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Um dia de fúria: Joel Schumacher pode agradar



















Gabriel Carneiro.

Joel Schumacher é um diretor que ninguém leva a sério. Já virou sinônimo até de picaretagem. Claro que o cineasta realizou bastantes filmes medíocres ou ruins 9alguém se esqueceu dos Batmans?), mas sua filmografia traz obras interessantes (“Por um Fio”, “Tempo de Matar”, “Ninguém é Perfeito”, etc.) e, pelo menos, uma pequena pérola: Um dia de fúria.

O longa-metragem de 1993 trata das dificuldades de um homem que não encontra seu espaço no período pós-Guerra Fria. Bill Foster já tem seus 40 anos, está desempregado, a esposa o largou e conseguiu uma medida cautelar contra ele. Sua nova vida é caótica, sem rumo. Bill trabalhava numa empresa típica da Guerra Fria, de armamento, construindo mísseis, contra os comunistas. Seu emprego desapareceu, ninguém precisava mais dele – e assim, aquilo que fizera na vida inteira perdeu a importância. Schumacher desenha muito bem esse personagem interpretado por Michael Douglas. Num momento do dia, pelo tamanho caos de sua vida e do trânsito, ele surta. Cria-se assim um monstro urbano. O que o cineasta faz de bacana ao compor Bill Foster para sua história é não cair no maquiavelismo e nem renegá-lo a uma tendência atual, a de humanizar demais o vilão a ponto de deixar de ser culpado pelos seus atos.

Foster, quando entra numa espécie de psicose, tem sua história; entendemos sua miserabilidade – há esse fundo social -, mas há sempre o personagem do policial (Robert Duvall) jogando a crença de impunidade desse sujeito para baixo. Assim como pensa Foster, Joel Schumacher também parece crer nas variações do "american way of life" – a família suburbana, consumista e disciplinada. Tal pensamento faz com que Foster, vítima da sociedade, seja sim vítima e seja também culpado – é um homem que não agüentou e sucumbiu a uma psicose anterior, naquele dia, como poderia ocorrer com outros, com ou sem tendência a violência.

O ritmo do longa é perpetrado pelo caminho seguido por Foster. Ao passo que o lado cômico fica visível – seu personagem tem noção clara da realidade, porém ao exagerar nas reações, a ponto de torná-las violentas, quebra-se com o paradigma do previsível -, o suspense aumenta. Tudo que o Foster quer é rever a família, especialmente por ser aniversário da filha. Embrenhamos então num filme policial, que traz em tipos, cernes do pensamento americano – a criança esperta, o idiota à espera do telefone, o imigrante que fala mal a língua do país, as gangues hispânicas -, com bastante humor, que pode até ser involuntário. Isso deve muito ao desejo reprimido dos espectadores de reagirem da mesma forma que Bill, mas que, pelas convenções da sociedade, não o fazem.

Em Um Dia de Fúria, há duas histórias paralelas que se cruzarão. A do tira que está em seu último dia antes da aposentadoria, incrédulo em si próprio, e a de Bill. Eventualmente se cruzarão e de fato veremos um filme policial, com direito aos mais baixos mecanismos de cooptação do espectador para escolher um lado – uma artimanha válida, por que não? O curioso é a densidade de Bill Foster, numa excelente atuação de Douglas: ao encontrar um homem de tendências nazistas, rebela-se e incorpora quase um fascista corporativista. Sua vida perde a importância, pois está completamente perdido entre sinais luminosos, som de britadeira, mosquitos, e pessoas folgadas.

Joel Schumacher pode até não ser um inovador na estética fílmica. Suas películas trazem uma estrutura tradicional em Hollywood, mas sabe muito bem manipular os possíveis sentimentos do espectador, e jogar com eles, com uma história envolvente. O que mais interessa no cinema do diretor é como vislumbra seus personagens, na égide da tensão. São personagens que usam o estereótipo, mas não o são. Em Um Dia de Fúria, Bill Foster pode ser um homem angustiado e derrotado, ou apenas um sujeito que surtou e saiu surrando a cidade com um taco de beisebol e uma sacola de armas – ambas as leituras garantem o interesse.


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FILMOGRAFIA

- The Virginia Hill story (TV) (1974)
- Amateur night at the Dixie Bar and Grill (TV) (1979)
- The Incredible Shrinking Woman (A incrível mulher que encolheu) (1981)
- D.C. Cab (também como Street Fleet) (1983)
- St. Elmo's Fire (O primeiro ano do resto de nossas vidas) (1985)
- The Lost Boys (Os garotos perdidos) (1987)
- Cousins (Um toque de infidelidade) (1989)
- Flatliners (Linha mortal) (1990)
- Dying Young (Tudo por amor) (1991)
- Falling Down (Um dia de fúria) (1993)
- The Client (O cliente) (1994)
- Batman Forever (Batman Eternamente) (1995)
- A Time to Kill (Tempo de matar) (1996)
- Batman and Robin (1997)
- 8mm (8 milímetros) (1999)
- Flawless (Ninguém é perfeito) (1999)
- Tigerland (A caminho da guerra) (2000)
- Bad Company (Em má companhia) (2002)
- Phone Booth (Por um fio) (2002)
- Veronica Guerin (O custo da coragem) (2003)
- Andrew Lloyd Webber's The Phantom of the Opera (O fantasma da ópera) (2004)
- The Number 23 (O Número 23) (2007)


Gabriel Carneiro é editor da Revista Zingu, e colaborador titular do Cinequanon.