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Cinema, Um Ato Político: “Terra e Liberdade”






















Cinema, Um Ato Político


"Terra e Liberdade "                                        (publicado: 07/2016)


Por Humberto Pereira da Silva

Octogenário, em franca atividade, o cineasta britânico Ken Loach é um dos nomes de proa do cinema atual. E sua proeminência se dá, em grande parte, em razão do caráter político nas mensagens de seus filmes. A filmografia de Loach se inscreve no que de modo amplo pode-se chamar de cinema engajado. E seu cinema engajado, por sua vez, assume posições que no espectro político é identificado à esquerda. Ligado a movimentos ativos de esquerda britânica na década de 1960 (notadamente o Partido Revolucionário dos Trabalhadores, de orientação trotskista), a partir dos anos de 1980 Loach fez do cinema veículo de certo pensamento de esquerda.

Um dos grandes nomes do cinema atual, não é inoportuno lembrar sua recente premiação no 59º Festival de Cannes, com I, Daniel Blake (ficou com a cobiçada Palma de Ouro), um drama social que carrega igualmente o sentido de mensagem política. Seu cinema de cunho político, de qualquer forma, inclui obras marcantes, como Agenda Secreta (1990), sobre o conflito entre católicos e protestantes na Irlanda do Norte, Terra e Liberdade (1995), que aborda a guerra civil espanhola, Uma Canção para Carla (1996), onde a ação se passa na Nicarágua no momento da revolução sandinista, e finalmente Ventos da Liberdade (2006), com foco na guerra civil irlandesa na década de 1920, e que lhe granjeou a primeira Palma de Ouro em Cannes. Tendo em mente a força da mensagem política em sua obra, a atenção aqui será para Terra e Liberdade, para muitos o filme de Loach que melhor conjuga ideias políticas e enlevo estético.

Terra e Liberdade é de 1995, pouco tempo depois, portanto, da queda do regime soviético e do chamado “socialismo real”. Contextualizá-lo é importante porque se trata de um filme engajado à esquerda, num momento de afirmação e de otimismo neoliberal à direita. Nesse contexto ideológico, digamos, desfavorável, a película de Loach foi bem recebida pela crítica e pelo público, por isso sendo cultuada. Passadas duas décadas, o rumo dos acontecimentos pôs em cheque expectativas daqueles anos: ideias e práticas à esquerda, portanto socialistas, não foram varridas da face da terra; ideias e práticas à direita usam o liberalismo conforme as conveniências e revelam posturas intransigentes no jogo democrático. Com a ação nos anos de 1930, realizado na década de 1990, Terra e Liberdade é o tipo de filme com conotações que dependem do contexto em que se vive.

Assim sendo, seria enganoso propor uma leitura de suas imagens com os mesmos elementos de que dispunham os que o viram quando lançado. Isso porque é um filme com mensagem simultaneamente simples e de difícil apreensão. Com viés naturalista e apelo emocional, os filmes de Loach visam ao grande público. Suas narrativas fílmicas comovem qualquer espectador que espere ver no cinema cuidado com a iluminação, precisa caracterização de época, belas locações, adequação de figurinos e dramas individuais que despertem paixões. Loach joga com sentimentos e espera que o espectador se sensibilize com o que vê projetado na tela. Terra e Liberdade não foge a esse propósito. Assim, mesmo para quem mal saiba o que foi a guerra civil espanhola, a situação vivida pelos personagens traz um conteúdo humanizador com o fito de emocioná-lo.

A simplicidade do filme, então, está na maneira como Loach faz com que o drama individual se destaque do contexto de disputas políticas demasiado complexo. Tendo ao fundo referências distantes de George Orwell em seu relato Homenagem a Catalunha, Loach põe em cena um jovem idealista inglês do Partido Comunista, desempregado, que decide ingressar nas Brigadas Internacionais e combater na Espanha ao lado dos republicanos.

Narrado em flashback, a partir de correspondência encontrada por sua neta quando havia morrido, a história mostra o jovem que larga a vida comezinha em Liverpool e se defronta com a realidade do campo de batalha. Nele, o ambiente com os companheiros (camaradas) de front, o enfrentamento do inimigo, as picuinhas pessoais, os amores: enfim, tudo que dá sentido folhetinesco e atiça a curiosidade para os eventos mundanos. Visto sob esse aspecto, tem-se o relato da experiência de um indivíduo diante das adversidades da guerra. A incerteza do futuro, a sensação de impotência no enfrentamentodo imponderável, as pequenas alegrias e o absurdo da condição em que está. O jovem idealista, ao fim, com a derrota republicana, recolhe um punhado de terra do lugar onde lutou em defesa da liberdade.

Quem vir Terra e Liberdade assim há de se emocionar com o romantismo que levou jovens a abraçar uma causa e se lançarem numa aventura, movidos pela utopia revolucionária. Esses laivos românticos estão no filme: mas, do lado republicano, a guerra civil espanhola não apenas acolheu jovens idealistas. A contraparte também está no filme, e isso dá combustível a infindas polêmicas, tornando difícil sua apreensão. Sem conhecimento mínimo do que está em jogo, parece um panfleto edulcorado que opõe forças populares e oligarquias opressoras, ideais humanistas e bestialidade, liberdade e servilismo. A derrota do bem seria algo como uma senha que mantém vivo o ideal de luta. Loach sabe bem que as forças em disputa não se contrapunham dessa maneira. O quadro era muito complexo, e abordar essa complexidade tanto enriquece seu filme quanto gera controvérsias.

