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Cinema, Um Ato Político – “La Hora de los Hornos”






















Cinema, Um Ato Político


“La Hora de los Hornos”                                (publicado: 09/2015)


Por Humberto Pereira da Silva

La Hora de los Hornos é para muitos o mais importante e representativo filme político argentino de todos os tempos. Realizado pelo “Grupo de Cine Liberación” entre 1966 e 1968, e dirigido pelos cineastas Fernando Solanas e Octavio Getino, é um “filme-ensaio” com mais de quatro horas de duração, dividido em três partes: “Neocolonialismo e Violência”; “Atos Para a Libertação”, que por sua vez está dividida em dois momentos, “Crônica do Peronismo (1945-1955)” e “Crônica da Resistência (1955-1966)”; e finalmente a terceira parte, “Violência e libertação”.

O tema norteador da película é a condição de exploração e subserviência dos povos latinos americanos ao imperialismo neocolonial, com ênfase na realidade social, histórica, política e cultural argentina: por conseguinte, a necessidade de resistência às forças opressoras por meio da violência revolucionária. Sob a etiqueta “filme político”, isso implica considerar que se trata de uma obra com orientação ideológica marcada; o que acarreta vê-la como instrumento de propaganda; portanto, meio para um fim – no caso, despertar a consciência de que a realidade latino-americana opõe opressores e oprimidos e, assim, comover com imagens que instiguem a libertação dos povos oprimidos por meio da rebelião revolucionária.

Para exibir a condição de exploração e subserviência dos povos latino-americanos ao imperialismo neocolonial (apenas Cuba alcançara a libertação, conforme se explicita na narrativa), Solanas e Getino optaram pela forma “filme-ensaio”. Eles reuniram, então, grande quantidade de imagens com material de arquivo. Nessas imagens, cenas de repressão policial, de paradas militares, de violência física e psicológica com pessoas submetidas à condição de miséria num cotidiano degradante, promíscuo, carente do suporte mínimo de higiene e sob o permanente regime de fome.

À medida que as imagens são exibidas, uma voz em off descreve quadro desolador, com dados que informam por tabelas estatísticas sobre o profundo grau de exploração a que as potências opressoras submeteram os povos latino-americanos.E na descrição desse quadro a justificativa: ele resulta de um longo processo histórico cuja origem é o conluio entre segmentos de elites que se estabeleceram na Argentina, e na América Latina como um todo, e os interesses das potencias imperialistas, inicialmente Espanha e Portugal, depois a Inglaterra, e finalmente os Estados Unidos.

Em contraponto à miséria do povo, numa alternância sincopada, Solanas e Getino exibem flashes de monumentos históricos e bairros nobres de Buenos Aires. Nesses flashes são expostas as futilidades e frivolidades de uma elite segregadora, por isso absorta, completamente alheia ao que se passa ao redor. Descolada do povo, a elite argentina – e por extensão da América Latina – se afirma tendo por modelo o comportamento das elites europeias ou o obtuso consumismo americanizado. A forma sincopada com que se exibem miséria e ostentação afetada faz do ensaio fílmico La Hora de los Hornos um panfleto com viés explicitamente didático.

Isso, porque o ritmo na exibição da contraposição miséria e opulência traz à tona a percepção – em consequência, o sentido de aprendizagem – de que certa realidade vivida e evidente em si mesma, mas envolta em névoas, está sendo desnudada de forma chocante, desagradável. Ou seja: há poucos privilegiados que vivem bem, muito bem, graças à perseveração de um sistema de exploração que mantém muitos em condições sub-humanas. De sorte que a película de Solanas e Getino, então, dado o quadro exibido, não visa senão instigar a sublevação e libertação dos povos oprimidos.

Instrumento de propaganda a favor de uma causa, não resta dúvida de que uma obra assim concebida deva se haver com questões espinhosas, debates, polêmicas para toda sorte de gosto. Uma primeira questão refere-se à datação: seus eventuais efeitos seriam sentidos no calor da hora, para jogar casualmente com um trocadilho (no momento em que La Hora de los Hornos foi realizado, os conturbados anos de 1960, a Argentina vivia um de seus ciclos de ditadura militar). Hoje, em outra conjuntura histórica, teria quem sabe interesse arqueológico: com a película, escavar certo recorte preservado de um momento, com o sentimento de que este sobreviveu para memória.

