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Avatar - Cameron retrocede ao cinema de atração

















Marcelo Lyra

Há mais de dez anos sem dirigir ficção para o cinema (o último foi "Titanic", de 1997), a volta de James Cameron era esperada há algum tempo, pois trata-se de um artesão competente, dono de um ótimo senso de ritmo narrativo. Ele volta com a mega produção Avatar, uma aventura pensada para a exibição em 3D.

É a história de uma missão espacial exploratória, que vai a um planeta distante habitado por indígenas, em busca de um minério radiativo valiosíssimo. Será preciso acabar com eles. Ocorre que o soldado enviado para se infiltrar entre os indígenas acaba se apaixonando por uma bela mocinha e lidera a resistência.

Tudo é um tanto confuso, misto de faroeste disfarçado de ficção científica com filme indianista ecologicamente correto. Como estilo, parece uma mistura de "Pocahontas" com "Exterminador do Futuro" (a cena final, da luta contra uma espécie de robô, parece xerocada desse filme). Há também um clima de "Guerra nas Estrelas" e o homem branco que se envolve com uma índia, passando para o outro lado, lembra também o belo faroeste "Flechas de Fogo". Também é impossíbvel não lembrar de "Apocalipse Now" nas cenas de ataque de helicópteros.

O maior atrativo do filme é a exibição em 3D, que realmente impressiona. O problema é que apenas 100 das 600 salas exibirão o filme no formato certo. Para piorar, nessas salas 3D o espectador paga cerca de R$ 30,00. Ou seja, assistir em 3D custa os olhos da cara! Quem optar pelo formato normal não vai entender porque jogam tantas coisas em direção à tela e vai perder o que o filme tem de mais atrativo.

Ok, Camerom é um mestre na narrativa de ação e nesse sentido há uns poucos bons momentos, mas o filme é muito ingênuo e previsível. Os personagens não têm nuances. Os vilões são feios, sujos e malvados, enquanto os mocinhos são bonitos, idealistas e românticos (blearghhh). Para piorar, é ecologicamente educativo, como se fosse escrito pelo Greenpeace, e tem boa parte da trilha sonora feita com motivos indígenas africanos: que é brega, para dizer o mínimo.

Outra coisa: o filme mescla cenas com atores (nas partes com os invasores) e cenas digitais (no mundo dos avatares). Como pelo menos 70% das cenas se passam entre os avatares, a sensação é que estamos assistindo a uma sofisticada animação da Pixar.

Em resumo, há boas cenas e um visual impressionante. Mas o que não dá mesmo para levar a sério é um filme onde os animais se rebelam e enfrentam o invasor. Além disso, um filme ter como principal atrativo o visual 3D é um retrocesso lamentável. Lembra os primórdios, quando o cinema era apenas uma atração, mostrando uma chegada do trem, truques mágicos, animais na África etc.



Marcelo Lyra é jornalista e crítico de cinema. Além de outras atividades e veículos para os quais escreve é, também, colaborador do Cinequanon.