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Menos reverência e mais leitura crítica.











Marcelo Lyra

O que mais me incomodou na recente entrevista do crítico francês Frodon (ex-Cahiers e Le Monde) feita por Ana Paula Sousa na “Folha de S. Paulo” é o evidente desconhecimento de causa com que o assoberbado crítico se põe a rotular nosso cinema. Falar de cinema brasileiro comentando apenas Walter Salles e Fernando Meirelles, sem citar Cláudio Assis e, mais ainda, Beto Brant (para mim atualmente os dois expoentes máximos do nosso audiovisual, completas traduções da cultura e cinematografia brasileira), é passar atestado não só de desconhecimento, mas de grande chutador. Nós críticos temos essa vaidade ego, alguns em maior grau, que nos faz sentar no pedestal e dar opiniões sobre tudo, quando perguntados. Falta autocrítica a muitos críticos. Quantas mil vezes já vimos críticos brasileiros falando que o cinema argentino é isso, o cinema argentino é aquilo. No entanto uma simples análise matemática nos coloca na lista de batedores de pênaltis que Frodon: o cinema argentino produz algo entre 50 a 60 filmes/ano. Quantos nós assistimos aqui em SP? Comercialmente uns quatro por ano se tanto. Na Mostra do Cakof (Mostra Internacional de Cinema de São Paulo) mais quantos? Sete, oito? Ok, existe a Mostra Latina do Memorial da América Latina, mas mesmo lá mal passam 15 ou 20 argentinos. Então, de que cinema argentino estamos falando??? Falar de um cinema do qual se conhece pouco, generalizando assim, é chutar e ponto.

Mas essas coisas são boas para que deixemos de lado essa medíocre reverência ao europeu e os olhemos com o discernimento crítico que qualquer texto merece. Tempos atrás, lendo "A Rampa", do Serge Daney, fiquei indignado com a mediocridade da análise de Daney do filme Tubarão, do Spielberg: uma visão turvada por uma ótica marxista adotada de forma xiita, que só conseguia ver nas imagens a mão do imperialismo, que só tinha olhos para o domínio americano, dando nota medíocre a uma bela obra cinematográfica. Nem uma palavra sobre o brilhante uso dos movimentos e do posicionamento da câmera, da montagem, do uso da trilha. Um texto vazio e datado, que segue reverenciado por pessoas que o leem, também com a visão turvada, desta vez pela reverência de um servilismo de colonizado. E pensar que a mesma revista havia descoberto Hitchcock décadas antes. Outros tempos, sem dúvida.

Minha leitura de Daney foi detonada por vários colegas. Em essência: "Como um crítico tupiniquim pode criticar o texto de um dos totens da crítica?" E eu não fiz nada mais do que ler o texto do Daney de forma crítica e não reverente, como meus críticos. Todos os críticos erram, do Frodon, e do Inácio ao Lyra. Que maravilha é rever um filme e conhecê-lo pela primeira vez.

A questão é que Frodon parece acostumado à fantasia de crítico sabe tudo, a ponto de não precisar mais se aprofundar nas cinematografias para conhecê-las. Ok, o cinema brasileiro está longe de ser o que esperamos. Fazemos muita, muita mesmo, coisa ruim em meio aos cerca de 70 filmes anuais. O modo de produção via Leis de Incentivo é um dos piores possíveis. Onde já se viu executivos de empresas decidirem que filmes devem ser produzidos? O resultado desse modo de produção é o triunfo da quantidade sobre a qualidade. No entanto, em meio a essa massa amorfa de filmes comerciais e sem talento, o cinema brasileiro ainda pulsa e a brasa que arde abaixo das cinzas, muitas vezes nem consegue salas para exibição. Basta acompanhar o boletim “Filme B” para constatarmos a dimensão da nossa tragédia: Cão Sem Dono, belo filme de Beto Brant, ou Amarelo Manga, de Cláudio Assis, mal chegam a 30 mil espectadores, enquanto a mediocridade de Mulher Invisível transborda a marca de dois milhões. Justamente aqui mora a tal "dependência cultural de Hollywood" de Frodon, e é nessa questão que as cabeças pensantes da cultura deveriam estar mergulhadas. Mas para chegar a essa constatação, é preciso conhecer minimamente o cinema brasileiro, o que nem é muito difícil para quem mora longe, diante das novidades de compartilhamento de arquivos oferecidas pela Internet. Mas talvez alguns não tenham se adaptado às novas tecnologias. É mais fácil chutar uma opinião do que acompanhar cinematografias baixando filmes pela Internet.


FOTO 1: Marcelo Lyra
FOTO 2: Jean-Michel Frodon
FOTO 3: Tubarão, de Steven Spielberg.


Marcelo Lyra é jornalista e crítico de cinema. Além de outras atividades e veículos para os quais escreve é, também, colaborador do Cinequanon.