dado por demais relevante para se pensar o cinema e a arte em geral. Qualquer juízo no calor da hora fica sujeito a reavaliações. Apenas o tempo dá sentido a expressões de momento que eventualmente não se consiga apreender no todo.

Assim como o cinema brasileiro da década de 1970, quando visto em seu teor crítico, merece ser revisto, como bem aponta o filme de Fernanda Pessoa, seu próprio filme não deixa de carregar um dado moral a ser devidamente considerado: grande parte de muito do que hoje é feito, e para o que grande parte da crítica torce o nariz, não deixa de conter implicitamente informações do momento presente que apenas o futuro revelará a com nitidez que nosso juízo crítico hoje não apreende. Porque tem nas entrelinhas um verniz que convida à revisão de valores, Histórias que Nosso Cinema (Não) Contava, para mim, é um dos filmes mais instigantes e provocadores de discussão da atual edição da Mostra Tiradentes.




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