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Numa tarde de "O Palhaço", ouvindo Selton Mello e Paulo José











Cid Nader

Semana passada (dia 15/03/2010) aconteceu uma entrevista coletiva para que Selton Mello falasse de seu novo filme como diretor: O Palhaço. Desde que alguns dos blogs do nosso site foram atacados impiedosamente por um vírus complicado e violento fica difícil imaginar onde encaixar entrevistas coletivas ou eventos similares – fato ocorrido já há alguns meses, que afetou principalmente o Cinequablog, o Cidblog e o Curtaoblog, e que parece de mais difícil resolução do que faria supor minha ignorância técnica no assunto. Antevi, porém, a possibilidade de poder postar algo no Cinequanon mesmo, ante a perspectiva de um poder comentar algo sobre um novo trabalho de Selton (que parecia, antes, disposto a apostar cada vez mais fortemente na carreira por trás das câmeras – ele, um dos atores mais tietados no país), ajuntada com a promessa de participação do já mitológico Paulo José na entrevista (ele, que no filme, fará o papel do palhaço Valdemar – homenagem declarada ao palhaço Arrelia). Convite gentilmente feito pela assessoria da Procultura, a ser conferido no centro cinematográfico que é a cidade de Paulínia (SP), convite aceito.

Os fatores de atração ao “evento”, associados ao nome de Selton, excediam em atrativo a possibilidade de ser somente um: havia a novidade de vê-lo, também, atuando num filme dirigido por ele mesmo (onde protagonizará o palhaço Benjamin); havia a chance de constatar (se bem que ainda por palavras do próprio e com o trabalho ainda em fase de filmagem) novidades ou progressos (mais do que progressos, melhor, modos de entender cinema concretizado, na realidade) como realizador atento e estudioso, fato demonstrado na sua ainda irregular primeira obra (pra mim, reverencial e referencial demais, de interesse, um tanto retalhada a mais) Feliz Natal, mas que “prometia”; e a possibilidade do bom papo (já que ele tem talho especial para tal ato). Não se fazendo de rogado, agindo como bom papeador e atento às mais mundanas curiosidades proferidas por quase toda a imprensa lá localizada, Mello iniciou falando franca e abertamente de desencantos com a vida (dificuldades, incertezas), que também teriam sido responsáveis por um tom bem mais ameno e divertido procurado nesse novo filme: que classificou acima de tudo como obra mais divertida, que buscará o humor e a alma do palhaço que faz rir, longe do que seria de se supor em uma pessoa que anda procurando escapar de problemas, o que faria supor a busca na ideia do palhaço como a figura trágica e triste, por trás de máscara alegre e sorriso aberto imposto por tintura.

As atenções começaram a ser divididas plenamente com um Paulo José solicito e expansivo, que parecia querer tirar um tanto das “pressões” sobre Selton (por momentos pareceu mesmo querer aliviar possíveis pesos). Paulo, extremamente gentil com a plateia de jornalistas, imaginando e executando até pequenas intervenções em cena aberta, falando do filme, do prazer em continuar trabalhando, na sua ligação com o cinema, no (evidente e notadamente sincero) prazer em trabalhar com o novo diretor (a quem definiu como pessoa com “cara de honesta”, e de quem obteve, por várias vezes durante o encontro, a retribuição gentil e emocionada por olhares enternecidos e admirados), nos seus problemas de saúde. Capítulo à parte o dos seus problemas com Alzheimer, ao qual não se referiu (como até seria de se pensar, por conta do ambiente leve e descontraído que descortinava o andamento da entrevista) amenamente, do qual falou sentir ter acarretado mudanças drásticas em sua vida, com o qual coexiste (não convive): mas levando, sempre.

Quando o assunto voltava ao filme, Selton novamente falava que a sua intenção - além da evidente homenagem a esse mundo de figura tão ancestral (milenar, diria), ou da forte pesquisa de campo em busca dos melhores dados e referências aos modos e exemplos da arte (fato necessário num diretor que parece estar se estabelecendo como um atento estudioso e laborioso perfeccionista – bastando lembrar que no quesito cinema, sei de seus esforços e conhecimento, de sua dedicação, de sua leitura curiosa sobre quase tudo que se escreve...) -, em fazer de O Palhaço algo leve e engraçado: fazia sentir que pode ser uma atenuante a tudo de ruim que andou lhe acontecendo (coisas que não “abriu” aos jornalistas), um contra-ponto ao peso de Feliz Natal, chegando a brincar que seria um diretor bi-polar pelo antagonismo de conceitos entre um trabalho e o outro.

