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20ª Mostra de Cinema de Tiradentes




*“Um Filme de Cinema” e “Procura-se Irenice” (24/01/2017)

Por Humberto Pereira da Silva


Prêmio do júri da crítica da Sessão Aurora no ano passado, Thiago B. Mendonça volta a Tiradentes com um longa, Um Filme de Cinema, e, ao lado de Marco Escrivão, com um curta, Procura-se Irenice.


Um Filme de Cinema
Direção: Thiago B. Mendonça
Duração: 108min.
UF/Ano: SP/2016


Sobre o longa, em razão da premiação a Jovens Infelizes ou Um Homem que Grita Não É Um Urso que Dança, criou-se expectativa em torno do novo Thiago B. Mendonça, principalmente porque nessa edição da Mostra ele nos traz sua incursão no gênero infantil: ou, no filme fantasia.

Um Filme de Cinema põe em cena uma criança que realiza um filme e assim se fascina com a magia do cinema. Criada numa família em que o pai é cineasta, a criança, uma menina que frequenta a escola no ensino fundamental, é mantida afastada do ofício paterno. Fechado em seu ambiente de trabalho, o pai está envolto edição de um filme que concorrerá num importante festival de cinema.Assim, como todo pai zeloso, ele acompanha a vida da filha na escola: mas, também, como todo pai com agenda lotada, sabe apenas superficialmente sobre a vida escolar da filha.

Na escola, como tarefa escolar, a professora pede às crianças que façam um filme. A filha, sem explicar os motivos, pede a câmara do pai; este, sem entender o porquê do pedido, nega o pedido. Depois de uma birra da filha, no entanto, acaba cedendo e permite que ela filme com uma câmara amadora. Um Filme de Cinema, então, mostra o processo de descoberta da criança, que se encanta com as possibilidades de filmar.

O pai acaba se contagiando com o entusiasmo da filha e os momentos mais ternos do filme são os em que ele lhe ensina a manusear a câmara, para extrair de uma situação filmada um momento de verdade. O filme segue o orgulho do pai, ao ver o gosto pelo cinema demostrado pela filha, assim como exibe peripécias como a troca de fitas: surpresas e inversões arrematam a história.

O tom do trabalho, claro, é de fábula infantil. A pureza e ingenuidade da criança se dando diante de fato inusitado que estabelecerá o trecho final. E a tal inversão citada acima ocorrendo (nos mais diversos aspectos) com o pai. Por proposta de Thiago B. Mendonça, a ideia de que as convenções do mundo adulto legitimam realizações por critérios de fluidez lógica, incapazes de existire diante do inusitado. A ideia chave de Um Filme de Cinema é bem interessante se presta a interrogações. Por meio da fábula, Thiago B. Mendonça lança suspeitas sobre o rigor nos critérios forjados pelos adultos para premiar uma obra fílmica.

Certo: mas se a ideia é boa, o filme não o é. Thiago B. Mendonça realizou obra demasiado infantil. E aqui infantil no sentido de que ele não deu ao filme algo que lhe seria de vital importância: algo a ser visto e apreciado por crianças, como uma espécie de dado de formação próprio às fábulas infantis. A moral da história, como elemento recorrente nas fábulas, oferece às crianças uma maneira de entender e se portar no mundo. É assim que se lê, ou se deveria ler, Esopo nas escolas. A fábula é porta para a criança entrar no registro moral do mundo adulto.

Mas, Um Filme de Cinema coloca uma criança num mundo adulto que lhe cabe e, simultaneamente, propicia um questionamento impróprio dos critérios de seleção de um filme num festival atípico ao que seria de seu trabalho. Quer dizer: com feição de fábula infantil, Um Filme de Cinema seria melhor se seu propósito fosse de sátira. Nada indica, contudo, que Thiago tenha proposto uma sátira. Ele aparentemente confundiu as fronteiras e assim seu filme se torna aborrecido, porque ficou aquém do que poderia ter feito, e não fez. Aguardado com expectativa, decepcionou.




Procura-se Irenice
Direção: Thiago B.Mendonça
Duração: 25min.
UF/Ano: SP/2016


Mas Thiago B. Mendonça está aqui na Mostra também com Procura-se Irenice, curta-metragem que resgata a história de uma atleta brasileira pobre e negra, cortada da delegação que disputou as Olimpíadas do México em 1968. No momento em que a ditadura militar recrudesceu e o Brasil entrou numa era de trevas com o AI5, a sorte de Irenice foi determinada pelos milicos no poder.

O episódio que resultou no corte de Irenice, como mostrado no curta, é controverso e acabou praticamente apagado da memória coletiva. Quase cinquenta anos depois, poucos sabem o que aconteceu, e Irenice é um personagem ignorado em nossa história esportiva. Thiago B. Mendonça, põe em cena não só o personagem, mas a necessidade de abrirmos arquivos para trazer à baila episódios que caíram no esquecimento porque, não sendo propriamente uma atleta de ponta num prática esportiva de maior alcance, seu caso dá o tom do quanto de nossa história está encoberto.

É um curta documental que inquieta não só por causa da história que resgata, mas porque nos exige relembrar que a ditadura militar no Brasil ainda está por revelar tantos outros episódios para além do mundo esportivo. Importante ressaltar que o curta, ao fim e ao cabo, não traz de fato explicações, ele tão somente expõe o caso. Quer dizer, as razões de fundo para o corte de Irenice não são claras, ou se tem dele indícios: mas se não há depoimentos com contraditório e tal, há de modo inegável a constatação de que o regime militar atuou no meio esportivo de uma maneira que hoje cabe trazer à tona. Ao compor seu filme com escassos recortes de jornais de época e depoimentos de personagens pouco conhecidos do grande público, Thiago B. Mendonça presta um enorme serviço para que não percamos de vista as promiscuas relações entre a ditadura e dirigentes esportivos naqueles anos de chumbo.




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