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Estado de Sítio






















Cinema, Um Ato Político


"Estado de Sítio"                                               (publicado: 04/2016)


Por Humberto Pereira da Silva

O cineasta grego Costa Gavras, naturalizado francês, notabilizou-se entre o final da década de 1960 e início da de 1980 pelo empenho na realização de filmes de temática política. Sob esse aspecto, importante ressaltar que Gavras tem em vista a polarização ideológica nos anos de guerra fria, propondo um cinema que se inclina à esquerda no espectro político. Mais que isso, ele pincela casos reais marcantes, de grande repercussão na imprensa e nas esferas de poder, e dá sua versão fílmica do ocorrido. Seu cinema de teor político, portanto, joga luz sobre acontecimentos marcados por comoção pública e forte impulso à espetacularização. É o que se vê em filmes emblemáticos como Z (1968), Estado de Sítio (1972) e Desaparecido: Um Grande Mistério (1982).

Nesses filmes, a mesma configuração estrutural narrativa: forças repressoras à margem do poder constituído estão em confronto obscuro com inimigos ideológicos. No confronto, o suposto de que na clandestinidade, nos porões, se pudesse aniquilar a ameaça comunista que se espalhava na periferia do capitalismo. Em Z, um político que lidera a oposição esquerdista na Grécia, durante a crise que antecede ao golpe militar dos coronéis em 1967, é morto num acidente cujas investigações acabam por revelar ter sido um atentado. Em Estado de Sítio o foco é o Uruguai, onde o grupo de guerrilha urbana de esquerda, os Tupamaros, sequestra em 1970 um agente de inteligência americano que colaborava com diversas ditaduras latino-americanas, instruindo-as com métodos de tortura e assassinato. Em Desaparecido: Um Grande Mistério, Gavras põe em cena o caso de um jornalista americano no Chile que faz traduções para uma publicação de esquerda e que, com o golpe desfechado pelo general Augusto Pinochet em 1973, desaparece sem deixar rastros.

Com estrutura narrativa bem definida e previsível, nesses três filmes Gavras aborda as tensões políticas tendo em mente atingir o maior público possível. Nesse sentido, seu cinema político revela intenção explicitamente didática: não foge, portanto, do esquematismo básico de uma produção de apelo comercial. Ou seja, quanto ao tema de fundo, esses filmes são objetivos, diretos, sem rodeios, e em assim sendo, não oferecem dificuldades de linguagem para que o espectador, mesmo munido de informações históricas mínimas, possa acompanhar o fluxo das ações: por conseguinte, a mensagem política a ser transmitida.

Um dado importante a ser destacado no cinema político de Gavras é sua disposição para exibir cenas da esfera do poder numa situação internacionalista. Z, filmado na Argélia, trata de um momento da crise política grega; Estado de Sítio, filmado no Chile de Salvador Allende, lança o olhar para as tensões no Uruguai, em que se alternavam naquele período governos civis frágeis e ditaduras militares; Desaparecido: Um Grande Mistério, filmado no México, retrata o Chile sob o general Pinochet. Nisso, nessas escolhas de locações, um tanto de óbices reais para realizar as filmagens in loco (considerado o contexto político, irrealizáveis na Grécia, no Uruguai e no Chile) mas, também, muito do sentido de urgência para a realização de um filme no calor da hora. O sentido de urgência traduz a inquietude de um momento para o qual o cinema torna-se efetivamente, por meio da ficção, fotografia política documental de época. Das três obras referidas, contudo, atenhamo-nos especificamente a Estado de Sítio.

Roteirizado pelo próprio Costa Gavras, a partir de livro do escritor italiano Franco Solinas, baseia-se no sequestro do agente americano Dan Mitrone e do cônsul brasileiro Aloysio Gomide pelos Tupamaros, em 1970, no Uruguai. Antes de ir para o Uruguai, Mitrone havia colaborado com a polícia brasileira nos primeiros anos do regime militar. Entrementes, diante da situação política tensa no Uruguai no começo daquela década – mesmo não sendo governado por um regime ditatorial como no Brasil, havia intensa atividade do grupo armado Tupamaro e a possibilidade de uma frente de esquerda chegar ao poder pela via eleitoral–, Mitrone foi deslocado para lá com o objetivo de ensinar métodos de tortura. Discreto e aparentemente um cidadão acima de qualquer suspeita, as atividades secretas de Mitrone, não obstante, não passaram despercebidas aos Tupamaros. Sequestrado, com ele a guerrilha exigiu a troca de 150 presos políticos. Ocorre que o governo uruguaio, com apoio do governo americano nos bastidores, recusou a troca e Mitrone foi morto.