O filme tem parte de sua grana e de seus esforços oriundos (de) e realizados (em) Paulínia. Lá, um picadeiro (com cheiro de picadeiro mesmo) foi montado e boa parte das filmagens está sendo realizada. Mas o filme necessita (pelas palavras dele mesmo) ganhar a estrada para ser um filme de circo, e algo mais no interior paulista, além do sul de Minas, será rodado. Apesar de Paulo José dizer reconhecer no diretor um autor acima de tudo, um desajuste conceitual pode ter sido proferido, já que ele (Selton) disse por várias vezes estar fazendo um trabalho pensando ostensivamente em agradar ao público que o assistirá: não que uma coisa impossibilite a outra; não que um autor não possa querer falar direta e facilmente ao grande público (evidente que não, e há autores que conseguem); mas ficou nítido que há um risco sendo corrido se a intenção de agradar for tão primordial como foi dito (riscos corridos combinam com autoralidade, mas saí imaginando que um tanto da insistência – não tudo – em dizer que havia a intenção em agradar demais, está no fato de “ter de falar” ao modelo de produção, e outro tanto no fato dele estar usando o trabalho como uma espécie de expurgação).

Num texto como esse meu, meio desencadeado, mas com a intenção de proporcionar os meus sentimentos durante toda a entrevista – de onde não ressaltei questões individuais nos momentos e ordem em que foram explanadas, e onde não coloquei aspas que contextualizariam os ditos como frases repetidas ao pé da letra (detesto particularmente esse ranço reducionista jornalístico; gosto de intrometer pitacos, deduzir, fazer quem lê intuir) – ainda me resta falar de uma situação de bastante agrado e com a qual concordo plenamente: quando Paulo José e Selton falaram de metodologias de direção de atores, chegando à conclusão que tal “ato” é bastante dispensável, e nada primordial, num trabalho de cinema (com todo o respeito, como disse o diretor, que aditou à sua certeza o fato concreto de nunca ter se sentido bem dirigido – como ator mesmo – em situações anteriores). Essa opinião – que poderia significar singeleza ou outra coisa mais ligada a ressentimentos -, na realidade, fez perceber que ir a Paulínia para ver Selton Mello falar de um trabalho ainda inconcluso foi uma opção que recaiu na certeza de que estaria indo para ver alguém que gosta e entende de cinema falar sobre a arte: mesmo sem saber onde dará essa nova empreitada, se bem que confiante no progresso de alguém que está se acostumando a caminhar num mundo que antes “só” reverenciava.

Ah: e ele disse que não pretende parar de trabalhar como ator (essa á para fãs de astros), ok?


Ficha do filme O Palhaço

Elenco: Selton Mello, Paulo José, Giselle Ingrid, Larissa Manoela, Teuda Bara, Cadu Fávero, Erom Cordeiro, Maira Chasseraux, Thogun, Hossen Minussi, Álamo Facó, Tony Tobelada, Bruna Chiaradia, Renato Macedo.
Direção: Selton Mello
Produção: Vânia Catani, Selton Mello.
Roteiro: Selton Mello, Marcelo Vindicatto.
Produtora Executiva: Vânia Catani.
Direção de Arte: Claudio Amaral Peixoto.
Diretor de Fotografia: Adrian Teijdo (segundo Selton, por indicação de Lula Carvalho).
Figurino: Kika Lopes.
Trilha Sonora: Plínio Profeta.
Produção: Bananeira Filmes (Vãnia Catani estava na entrevista juntamente com o Secretário da Cultura de Paulínia, Emerson Alves).
Coprodução: Mondo Cane Filmes.
Distribuição: Europa Filmes.


FOTO 3: O Globo.


Cid Nader é jornalista, editor e crítico do site.