Uma segunda questão espinhosa diz respeito ao engajamento político da obra. A defesa de uma posição ideológica põe em pauta a mensagem que carrega; portanto, a eficácia na transmissão de seu conteúdo; e assim diluiria, ou colocaria para lateral, a discussão sobre escolhas formais, eventuais ousadias estilísticas, polimento da linguagem etc. Ora, sob esse aspecto, inevitável ponderar que o filme, como qualquer obra de arte engajada, não escapa ao dilema da recusa ou aceitação: sua apreciação se dá primariamente em razão do conteúdo ideológico, e não de possíveis ornamentos estéticos.

Mas, vejamos como ele se oferece para a discussão dessas questões espinhosas.Sobre a datação, ou a chamada “obra datada”, na grande maioria das vezes joga-se com clichês: porque confortam mentes resistentes a nuances e simplificam a perspectiva do olhar – “ver como” – diante de alguma peculiaridade do passado. Óbvio que um filme político como La Hora de los Hornos é carregado de slogans, de todo um vocabulário próprio aos anos de 1960: palavras de ordem como “neocolonialismo”, “imperialismoianque”, “terceiro mundo” perderam o peso semântico que detinham para gerar comoção, e hoje, não duvido, são quase arcaísmos.

Ocorre que, respeitado seu propósito panfletário, portanto sua dimensão nitidamente persuasiva, transborda para além de seu próprio tempo: em qualquer época e lugar suas imagens são reveladoras de uma realidade cruel, terrível, indigesta - em decorrência, carregam o efeito de alerta, de advertência, de memória que não se deve apagar. A não ser, claro, que a realidade exibida seja negada; ou que, claro, não sendo negada se entenda a história caminhando sempre para frente, sem retrocessos: a seta da civilização indicaria a humanidade, por natureza, em processo contínuo de evolução, sem ser assaltada pelo risco de retorno ao estágio de barbárie. Esse otimismo civilizatório, no entanto, revela profundo desdém pelo sarcasmo com que Voltaire, no século XVIII, abordou o tema do “melhor mundo possível” em seu “Candido”.

Com respeito à questão do engajamento de uma obra, por sua vez, invariavelmente perdurará o dilema aceitação ou recusa em razão do conteúdo: todavia, não se deve simplificá-la em demasia, a fim de não se cair na armadilha que oporia engajamento ou não. O contrário de obra engajada seria a que não traria nenhum conteúdo ideológico? Mas, isso é possível? Para mim não: toda obra de arte, todo filme, resultado de vontade criativa (materializada, pois, a partir do ato intencional do artista, do cineasta), expressa uma visão de mundo qualquer, mesmo nas entrelinhas, mesmo subliminarmente, portanto, um conjunto de valores que se deseja partilhados.

Posto isto, a diferença está na maneira como o engajamento se expressa: de forma explícita ou implícita. Como vimos, Solanas e Getino realizaram uma película explicitamente engajada na defesa dos povos oprimidos na ordem capitalista; assim como instiga sua sublevação por meio da violência revolucionária. À medida em que eles separam os dois lados da trincheira, o possível valor formal do ensaio fílmico que fizeram acaba de um modo ou de outro contaminado por injunções ideológicas: na mera justaposição de duas imagens com realidades contrastantes, o propósito de evocar, chamar a atenção para estruturas de poder que estão em jogo.

Em resumo: abordar La Hora de los Hornos com ênfase em suas potencialidades formais – no caso a opção pelo “filme-ensaio” –, e abstrair sua mensagem, trairia o que Solanas e Getino evocam com o poder das imagens. Filme-ensaio, obra panfletária, conforme intenção deles esse filme seria bem sucedido na medida em que é aceito e são identificadas suas intenções pelo alvo a que se destina (os povos explorados do terceiro mundo); e igualmente bem sucedido se recusado por quem se vê atingido pelas críticas que são endereçadas (as elites na ordem do capitalismo). O contrário disso revela inapetência para apreender e apreciar devidamente o sentido de um filme com engajamento político explícito. Aceitar sem ressentimento que haja valor estético nas escolhas formais de La Hora de los Hornos implica aceitar o conteúdo que o subjaz.


FICHA TÉCNICA RESUMIDA:

Direção: Octavio Getino, Fernando E. Solanas (Grupo de Cine Liberación)
Fotografado por: Juan Carlos Desanzo, Fernando E. Solanas.
Escrito por: Octavio Getino, Fernando E. Solanas
Documentário
Tempo: 240 min
Ano: 1968





Humberto Pereira da Silva é professor de crítica de arte e ética na FAAP, crítico de cinema na Revista de Cinema, colunista do site Digestivo Cultural e autor de "Ir ao cinema: um olhar sobre filmes" (Musa Editora).