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20ª Mostra de Cinema de Tiradentes



*“Ralé” e “Era o Hotel Cambridge” (21/01/2017)

Por Humberto Pereira da Silva


Ralé
Direção: Helena Ignez
Duração: 73min.
UF/Ano: SP/2015

Entre as homenagens da 20ª Mostra de Cinema de Tiradentes, a prestada a Helena Ignez, atriz emblemática e marcante do cinema nacional desde Pátio (1959), de Glauber Rocha. Ignez consolidou reputação como protagonista em um punhado de filmes que fazem parte do melhor de nossa filmografia. Para os cinéfilos, sua imagem está indissoluvelmente ligada aos filmes de transgressão, do muitas vezes chamado “cinema marginal”, final da década de 1970, quando se casa e também se torna atriz fetiche de Rogério Sganzerla.

Com Sganzerla Helena Ignez fez A Mulher de Todos, Copacabana Monamour, Sem Essa Aranha, Carnaval na Lama, filmes com a marca da inventividade necessária do cinema feito nos anos de chumbo da ditadura militar. Sempre ativa, nos anos recentes, além de atriz, também se lançou na direção. Em Ralé (2015) temos a atriz diretora, que explicitamente se deixa envolver pela transgressividade do cinema de invenção do final dos anos de 1960. Livremente adaptando de peça de Maxim Gorki, nesse filme ela explora a fragmentação de sentidos numa situação. Compõe, pois, um filme no qual fragmentos proporcionem o sentimento de incômodo e de provocação.

Ralé é principalmente um experimento com o movimento de corpos, e meio para encenações falsamente improvisadas. Por meio da alternância de quadros, se tem um grupo de pessoas que expressam a liberdade da vida sem censura, em confronto a códigos rígidos de comportamento. Há, então, uma atmosfera de boemia como foco de resistência aos valores conformistas da vida atual. Na “ralé”, personagens que buscam outros modos de vida além do ramerrão, ou seja, outra vida além da aceitação dos valores conservadores.

No filme, o vinculo explícito com o “cinema marginal” de Sganzerla. Essa, referência mais pregnante. Trata-se, assim, de uma obra a ser devidamente considerada a partir do contexto de referência com o que ela dialoga, e como esse diálogo nos permite entender as eventuais intenções de Helena Ignez na direção. Aqui, um ponto inequivocamente destacável. A maneira como a filmografia “marginal” do período de chumbo da ditadura está prenha de sentidos e de algum modo dita muito dos impulsos criativos do cinema atual. Helena, nesse sentido, é muito mais uma caixa de ressonância que nos faz ver como uma forma de se conceber o cinema não se confina ao seu tempo próprio e se alarga no tempo. Não é um mero capricho da atriz consagrada, que com o nome estabelecido sinta necessidade de filmar e, ao filmar, busque as referências de inventividade de um momento preciso.

Quem quer que veja Ralé com isso em mente entra na viagem proposta por Helena Ignez. Mas no incômodo e nas provocações propostas a se notar um filme melancólico, que também reflete o sentido de um mundo que não mais existe. No confronto com os códigos de comportamento de um mundo tão pouco desbundado, a sensação de perda do poder de efetivamente chocar. Sob esse aspecto, o filme exibe o esgotamento do sentido da transgressão. Esta se torna quase um clichê, uma caricatura. Como a mostrar, como peça de resistência, que o conformismo anula o sentido de criatividade. Por esse prisma então, Ralé deixa no ar que vivemos tempos sombrios, mas também que a resistência carrega algo de quixotismo.



Era o Hotel Cambridge
Direção: Eliana Café
Duração: 94min.
UF/Ano: SP/2016

Era o Hotel Cambridge, de Eliana Café, integra a Sessão Horizonte, da Mostra. O filme narra a trajetória de refugiados de diversos países que se juntam a trabalhadores sem moradia que ocupam um velho edifício abandonado no Centro de São Paulo. Há diversas maneiras de se entender um “filme político”, ou de engajamento explicitamente político. No caso de Era o Hotel Cambridge se tem um filme com posição explícita a favor dos moradores sem teto. De fato, claustrofóbico, praticamente toda a ação se passa entre as paredes do prédio ocupado. Nele, a vida de pessoas de diferentes culturas, com diferentes maneiras de entender o mundo, sem dramas pessoais e um objetivo comum: ter um lugar de abrigo.

Notificados de que por meio de uma decisão da justiça eles devem desocupar o prédio, em assembleia eles decidem ficar e resistir à ação de despejo. O filme, então, mostra a tensão em que passam a viver até o momento no qual a tropa de choque da polícia dá início à desocupação. Nas imagens finais, em diversos prédios também ocupados, bandeiras do movimento de sem tetos dá o sentido simbólico de que o problema não se resolve com uma ação pontual. A resistência ganha o sentido de frente de luta a se manter, pois o problema de moradia, uma chaga social, está além da mera ação isolada. Tem-se com isso no filme o momento simbólico para se refletir sobre graves problemas sociais numa sociedade de profundas desigualdades de oportunidades.

Não se pode negar que Eliana Café tem em vista um tema urgente, que funciona como uma espécie de pedra no sapato, de lixo que posto embaixo do tapete não esconderá sua existência e seus efeitos presumíveis. Fechar os olhos para o problema da moradia é postar-se com cinismo, pois não se trata de empregar convenientemente retórica de ocasião. A coisa estoura com requintes de violência, pois é uma situação clara de ausência do Estado para lidar com os diferentes anseios de uma sociedade complexa, com contrastas e desníveis flagrantes.

Se tomado como panfleto político frente a uma situação social aterradora, Era o Hotel Cambridge é um filme inegavelmente forte, de apelo à consciência de que há preço a ser pego pela cômoda tranquilidade dos que estão do outro lado na segmentação social. Ao assumir a causa dos sem tetos, Eliana Café deixa claro que esse é um mundo, uma realidade para a qual não se pode fazer vistas grossas. Usar o cinema como veículo a favor de um segmento social segregado, parece-me um esforço louvável e que revela sensibilidade: nos cabe como seres políticos. Parece-me óbvio, portanto, que Eliana Café tem em mente com seu filme o caráter de urgência.

O que, de qualquer forma, não exime o trabalho de irregularidades e, por assim dizer, de certo peso com respeito ao foco exclusivo nos moradores sem teto. Ora, claustrofóbico, o filme não dá brechas a um olhar minimante crítico da situação. São dois lados em contenda, e nisso algo como viver em condições, um velho prédio ocupado, como um mundo fechado em si mesmo. A pobreza, as condições de miserabilidade não são refletidas, serve de mote para que, por meio da resistência à ocupação assim se mantenha. Essa uma contradição em filme como o de Eliana Café que acaba por louvar a permanência dos sem tetos na condição de ocupantes: e nada além dessa condição.

Por isso, entendo, além do sentido de urgência, Eliana Café não parece ter percebido que além da luta pela moradia, ter teto é tão somente a condição para uma vida digna. Quer dizer, uma vida em que a ocupação de um prédio no fundo é um arremedo que por si só reforça a mesma condição de miserabilidade denunciada pelo filme.




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