Fonte: [+] [-]





20ª Mostra de Cinema de Tiradentes




*“”Terça-Feira, de Seminário e Filmes (23/01/2017)

Por Humberto Pereira da Silva


"Seminário Diálogos do Audiovisual: As Mulheres na Crítica: Cenário Brasileiro"

Entre os eventos da programação da Mostra Tiradentes, o “Seminário Diálogos do Audiovisual”. O tema do seminário, “As Mulheres na Crítica: Cenário Brasileiro”. Mediado por Marcelo Miranda, o evento contou com a participação das críticas Camila Vieira, do Rio de Janeiro, Flavia Guerra, de São Paulo, e Ivonete Pinto, do Rio Grande do Sul.  

O evento deu oportunidade à divulgação do trabalho que vem sendo realizado pelo “Coletivo Elviras”, que se dedica à questão da presença do olhar feminino na crítica de cinema, à pouca visibilidade no surgimento de realizadoras cinematográfica e ao desequilíbrio da participação de mulheres em associações críticas.

Como explicado por Flavia Guerra, o nome do Coletivo é uma homenagem a Elvira Gama, que, numa coluna chamada “Kinetoscópio”, veiculada ao Jornal de Brasil, escreveu sobre imagens em movimento entre os anos de 1894 e 1895, antes, portanto, da invenção do cinema pelos irmãos Lumières.

Tendo por finalidade colocar em pauta a questão da equiparação de gêneros no universo da crítica, as três debatedoras, por meio de mapeamento do número de mulheres nos diversos campos de atuação, estabeleceram as balizas da discussão. Há uma desproporção notável entre homens e mulheres, tanto no exercício da crítica, quanto na realização de filmes. O foco da discussão proposta pelas “Elviras”, no entanto, não foi o de reivindicação de cotas, no cenário das chamadas ações afirmativas, mas de abertura de abertura de diálogo frente a um diagnóstico oportunamente exposto. Os dados evidenciam uma situação, a situação exige uma posição, a posição implica na atenção para o fortalecimento – tácito ou não – de postura machista, ou de favorecimentos diferenciados e razão do gênero. O ponto importante na atuação das “Elviras”, assim entendo, é abrir espaço para o debate, e não servir de instrumento para fazer frente aos homens na luta por espaço no mundo cinematográfico.

Trata-se, portanto, de adotar uma estratégia de convencimento que integra os homens na luta das mulheres por uma equalização de espaços. Do mesmo modo, trata-se de uma estratégia para sensibilizar as mulheres a saírem de uma posição passiva. Nesse sentido, que as mulheres tomem consciência de seu poder frente a uma realidade que pode ser mudada por meio de atuação coletiva. Aqui, me permito, mesmo que tenham tomado o evento como momento panfletário, como uma espécie subliminar de manifesto, a ação das “Elviras” traz um tanto do pensamento do filósofo francês Michael Foucault. Na microfísica do poder, todo exercício do poder é uma forma de reação. O poder, portanto, não é algo que se define, mas que se exerce numa relação de forças em confronto.

O movimento das “Elviras”, assim entendo, se beneficiaria igualmente das ideias da filósofa americana Judith Butler. No livro Problemas de Gênero: Feminismo e Subversão da Identidade, linha traçada por Foucault, Butler expõe o conceito de gênero como “performativo”: fabricado culturalmente, um desempenho repetido e reencenado de/por normas e significados estabelecidos socialmente que se legitimam pela imitação de convenções dominantes.  Ou seja, a fala que indica subversão na identidade de gênero é performativa, à medida que falar é agir. O manifesto, então, é uma convocação cujo efeito performativo é o de expectativa de adesão à causa. Por isso, por meio da linguagem, o uso de estratégias próprias às convenções dominantes.

Para uma plateia que lotou o Cine – Teatro Sesi, as três debatedoras deixaram a inequívoca impressão de urgência do tema, tanto quanto da necessidade de sua inclusão nas discussões presentes no mundo do cinema. Não à toa, por isso, que mesmo em tom de falso gracejo, ao fechar a apresentação Ivonete Pinto comprometeu Cleber Eduardo a fazer um novo debate sobre mulheres na crítica na próxima edição da Mostra. Tomado o falso gracejo de Ivonete como um ato de fala performativo, a exigência de tomada de posição do curador da Mostra.