Ao levar o trágico desfecho do caso Mitrone para as telas, Costa Gavras não manteve os nomes reais dos envolvidos: Dan Mitrone torna-se Philip Michael Santore. Essa opção, diante de eventos bem conhecidos naqueles anos, visa principalmente deslocar a importância de indivíduos – meros instrumentos num momento de disputa ideológica de extrema polarização – para a situação de contexto. O que ocorria no Uruguai (prática sistemática de tortura e assassinato de opositores levada a cabo por órgãos paralelos ao Estado, assim como o recurso ao sequestro por grupos armados de esquerda) era uma realidade que se estendia a toda América Latina cujos governos se afinavam aos interesses americanos. Nesse sentido, é digno de registro que o Uruguai seja mencionado no filme apenas de modo indireto: no foco dos acontecimentos, pela presença dos Tupamaros; e em situações isoladas, como quando o agente americano chega ao país (ao descer do avião, na lateral da escada deste vê-se o nome Montevideo).

Se o Uruguai, onde a ação se passa, não é mencionado diretamente em Estado de Sítio, a ditadura militar no Brasil a é em diversos diálogos, não só em razão do sequestro de seu cônsul. O que me parece oportuno realçar é que, antes de focar a ação num país determinado na América Latina, Gavras lembra ao espectador a lógica transnacional americana: combater o comunismo onde este pudesse vicejar, sob a influência da revolução cubana. Para a inteligência americana, no cenário da guerra fria as fronteiras na América Latina eram apenas uma fachada burocrática. Seguindo a logística anticomunista, seus agentes transitavam de um país a outro conforme as necessidades. O episódio no Uruguai se torna apropriado para representação fílmica em decorrência de seu desfecho trágico. Lembremos que um ano antes, no Brasil, o sequestro do embaixador americano Charles Elbrick, numa ação conjunta da Ação Libertadora Nacional e do MR-8, resultou no atendimento das reivindicações dos sequestradores. Não gerou, portanto, a comoção pública do caso Mitrone.

É justamente a partir da comoção gerada pelo episódio que Gavras concebeu um filme simultaneamente didático e direto. Assim, de modo esquemático, sem nuances, Estado de Sítio exibe tanto os métodos de ação dos Tupamaros quanto os das forças de repressão. Com isso, a situação do sequestrado que é interrogado no cativeiro e a reação das autoridades às reivindicações dos sequestradores, assim como a dos jornalistas que cobrem a evolução dos acontecimentos. Tendo como parâmetro essa configuração em que enlevam os dois lados em contenda, a trama é conduzida com uma tensão que prende o espectador até o fim, embora ele saiba desde o início o que ocorrerá (o filme é narrado em flashback: o corpo de Santore foi encontrado pela polícia nas primeiras cenas).

No movimento que opõe os dois lados, ao mesmo tempo e em tensão constante o filme humaniza os sequestradores tanto quanto desumaniza as forças de repressão e a inteligência americana na América Latina. Pois na trama, enquanto os militantes Tupamaros se esforçam para manter vivo o agente americano, o governo joga com a lógica de que seria uma demonstração de força submeter um homem ao sacrifício e assim não ceder à libertação dos presos políticos. A esse respeito, à medida que toma uma posição explícita (favorável aos métodos da guerrilha), o filme revela um diretor livre e autônomo para tratar do tema conforme conviesse à sua consciência e convicções políticas. Mas revela igualmente o olhar, distante, de um cineasta europeu de esquerda para o complexo quadro político da América Latina naqueles anos de ditaduras sanguinárias.

Concebido como forma de denúncia política, Estado de Sítio é um emblema para se apreender a realidade daqueles anos na América Latina. Mesmo que, com o distanciamento do olhar, Gavras acabe por camuflar a complexidade de uma situação na qual, entre o branco e o preto, há matizes de cinza: militares sempre fardados e militantes de esquerda barbudos aguçam o exótico. Ou seja, certo imaginário latino-americano vis-à-vis do olhar estrangeiro. De qualquer forma, película expressiva do cinema político, Estado de Sítio serve ainda como alerta para refletirmos o momento atual. Num clima político diverso do da década de 1970, hoje não se pode afirmar que em países como Argentina, Venezuela, Paraguai, Brasil, etc. se tenha superado o embate que apõe as sociedades latino-americanas pela lógica que opõe capitalismo versus comunismo. Só em razão de na América Latina esse fantasma da divisão da sociedade manter-se, com inevitáveis tragédias anunciadas, vale ver, rever e discutir o olhar europeu de Costa Gavras.




Humberto Pereira da Silva é professor de crítica de arte e ética na FAAP, crítico de cinema na Revista de Cinema, colunista do site Digestivo Cultural e autor de "Ir ao cinema: um olhar sobre filmes" (Musa Editora).