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Lula, O Filho do Brasil.











Marcelo Lyra

Lula, O Filho do Brasil, de Fábio Barreto. (Visto no "42º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro").

Não posso dizer que o filme que biografa a vida do presidente Lula foi uma decepção. Mas isso apenas porque não esperava nada de Fábio Barreto, diretor que já havia cometido coisas como "Bela Donna" e "Paixão de Jacobina". Talvez por esperar o desastre, encontrar um filme sem sal, anódino, quadrado, careta e mais formal que a narrativa clássica da TV, chegou a ser até uma coisa positiva. A relatividade tem dessas coisas.

O filme narra a vida de Lula do nascimento em Pernambuco até a morte de sua mãe, no final da década de 70. Não traz grandes novidades e tenta ser bem cronológico e didático. Mostra Lula como um homem bom, correto e inatacável. Pode até ser que ele seja, mas ficou com cara de biografia oficial. Nenhuma menção à Míriam, famosa amante que lhe deu uma filha (Lúriam), usada de forma vergonhosa na campanha de Fernando Collor; nenhuma menção à fundação do PT. Ok, falar do PT poderia politizar o filme. Mas então, o ideal seria citar só de passagem, sem aprofundar (como ocorre com quase tudo no filme). Falar de Lula e mostrar a época da fundação do PT sem citar o partido é como fazer uma biografia do Pelé sem citar o Santos Futebol Clube.

Mas Fábio Barreto não é dado a sutilezas. Tem mão pesada (ou mão ruim mesmo) para cinema. O Lula que levou às telas não erra um plural e só isso dá a dimensão da limpeza que emoldurou a biografia.

Tudo é muito didático, cronológico, rápido e escorregadio. Não há emoção. Emula-se o formato de "Dois Filhos de Francisco", mas vemos apenas uma sombra da qualidade do modelo. A cena em que morre a mãe de Lula (feita com o habitual talento por Glória Pires) evidencia a intenção de provocar lágrimas, mas o resultado é a indiferença. Lula sai da prisão, vai ao enterro, o caixão desce e ele vê flash-backs com os melhores momentos que viveram juntos... Misto de pieguice com breguice que nem a televisão usa mais, exceto talvez a mexicana.

O ator que faz Lula, Rui Ricardo Diaz é a melhor coisa do filme. Contido, tem algo do Lula original sem afetação. Tenta imitar-lhe a voz e não deve ter tido autoridade para avisar a produção que Lula erra quase todos os plurais, o que já se tornou marca registrada.

A música imita a dos dramalhões clássicos de Douglas Sirk. Não chega a ser ruim. É como se Barreto usasse um terno que foi de Douglas Sirk, mas não lhe serve. O pai bêbado de Lula é exagerado e caricato. O bom ator Millen Cortaz está exagerado e histriônico. Chega a babar como um animal selvagem. O horror, o horror.

Em resumo, é um filme mediano, que se assiste com indiferença. Duvido que faça o sucesso que esperam e vou me surpreender muito se passar da casa dos 500 mil espectadores. Ao final fica a sensação que a não existência preencheria uma lacuna.

P.S.: só para ficar claro, pois essa discussão filme-presidente pede posicionamento: votei em Lula nas duas vezes e, ainda que com ressalvas, ainda gosto do presidente pela segurança com que conduz a economia e a política internacional. Mas isso não influi na leitura do filme.



Marcelo Lyra é jornalista e crítico de cinema. Além de outras atividades e veículos para os quais escreve é, também, colaborador do Cinequanon.