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Cinema, Um Ato Político: "Shoah, de Claude Lanzmann"




















Cinema, Um Ato Político


"Shoah, de Claude Lanzmann"                   (publicado: 02/2016)


Por Humberto Pereira da Silva

A arte cinematográfica, em qualquer nível e pretensão implícita ou explícita, joga com elementos de propaganda. De sorte, que com sua mensagem o cinema tem em mira atingir determinado público que a acolha ou não em razão de seu conteúdo. Com isso, inevitável, toda película carrega conteúdo ideológico com risco maniqueísta de discernimento cirúrgico entre o bem e o mal, o certo e o errado. A se observar, portanto, que a mensagem numa obra fílmica é inseparável de julgamento político e moral: não há imagem que não guarde parcialidade com respeito a valores assumidos previamente. Daí, que o filme mais ingênuo ou despretensioso possível exiba certa visão de mundo e, por conseguinte, se apresente como peça pedagógica formadora de mentalidade.

Passados mais de setenta anos, gerações e gerações foram formadas tendo em mente o que viram sobre a II Guerra Mundial – especificamente sobre o holocausto – a partir de imagens de filmes ficcionais ou documentais. Para o professor de história atento e zeloso, fica a tarefa de distinguir análise histórica (o campo de decisões de poder e suas consequências) da construção de sentido segundo regras de montagem cinematográfica. De uma perspectiva ingênua, ver um filme pode não ir além do acolhimento ou não da mensagem. E quando se trata do holocausto do povo judeu – obra de engenharia nazista durante a II Guerra Mundial com a adoção da Solução Final –, na mensagem, o pressuposto da separação entre o bem e o mal. Contudo, sendo este o caso, a separação cirúrgica entre o bem e o mal camufla o que, nas palavras da filósofa judia Hannah Arendt, seria a “banalidade do mal”, em seu controverso livro Eichmann em Jerusalém (1963).

Ora, em seu exame do julgamento do criminoso nazista Adolf Eichmann, Arendt põe em pauta as causas do mal: o que teria levado a cúpula nazista a se decidir pela eliminação total dos judeus? E, ainda, como reagiram aqueles que ficaram encarregados desta tarefa? Para Arendt, a questão que se põe é a da origem do mal. Nessa interrogação, o esforço para responder sobre os efeitos da Solução Final. Na resposta que ela dá – polêmica – não há propriamente o mal nas ações do carrasco nazista, mas a engenharia burocrática que lida com a situação de modo impessoal, protocolar: o cumprimento de ordens nos conformes de uma racionalidade preestabelecida (o mal é a negação da razão; por isso, irracional). Nisso, para ela, nada diferente de qualquer aparato burocrático que abstrai o humano, e com isso despe-se o sentido de maldade em proveito da eficiência no cumprimento do dever.

Trata-se de um desafio exibir uma situação no cinema que pusesse em pauta a tese polêmica de Arendt. Arte propagandista por excelência, praticamente toda produção fílmica sobre o antissemitismo nazista traz explícita a projeção do mal: desconsiderando, pois, sua origem e a estrutura logística burocrática na qual se assenta. Considerado o desafio de mostrar por meio de imagens cinematográficas uma tese filosófica, se Shoah (1985), de Claude Lanzmann, não reflete intenção explícita de aludir à “banalidade do mal” sustentada por Arendt, não é menos verdade que esta talvez seja a obra fílmica mais próxima desse intento.

Filmado entre 1973 e 1985, Shoah (palavra hebraica que significa holocausto: ou, mais precisamente, aniquilação) é um documentário com mais de nove horas de duração que se pode ver de diversas maneiras. A mais convencional é ficar postado de modo contínuo diante da tela durante toda a projeção. Sendo esta a opção, vale alertar para quem está habituado a ver um documentário de tema histórico com imagens de arquivo, que Lanzmann concebeu este filme exclusivamente com imagens presentes dos locais de extermínio e depoimentos de envolvidos: sobreviventes de campos de concentração, estudiosos do tema, integrantes da resistência judaica no Gueto de Varsóvia, habitantes de pequenas cidades polonesas que presenciaram o movimento de trens conduzindo judeus às câmaras de gás, ex-oficiais da “SS” (organização paramilitar comandada por Heinrich Himmler), e soldados alemães participantes ativos nas ações da Solução Final.

Da maneira como foi concebido, Lanzmann não estabeleceu qualquer critério cronológico, tanto para as entrevistas realizadas quanto para os relatos descritos. Nos doze anos em que o filme foi feito não há informação sobre quando os relatos foram colhidos, como tampouco estes evocam explicitamente eventos que remetam a episódios da guerra. Numa ilha grega do mar Egeu, Corfou, o depoimento do presidente da comunidade judia não traz informações históricas sobre o papel da Grécia no cenário da guerra (Corfou foi ocupada pelo regime fascista de Mussolini). Vale realçar: os entrevistados por Lanzmann aparecem e eventualmente retornam em suas falas sem que estas necessariamente se articulem, sejam continuação ou completem o raciocínio anterior.

