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O fantástico em Arraste-me para o Inferno e em O Nevoeiro

















Gabriel Carneiro

Ao que me parece, o cinemão americano de horror tem se dividido, majoritariamente, entre duas vertentes: os chamados ‘torture porn’, em que nudez, tortura, mutilação, e sangue, são os chamarizes do filme (por exemplo, as séries “Jogos Mortais” e “O Albergue”); e as refilmagens, sejam dos clássicos ‘slashers’ americanos (“Sexta-Feira 13”, “Haloween – O Início”), de produções asiáticas (“O Chamado”, “O Grito”), ou mesmo européias (“Quarentena”, e em breve, uma de “O Orfanato”). Talvez, uma possível falta de criatividade acometa o cinema hollywoodiano de horror, já que, se não vive de continuações, vive de refilmagens. Parece faltar oxigênio, e a criação torna-se escassa em qualidade – claro, há exceções, sempre. Os chamados ‘torture porn’, quando começaram, com o “Jogos Mortais”, entre outros, mantinha o interesse. O primeiro filme da série de Jigsaw é impressionante, cujas novidades eram recebidas de braços abertos. O que veio depois é um festival de repetições extremadas de violência e de sadismo, em que o horror é caracterizado por um psicopata que gosta de torturar. As refilmagens, então, são uma maneira rasteira de ganhar dinheiro, sem preocupação alguma em inovar.

O que me parece mais preocupante é como tais filmes abusam de um realismo na realização. O caráter fantástico, de fantasia, das produções de horror, quase não existe mais. Há um abuso para que o que é mostrado nas telas seja real – mesmo que a história em si já acuse a “irrealidade”. Os ‘torture porn’ e os ‘slashers’ se vinculam ao horror da vida real, aos psicopatas, torturadores, assassinos, e afins. Os filmes que trazem um quê de fantasia, notadamente as produções asiáticas (e algumas européias), ao serem travestidos pelo sistema americano de fazer cinema, ganham um punhado de maquiagem, de efeitos visuais, tentando aproximar ao máximo o que é apresentado na tela, ao que temos como noção de realismo. Talvez seja uma forma de dizer ao público que o horror existe no mundo real, por isso, essa aproximação. Mas há também a questão do supra-sumo da tecnologia: por que fazer algo que aparente ser criado para o cinema, algo ilusório? Quer se vender o máximo da ilusão, de tal maneira que a fórmula seja: ilusão = real.

Por isso duas produções dos últimos anos parecem se destacar nesse cenário: O Nevoeiro, de Frank Darabont (“The Mist”, 2007) e o recém-chegado aos cinemas brasileiros, Arraste-me para o Inferno, de Sam Raimi (“Drag me to hell”, 2009) – e em menor escala, “O Abismo do Medo”, de Neil Marshall (“The Descent”, 2006). São produções que não tem medo de assumir o caráter ‘fake’ na exploração de seus seres aterradores, de assumir a fantasia por trás disso tudo. Em O Nevoeiro, Darabont cria monstros gigantes que se escondem no nevoeiro do título para atacar os seres que conhecemos, e para evitarem a morte, um grupo se fecha dentro de um supermercado. Os monstros gigantes são propositadamente feitos de modo a parecerem falsos, toscos, pode-se dizer, cuja ameaça vem da imaginação, da ilusão. Em .Arraste-me para o Inferno, Raimi cria uma fábula cigana para despejar cenas grotescas e escatológicas que envolvam babas, gosmas, insetos e uma maquiagem putrefata – tudo isso para narrar a história de uma jovem ambiciosa que é amaldiçoada por uma velha cigana, a ser atormentada e arrastada ao inferno pela mão de Lâmia. São histórias conectadas ao mundo ‘real’, mas cujo cerne fantástico não deixa nunca de estar presente, inclusive nas aparências. Talvez por isso, sejam as melhores produções de horror que surgiram nos últimos anos do cinemão americano.

O Nevoeiro é talvez o que melhor conceba o caráter do fantástico para outros fins. Enquanto desviamos nossos olhos para os monstros por trás da névoa, animais gigantes, mutantes, que visam apenas o caos e a destruição dos humanos, um outro perigo, muito mais palpável e humano, começa a se formar: o extremismo religioso surgido em situações adversas – até que ponto um ser humano é capaz de se sacrificar e sacrificar aos outros por uma crença? Independente da religião, o fundamentalismo que se pretende no filme é demonstrar o horror de tais práticas quando se perde o controle sobre sua fé, a ponto de ser preferível enfrentar os monstros à unanimidade (já dizia o grande Nelson Rodrigues: “Toda unanimidade é burra. Quem pensa com a unanimidade não precisa pensar”). Nisso, a fantasia reina, tal qual em uma parábola. Insetos gigantes, aranhas que olham pavorosamente, tudo feito com requinte gráfico dos anos 80, em que o mais interessante é brincar com o espectador.

No último longa-metragem de Raimi, isso é radicalizado. Tudo pela diversão, pelo susto, pelo desprezo do espectador em relação à imagem do grotesco. Ao contrário do que ocorre em O Nevoeiro, nada é tosco, não tem um quê de “retrô”, por mais que a fotografia escura e granulada remeta aos anos que consagraram o cineasta como mestre do horror. Há muitos efeitos visuais, muito “CGI”, fugindo do artesanal recorrente dos anos 80 (em especial, no já histórico “Evil Dead – A Morte do Demônio”), porém o filme não se prende a um falso realismo, não se quer crer como algo que de fato poderia ocorrer em nosso mundo (meta)físico. Quando vemos a velha cigana, com seu rosto cerrado, cheio de problemas (os dentes podres da dentadura, o olho de vidro, as verrugas, as bochechas frouxas), temos a imagem da bruxa dos contos de fadas, e não a de uma simples idosa. Isso é retificado nas cenas posteriores: a baba verde que escorre da sua boca, o quilo de vermes que ela vomita, a força sobre-humana, as unhas sujas e rotas – todas características que reforçam a verve do escatológico e do grotesco presente no filme.

Tanto O Nevoeiro quanto Arraste-me para o Inferno superam outros filmes do gênero por povoarem o imaginário das pessoas sem ligar para um visual caprichado, fundamentado em noções do que de fato existe. São filmes que bebem na fonte dos grandes mestres dos efeitos visuais, como Ray Harryhausen, criador de obras como “A Vinte Milhões de Milhas da Terra”, “Jasão e os Argonautas” e “Fúria de Titãs”, que se furtam a um mundo de seres irreais, fantásticos, e que possuem plena noção da ficção. Um tipo de apelo que falta a filmes como “Jogos Mortais”, “Premonição”, “Dia dos Namorados Macabro”, “Uma Chamada Perdida”, “O Grito”, entre tantos outros, que exploram o máximo da nova tecnologia, como efeitos visuais, sonoros e maquiagem, para camuflar eventuais problemas de história e/ou de roteiro. Convenhamos: de que vale um filme de terror que não entretenha e não assuste? Ainda mais sem buscar no horror a poesia do medo.

A questão, penso ser, é que o sopro de ar que há em O Nevoeiro e Arraste-me para o Inferno (e também de “O Abismo do Medo”, “Extermínio” -1 e 2 -, e alguns outros poucos filmes) deriva muito da falta de crença no gênero: na de que o fantástico só existe enquanto recriação e metáfora da realidade, e não como algo mais, que existe independentemente disso e que sustenta como algo único.



Gabriel Carneiro é editor da Revista Zingu! e o mais novo colaborador do Cinequanon.