A Destruição de Bernardet
Direção: Claudia Priscilla, Pedro Marques
Duração: 70min.
UF/Ano: SP/2016


A Destruição de Bernardet é um ensaio cinematográfico sobre Jean-Claude Bernardet. Aos 80 anos de idade, Bernardet deixou de lado a crítica de cinema, ou o pensamento sobre cinema, e nos últimos anos tem se entregado à atuação em filmes de jovens diretores, que de algum modo transitam à margem do mainstream. No filme, ele fala, sempre de modo fragmentado e inconcluso, de seu passado, das relações familiares, da velhice, da doença, e da ideia de suicídio. Suas falas, gravadas num antigo gravador, são entrecortadas por conversas com amigos, diretores com que recentemente trabalhou. Bernardet, ainda, é filmado andado em meio à mata atlântica, em situações intimistas, lavando sua própria roupa.

Dirigido por Claudia Priscila e Pedro Marques, A destruição de Bernardet é um importante registro daquele reconhecidamente um dos mais relevantes críticos do país. Para quem quer que se envolva com cinema, as ideias de Bernardet são incontornáveis. Com trânsito entre o mundo acadêmico e o da grande imprensa, Bernardet firmou seu nome de modo a que em torno dele se tenho gerado um culto. Esse trânsito, também, deve-se levar em conta, faz dele um personagem híbrido; melhor: transgressivo, sem lugar definido. Requisitado, ele mantém uma aura de aproximação e afastamento onde quer que se encontre. E isso, como se reflete no ensaio fílmico, se dá igualmente em sua vida pessoal e em sua formação cultural. Um francês/belga que se abrasileirou, mas que mantém relação tensa com a cultura brasileira; um crítico brasileiro com sotaque francês tão marcante, e que se apega ao mundo cultural francófilo de modo tão sentimental que fica difícil traçar fronteiras e dizer algo a respeito de pertencimento cultural.

Um dos aspectos, aliás, pregnantes do filme é como ele reflete um personagem em constante desconforto existencial, que simultaneamente revela absoluto controle de si. Bernardet não parece jamais satisfeito, não parece minimamente atribuir importância ao papel que desfruta no cenário cultural brasileiro, enquanto sintomaticamente se deixa filmar, permitindo que se crie em torno de si uma aura mítica. É como se, no plano filosófico, sua postura guardasse um tanto de cinismo, de sarcasmo, com respeito à sua condição. Sua figura se presta a exibir contradições, carências, nonsenses, tanto dele quanto do ambiente que o cerca. Daí jogar o tempo todo com chistes: “gravo minha voz para ficar retida como arquivo, no gravador; mas sei que, gravada, a qualquer momento ela poderá ser ouvida e assim presentificará minha existência”.

Assim, o filme gira em torno do que é uma autobiografia, uma auto-ficção, ou um relato de memórias. No fundo, resultado de escolhas íntimas, uma maneira de exibir como gostaríamos de ser vistos, ou como caca um se representa. Nessa representação autobiográfica, o falseamento da verdade sobre o que realmente se é. Claro, Bernardet tem plena consciência de que o filme mente sobre ele. Mas o jogo entre verdade e mentira, como nos ensina Nietzsche, de quem suponho Bernardet sofra influência, no fundo é um jogo em que intervém a vontade de poder. Ao mentir e dizer que mente, se diz uma verdade. Eis o paradoxo: no jogo entre verdade e mentira restam figuras de linguagem, metáforas, metonímias...; no falseamento autobiográfico, um prisma com uma das faces em que esta não é falseada. Tomado como figura de linguagem, o recorte sobre Bernardet em A Destruição de Bernardet não deixa de ser verdadeiro quando ele próprio diz que toda autobiografia é falsa.




*Voltar à página inicial da cobertura






* Site do Evento