O que Loach procura mostrar é que as contradições entre os republicanos, na forma de se entender os encaminhamentos da guerra, indicam os resultados do desfecho que acabou acontecendo: a vitória dos nacionalistas comandados pelo generalíssimo Francisco Franco. Combater Franco apresenta-se como etapa do combate ao domínio e à extensão fascista na Europa; por isso, no contexto dos anos de 1930, a guerra civil espanhola é dotada de um fator internacionalista: stalinistas, trotskistas e anarquistas de diversas partes do mudo acorreram à Espanha para lutar contra o fascismo.

Mas essa mobilização internacional das esquerdas se dá num quadro de intestinas disputas internas a respeito da condução do processo revolucionário: stalinistas, trotskistas e anarquistas estavam longe de se alinhar, e o encontro entre eles literalmente no campo de batalha ocorre na Espanha. Um dos fatores mais controversos no desfecho da guerra é o exame do papel que estas frentes tiveram na evolução dos acontecimentos. Cada qual procurou assumir protagonismo contra o fascismo e assim lutavam entre si, cada lado vendo os outros como traidores do processo revolucionário. O jovem idealista inglês pertence ao Partido Comunista, de orientação stalinista: na Espanha, contudo, ele acaba por acaso numa unidade do POUM, partido de trabalhadores que segue a linha trotskista.

O herói de Loach é o jovem que na Espanha, no enfrentamento das contradições ideológicas, passa por um processo de conversão: stalinista, passa a aderir ao trotskismo. Loach, para quem vir Terra e Liberdade descolado do heroísmo romântico, toma posição na controvérsia e expõe uma crítica acerba à Realpolitik de Moscou. Ao fazê-lo, contudo – e isso lhe gerou críticas ácidas de historiadores – ele torna seu filme uma loa trotskista. Ora, o ponto em questão é: em 1995, com a derrocada do comunismo soviético, Loach realiza uma película e mostra que na guerra civil espanhola o caminho revolucionário era o seguido pelo POUM: entre os trotskistas, portanto, e não na via ditada por Moscou.

Essa perspectiva de interpretação fílmica dos acontecimentos históricos condiz com a própria concepção política de Loach. Bem entendido, ver Terra e Liberdade sem essa perspectiva carrega certa ingenuidade sobre o porquê dos impulsos românticos de um jovem que abandona a vida comezinha para, em outra terra, lutar pela liberdade do povo. Agora, bem entendido igualmente que Loach circunscreveu as ações do filme ao cotidiano daqueles que estavam no POUM. De modo que seu filme mostra um lado: portanto, uma perspectiva facciosa de uma situação demasiado complexa. Na polêmica com historiadores, à época do lançamento, a acusação de ter sido condescendente em relação a equívocos estratégicos cometidos pelo POUM. O próprio Trotsky, com o início da guerra, via como traição o caminho tomado pelo POUM.

Terra e Liberdade sustenta-se aqui: é um filme simples e de difícil apreensão. Em sua simplicidade, apaga-se o complexo embate ideológico que tem em mira e se oferece o retrato de um momento em que jovens foram impulsionados pelo desejo utópico de participar da revolução. Um aspecto elogiável nessa visada reside na maneira pela qual é captado o espírito de uma época. O fervor, o pathos revolucionário daqueles anos contagiou uma juventude que tinha nos acontecimentos um meio de, efetivamente, fazer a história.

Não obstante, o filme exibe e sugere mais do que pinceladas que caracterizariam o romantismo de uma época. A esse respeito, entendo se deva vê-lo com cuidado, para não se deixar levar por distorções ou manipulações oriundas da concepção política de Loach. Sua concepção, a se ponderar que o filme é uma obra de arte – portanto uma ficção –, pode e deve ser matizada: para mim, Terra e Liberdade é uma das obras primas de temática política produzida pelo cinema. Sua concepção política, contudo, pode viciar o olhar e suscitar a acusação de que ele é parcial na interpretação histórica. Com essa advertência, quer se chamar a atenção para um ponto preciso: um filme como este, se visto sem que se tenha no horizonte o que pensa seu realizador – assim como a maneira pela qual eventos históricos são recortados –, pode se revelar armadilha ideológica: político, o alvo de Loach foi o “socialismo real” que ruiu com a queda do regime soviético.

Passadas as controvérsias da época, esses vinte anos que nos separam de seu lançamento fortaleceram as convicções de Loach: o “socialismo real” morreu, mas não a utopia socialista, que se fortalece num mundo em que a intolerância fascista não é slogan esquerdista da década de 1930. Entrementes, isso acentua como a história é traiçoeira e caprichosa: um filme histórico de teor político não está nem estará imune a reavaliações e revisões de sua mensagem.




Humberto Pereira da Silva é professor de crítica de arte e ética na FAAP, crítico de cinema na Revista de Cinema, colunista do site Digestivo Cultural. Também autor de: "Ir ao Cinema: Um Olhar sobre Filmes" (Musa Editora); “Glauber Rocha: Cinema, Estética e Revolução” (Paco Editoral).