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20ª Mostra de Cinema de Tiradentes




*Os Incontestáveis (22/01/2017)

Por Humberto Pereira da Silva


Os Incontestáveis
Direção: Alexandre Serafini
Duração: 83min.
UF/Ano: ES/2016

A Sessão Olhos Livres exibiu ontem Os Incontestáveis, longa de estreia do capixaba Alexandre Serafini. Com uma produção anual em torno de 120 longas por ano, não se pode dizer que se perderia muito por não ter visto esse longa de Serafini. Esse, aliás, um dos problemas inevitáveis da quantidade. A realização de uma quantidade enorme de filmes de que restarão poucas lembranças. Os Incontestáveis é um filme para ser esquecido.

Serafini parte da tradição de “gênero”, e divide a história em duas partes: na primeira, a narrativa segue as premissas do road movie; na segunda, a história inicial transforma-se em algo como o realismo fantástico.Os Incontestáveis começa com dois irmãos que viajam na fronteira do Espírito Santo e Minas Gerais, num Opala 73, em busca do Maverick 77 que pertencera ao seu pai: que há pouco havia morrido. Não há nada que esclareça por que o carro fora tão importante. Não há nada que esclareça, também, que ressentimentos havia na relação do pai com os filhos. E, por fim, os irmãos parecem ter motivações diferentes para a jornada em busca do Maverick. O condutor do Opala, sempre irritado e embriagado, parece ser movido pelo sentimento de honra ao reaver o carro do pai. O irmão que o acompanha parece seguir a jornada com contrariedade.

Claro que é uma narrativa que deixa pontos sem nós, interrogações, que deixa personagens soltos, indefinidos, ou seja, oferece pistas: deixar no ar enigmas para serem decodificados pelo espectador é uma das inúmeras possibilidades de realização cinematográfica. Nenhuma narrativa precisa ser explicativa, fechada, com sentido preciso e plenamente identificável do que é narrado. Nisso nenhuma novidade, senão que é preciso o autor revelar talento para explorar recursos narrativos. Mais do que isso: certas ousadias formais implicam assumir riscos, que, malsucedidos, podem resultar tiro saindo pela culatra. Quer dizer, e nisso igualmente nenhuma novidade, que é preciso ter estofo para que o investimento não acabe caindo no patético.

Fundamentalmente, o road movie de Alexandre Serafine é decepcionante porque o tempo narrativo se perde em esquetes de humor previsível, que retiram do filme o que lhe proporcionaria refletir sobre a razão da viagem. O carro não é encontrado onde eles procuram porque havia sido negociado; é dada a indicação de onde o carro se encontra e os irmãos seguem atrás, e assim se repete a primeira parte do filme até o momento em que se torna aborrecido notar o previsível e o patético da história que está sendo vista. A sucessão de situações vividas pelos irmãos apenas parece preencher espaço na condução da história. Assim, como uma piada repetida, o fime perde a graça quando se sabe que é para rir depois de um novo malogro na busca do carro.

Mas, Os Incontestáveis tem uma segunda parte. Esta se inicia com o encontro do carro na fazenda de um bizarro fazendeiro. O que era um road movie transforma-se em realismo fantástico e o que seria motivo de riso amarelado transforma-se numa sucessão de acontecimentos sem pé nem cabeça. O fazendeiro que havia adquirido o Maverick, previsivelmente, não se desfaria dele. Despreza completamente a proposta de venda do carro aos irmãos e expulsa os dois com violência da porteira da fazenda. No momento em que são expulsos, no entanto, cruza por eles um velho que, parece, é desafeto do fazendeiro. Eles dão carona ao velho e, com o velho, a busca do carro se desloca para uma narrativa fantástica. O velho, místico, os conduz a uma insana viagem iniciática numa religião com interpretação singular da Bíblia.

Junto com o velho místico, outros personagens excêntricos despontam, ocupam o Opala e ao final, e... Nessa segunda parte da narrativa, no entanto, os temperamentos dos irmãos modificam. O que conduzia o Opala acaba assumindo uma postura passiva, enquanto o outro é tomado pelo fervor religioso. Acontecem desentendimentos, confrontos, desinteresse de um, fixação no “cumprimento da tarefa”, do outro, até a sequência final, simbólica, justa à proposta de um filme que se perde em propósitos mal definidos, pouco inteligíveis, em decorrência raso de conteúdo.

A se suspeitar que a proposta da Mostra Olhos Livres, tendo como exemplo esse filme, exigirá boa vontade do espectador para extrair algo a mais, que valha a pena ter os olhos diante da tela.




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