Com isso, assistir a Shoah em fluxo contínuo, e tentar compreender os inúmeros depoimentos, pode constituir uma experiência cansativa e frustrante. Lanzmann, de fato, conduz as conversas de modo espontâneo, coloquial, como se não houvesse um script antecipando as filmagens. Seus interlocutores, então, falam como se houvessem sido abordados naquele exato instante. O que se vê com isso são conversas que oscilam entre a prosa cotidiana, descrições, ora elaboradas, ora confusas, e explosões de apelo emocional. Por isso, grande parte dos depoimentos acaba sendo truncado, impreciso, vago, envolto em atmosfera paradoxalmente serena e emocional. Seguir a ordem alternada das imagens numa projeção contínua implica no risco de perder de vista lugares das locações (Chelmmo, Solibór, Warsaw, Treblinka, Auschwitz, Theresienstadt, Ruhrgebiet, Belzec, Vilna, Corfou, Gueto de Varsóvia...), tanto quanto a posição social dos depoentes nos episódios narrados.

Uma maneira de escapar à dispersividade em consequência da alternância de depoimentos na montagem é ver o filme com foco em temas e questões pontuais. Como se comportaram os “judeus de trabalho”, que desenterravam os cadáveres de seus consanguíneos e os queimavam em imensas pilhas? O que diz o historiador judeu Raul Hilberg, especialista no holocausto dos judeus durante a II Guerra? Como os trabalhadores poloneses na estrada de ferro em Treblinka se expressam? Qual o sentido no relato de ex-oficiais nazistas, como o de Franz Suchomel, da “SS”, que depois da guerra foi condenado pela cumplicidade na morte de mais de trezentas mil pessoas em Treblinka? E se tomarmos Shoah a partir desta última interrogação é justamente oportuno confrontá-la com a tese sobre a banalidade do mal asseverada por Hannah Arendt.

A conversa com Suchomel, intercalada pela fala de outros entrevistados, na soma totaliza 45 minutos. Na projeção de um filme, tempo suficiente para que se tenha do entrevistado mais que clichês, flashes do que poderia dizer. Conquanto suas respostas sejam lacunares, Lanzmann realmente explora todos os detalhes que Suchomel pudesse dar acerca do morticínio em Treblinka. Ele procura descrever – inclusive apoiado pela planta baixa do campo de concentração – a movimentação de judeus deportados para Treblinka, desde o horário de chegada, até a morte com um tiro na nuca num local chamado desfiladeiro. Certo, mas falamos de cinema, de imagens: cabe aqui tratar do modo como o filme é visto pelo espectador; e assim oferecer reflexão sobre a banalidade do mal.

Um dado importante é que a conversa com Suchomel foi filmada às escondidas: ele não sabia que estava sendo filmado. No local da entrevista foram instalados secretamente os instrumentos para as filmagens, que eram recebidas por uma equipe num estúdio de gravação. O espectador vê alternadamente imagens do estúdio e de Suchomel. As imagens do rosto do ex-oficial da SS, em preto e branco, são chuviscadas, tremidas, enfim, de má qualidade, mas suficientemente nítidas para perceber suas expressões faciais, seus gestos, seus esgares às inquirições feitas por Lanzmann. Aliás, para garantir que ele não tergiversaria, Lanzmann lhe garantiu que seu nome sequer seria mencionado, o que evidentemente não foi respeitado.

Bem, mas o que se pode ver nos esgares e na fala de Suchomel – tanto quanto depreender do julgamento de Eichmann estudado por Hannah Arendt – é tão somente a figura de um burocrata. Suchomel cumpria ordens numa estrutura na qual não lhe cabia questionar, mas apenas aferir a eficiência, os resultados: com isso em mente, não há nele qualquer trejeito que sugira sentimento de culpa, de comiseração, tampouco de ódio aos judeus. Nas respostas que dá a Lanzmann vê-se um homem que revela o quão de eficiência houve na logística de Treblinka. Ou seja: tanto quanto Eichmann, Suchomel tinha diante de si uma engrenagem na qual lhe era instado manter o movimento.

Focalizar Shoah pelo relato de um ex-oficial nazista, no entanto, é uma maneira de escapar à dispersão de informações num filme de duração pouco convencional. Assim como, supõe-se, é uma maneira de apreender como o cinema ao mesmo tempo joga com elementos de propaganda e exibe situações que nos levam a refletir sobre a separação maniqueísta entre o bem e o mal. A tese de Arendt, obviamente questionável, pode ser posta de lado por quem vir em Suchomel a encarnação do nazismo: portanto, a essência do mal. Ocorre, que assim talvez se perca um viés de compreensão num evento catastrófico como o holocausto: o que impulsiona uma pessoa a agir com a convicção de dever a ser cumprido tem na demonização propagandística apenas a caricatura – por óbvio que seja, fosse outro o resultado da guerra, a fala de Suchomel sobre a eficiência nazista no extermínio de judeus seria a mesma.

A organicidade do filme está em contrapor a entrevista de Suchomel a todas as outras: Shoah é um imenso painel; a ser visto, pois, das mais diversas perspectivas; nisso o êxito da colossal empreitada de Lanzmann. O foco no depoimento de um ex-oficial da “SS” foi para mostrar que imagens chuviscadas, tremidas, instigam a reflexão acerca da banalidade do mal; propicia um viés interpretativo diverso do de quem enxerga na Solução Final o mal em estado bruto.




Humberto Pereira da Silva é professor de crítica de arte e ética na FAAP, crítico de cinema na Revista de Cinema, colunista do site Digestivo Cultural e autor de "Ir ao cinema: um olhar sobre filmes" (Musa Editora).