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"ALICE": CINEMA NA TV?







Cid Nader

"A HBO é um canal de filmes de cinema!". Estranha tal colocação para cinéfilos que prezam o cinema como local pra exibição de filmes que só deveriam ser vistos por lá. Melhor: era estranha essa possibilidade para cinéfilos mais aguerridos de até alguns poucos anos atrás, já que hoje em dia "gente fina" do ramo descarta por vezes a possibilidade de ver ver filmas na tela grande quando da possibilidade de vê-los - muitas vezes antecipadamente - na telinha do... computador. Portanto, pensar na tela pequena do televisor como o diabo a ser exorcizado por cinéfilos renitentes, ganha cada vez mais desconfiança e perde credibilidade. Hoje em dia, é de se repensar o quão mal faz a TV para a arte da telona, em oposição a quanto tem contribuído, até, para sua sobrevivência (via propagandas dos lançamentos, ou por investimento e co-produção mais diretos). Talvez seja até discussão ultrapassada se pensarmos nos filmes "baixados" e assistidos no micro. Talvez seja até discussão ultrapassada se pensarmos no que as TVs a cabo tem feito com relação ao cinema.

Hoje em dia se produz "filmes de cinema" para a televisão - nada a ver com os antigos telefilmes -, com o olho mais do que espertamente aberto para alguns dos maiores atrativos para os fãs do veículo: o tempo curto na exibição contínua (propagandas fazem a alegria dos espectadores - pode ser porque o anúncio oferece o céu, ou pode ser pela possibilidade da escapadinha na direção do banheiro ou da geladeira); a possibilidade de se poder continuar acompanhando personagens e tramas, mais à frente, em novos episódios, e sem a repetição do que já se conhece; e a impressão de "me engana que eu gosto" que resulta quando se assiste na telinha produto feito por diretores de cinema, com pique de cinema, atores interpretando modelos de cinema, e roupagem estética de cinema. Nesses sentidos a HBO tem alguns bons passos caminhados e à frente de concorrentes, e já poderia abdicar do "slogan" de TV que reproduz filmes de cinema.

O diferencial nessa "novidade" na TV é que se utiliza toda uma estrutura de filmes feitos para o cinema com a aposta em que seu público, apesar de domiciliar, consegue atentar para as diferenças nas decupagens, nos estilos de roteiro, na opção fotográfica, na apreensão do campo visual em favor de uma melhor composição cenográfica. O diferencial nessa "novidade", é que a aposta agora vem na mesa das produções latino-americanas - imagino que em outras partes do mundo também esteja sendo executada tal tática - com o intuito principal de cooptação de espectadores por auto-reconhecimento. Na coletiva de imprensa que aconteceu após a exibição dos dois primeiros capítulos de "Alice" para a imprensa, um dos responsáveis pela emissora na América Latina enfatizou que a aposta seria mais ampla, já que a tendência é a de que esses produtos novos circulem também pelos Estados Unidos e Europa. Mas, de qualquer modo, mesmo se comprando tal oratória, é evidente que há um "passar as mãos nas cabeças colonizadas", com pensamentos em faturamento, além da discursada apreciação de nossa cinematografia.

E lembrando desse passar as mãos, desse afago, lembro de nossa rendição quando da possibilidade aberta em situações semelhantes. Mas lembro mais diretamente na reação que esse próprio seriado causou quando dos primeiros anúncios de testes com atores aqui na cidade de São Paulo. Houve terremotos e deslocamentos de pessoas na esperança de poder participar do trabalho - com certeza um pouco da relação da empreitada ao nome de Karim Aïnouz, mas com mais certeza a possibilidade de trabalhar na emissora televisiva mais reconhecida mundialmente no quesito "filmes". Houve ti-ti-ti no aguardo dos abençoados e isso somente faz perceber o quanto necessitamos de reconhecimento externo, e o quanto os "externos" têm consciência dessa nossa necessidade. Falou-se na coletiva de um seriado mexicano que já está em cartaz,de um outro argentino e de mais dois brasileiros , dos quais vi apenas alguns momentos de "Madrake" (com Marcos Palmeira) - aliás, nada bom. E entre afagos e promessas, verdades ou mentiras, logicamente que um produto com o nome de Aïnouz envolvido ressabia a curiosidade. E vejo pela primeira vez, a promessa do cinema na TV, reproduzida na telona - paradoxal, sertão virando mar, mundo de ponta cabeça?

Há o primeiro capítulo, vivo, dinâmico, sempre apropriado para a apresentação dos personagens, onde se percebe que a cidade de São Paulo talvez seja a maior estrela do seriado - fato comprovado nos depoimentos e questionamentos, na coletiva pós-exibição (aliás, a série inicialmente iria se chamar "Alice em São Paulo"). A edição revela um trabalho de pique e fôlego, que procura não deixar muitos espaços e tempos mortos (vício televisivo?), alterado, mas que ganha uma certa razão de ser quando se o percebe asso]ciado ao ritmo da cidade. A fotografia abusa da boa vontade da cidade e estoura na tela belos momentos de luzes, grandiosidade física, ritmo das pessoas, alternado com instantes interiorizados (sim, nesse primeiro instante, a apresentação dos personagens e de suas razões respeita individualidades, com pequenas "bolhas" de interiorização e individualização). A cidade é revelada fotogênica quando bem manipulada, opressiva por sua dimensão física, acolhedora quando dentro de suas paredes - há uma boa compreensão dela por parte de Karim e de Sérgio Machado (o outro diretor geral da empreitada), num explicitamento absolutamente verídico do que ocorre normalmente quando da tentativa de explicá-la, normalmente possível e mais crível quando vindo da cabeça dos que optaram por ela mas não são nativos (Aïnouz é cearense e Machado, baiano).

Ok, temos um bom primeiro capítulo. Vamos ao segundo e o e fenômeno "televisão" e suas condições dramáticas parecem ganhar espaço - na tela e nas opiniões. Mesmo não sendo assíduo freqüentador do veículo, obviamente que sei de sua condição de bom local para que gêneros mais "chorosos" ou "sentimentalóides" sejam apresentados. Nesse segundo já nota-se um enfraquecimento, com reações mais acomodadas, situações mais de cartilha, tendência ao drama (não chega ao dramalhão, talvez um "dramalhinho"). Ocorre o perigo que se nota nas telenovelas ganhando corpo e vida aqui - e isso num produto que vem para revolucionar, para distanciar-se do ícone televisivo que é a novela, para colocar-se como cinema -, no momento em que a história tem que prosseguir, quando já não há mais a surpresa da novidade e da apresentação, quando é necessário mostrar competência literária para segurar com qualidade o que definirá a dramaturgia: sucumbem as "visualidades" à falta do que dizer com mais qualidade, e passa-se a se agarrar ao fatalismo pobre como o que deverá sustentar personagens e vidas. A pujança da cidade e a curiosidade das lentes de Aïnouz (os dois primeiros capítulos são dirigidos por ele; mais quatro diretores surgirão nessa primeira temporada) conseguem fazer da cidade ponto positivo, mas uma certa falta de estofo reduz as possibilidades dramáticas. Isso pra mim, logicamente, já que diretores, alguns atores, e jornalistas mostraram-se bastante comovidos com essa seqüência.

Seria injusto criticar todo o produto e projeto apenas por dois capítulos - para o bem ou para o mal. O que deu para notar e explicitei acima, poderia ganhar mais uns pitacos. