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20ª Mostra de Cinema de Tiradentes




*“Quarta-Feira de Seminário e Mostra Aurora” (25/01/2017)

Por Humberto Pereira da Silva


Seminário: “Um Olhar Sobre o Cinema Brasileiro”, por Roger Koza

No ciclo de debates da Mostra de Cinema de Tiradentes, ontem foi a vez do crítico argentino Roger Koza. Membro do Fipresci, Koza escreve no blog ConlosOjosAbiertos (no qual cobre importantes festivais de cinema pelo mundo), apresenta o programa de televisão El Cinematógrafo, e desde 2006 é programador da Sessão Vitrine. do Festival de Cinema de Hamburgo. Bem envolvido com cinema brasileiro que circula em festivais, com sua fala expôs sua maneira de ver a inserção do cinema nacional em âmbito internacional, tanto quanto da interação entre as diversas cinematografias latino-americanas nesses primeiros anos do século XXI.

A fala de Koza se organizou em dois tópicos: os impactos internacionais de Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, em 2002, e agora o de Aquarius, de Kleber Mendonça Filho. Ele entende que esses dois filmes estabelecem balizas para que se entenda a ressonância internacional do cinema brasileiro, tanto quanto coloca seus diretores no seleto circuito dos festivais mais visíveis no mundo e, com isso, a expectativa dos caminhos de suas carreiras. Em sua visão, Cidade de Deus gerou um paradigma não só para o cinema brasileiro, como para diversas cinematografias latino-americanas. Ao adotar o que ele chama de “estética da sordidez”, o filme de Meirelles aguçou o olhar internacional para a realidade social brasileira, tanto quanto para os caminhos que o cinema pode tomar para se servir de espelho dessa realidade. A espetacularização da violência, para ele, deu a senha para que cineastas argentinos, colombianos ou chilenos seguissem a trilha.

No que ele chama “cine independente”, pontificado por Cidade de Deus, uma maneira de os países latino-americanos representarem um cinema ao mesmo tempo social e teológico – aqui, no caso, algo como uma maldição divina, que na violência social uma espécie de marca original com que tenhamos de lidar. Tendo-o então como referência, Koza reflete que o filme Baronesa, de Juliana Antunes, exibido na Mostra Aurora, é um ponto de inflexão na “estética da sordidez”. As condições de vida miserável e de violência no fechado mundo das favelas é o motor em ambos os filmes. Contudo, o que é explícito e visceral em Cidade de Deus, em Baronesa é indireto, concentrado nos anseios individuais, que refletem conversas intimas num cotidiano explosivo. Enquanto Cidade... é um retrato cruel da violência em estado bruto, o de Juliana humaniza personagens na sordidez de suas existências. A indagação colocada por Koza é que com Baronesa não se tem ideia do destino individual das pessoas nas condições de vida em que elas estão situadas, ao mesmo tempo em que se abre para um fio de esperança que, absurdo, sinaliza para outra representação da abordagem social na periferia do capitalismo.

O segundo tópico abordado por Koza diz respeito a Aquarius. Koza pondera que os pressupostos estéticos com que Kleber Mendonça trabalha foram bem absorvidos pelos humores dos grandes festivais. Ele considera que é um filme notável na maneira como oferece uma nova representatividade social do Brasil, diversa da de Cidade de Deus, e como isso dá início a um novo paradigma, a ser devidamente refletido pela crítica internacional. Ele não se atém, contudo, na discussão do valor do filme de Kleber Mendonçacomo obra, mas sim na enorme capacidade do diretor para entender as engrenagens do circuito internacional de cinema. É a capacidade de inserção de Kleber, e Koza inclui também Gabriel Mascaro, com Boi Neon, que lhe garante um lugar destacado em grandes cineastas do momento.

Mas à medida que Kleber Mendonça se inseriu no seleto e fechado grupo de grandes cineastas internacionais, isso o coloca frente a uma encruzilhada, ou uma equação com a qual precisará lidar na sequência de sua carreira. Situado no âmbito do chamado “cine independente”, Koza pondera se o diretor resistirá a concessões em sua liberdade criativa. Quer dizer: aceitado num clube seleto, ele bateria de frente com exigências que limitariam sua concepção de cinema? Esse, para Koza, o grande desafio com Kleber Mendonça há de se haver. Koza não fez menção ao rumo internacional da carreira de Meirelles após Cidade de Deus, e no caso do realizador pernambucano disse que o considera suficientemente inteligente e preparado para buscar caminhos que não limitem seu cinema. Para Koza, por fim, o paradigma iniciado por Kleber Mendonça fortalece o sentimento de que se forja uma cultura fílmica que pode ocasionar um cinema pungente: em suas palavras, no que se refere à ressonância internacional, tão poderoso como o Cinema Novo na década de 1960.


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MOSTRA AURORA

Sem Raiz
Direção: Renan Rovida
Duração: 80min.
UF/Ano: SP/2017


Sem Raiz, de Renan Rovida, foi exibido ontem na Mostra Aurora. O filme segue a matriz apresentada por Baronesa. O universo de protagonistas femininas em suas relações com o cotidiano. Nele, a procura de saída para a realidade opressiva no confronto de classes no capitalismo. Assim como Baronesa, um filme feito de fragmentos, falas entrecortadas, momentos que se interconectam indiretamente. Nos dois filmes, ainda, a estreita margem de movimentação frente às condições socioeconômicas.

O filme de Renan Rovida, assim, é mais um exemplar nessa edição da Mostra que lida com o problema da segregação social no Brasil. Tanto quanto em Baronesa, o propósito de desdramatizar e de gerar clima, sugestões. De fato, Sem Raiz é um filme que exibe situações com o propósito de oferecer diagnóstico de pessoas à margem das riquezas geradas pelo capital. Esse diagnóstico, em certo aspecto, visa menos comover do que expressar um estado de coisas que, conhecido, deve ser sempre lembrado. A premissa do filme, então, clara desde o início, é a de marcar posição. Ao abordar como quatro trabalhadoras enfrentam as condições de sobrevivência numa metrópole como São Paulo ele se propõe como filme bandeira na luta por uma causa.

O diagnóstico proposto por Renan Rovida, contudo, é demasiado simplificador e opaco. Simplificador porque coloca o espectador na posição de aderir ou não à causa, antes de refletir sobre imagens e a partir de um referencial sociológico balizado. O panfleto social parece se sobrepor à preocupação de fundo com a tese sociológica: do mesmo modo, as possibilidades oferecidas pela linguagem de cinema são deixadas de lado. Sem Raiz praticamente se resume à constatação, sem que dele se possa refletir. Se o cinema é uma maneira de pensarmos e refletirmos sobre a vida a partir do que é evidente mas não imediatamente percebido, o filme traz justamente aquilo que, imediatamente percebido, exclui a reflexão. O espectador não é afrontado e desafiado a pensar, mas tão somente, de forma passiva, a aderir à causa: acolher um determinado ponto de vista que, cruel, envolve muito mais complexidade do que o filme faz ver.

Justamente porque exige do espectador o acolhimento de uma dada posição, Sem Raiz é um filme opaco. Além do que é exibido, não há transparência para o que na condição de vida das mulheres retratadas, seria uma vida feliz. Na opacidade da condição em que estão, ainda que o destino último de suas ações seja a felicidade, ao fim e ao cabo, na simplicidade da narrativa, esse é um profundo malentendido. Sim, pois a transparência necessária para pensar em questões existenciais não vai além da caricatura de quem toca o cotidiano apenas pela pura sobrevivência.

Para concluir, no confronto com Baronesa, essa uma sutileza de que carece Sem Raiz.




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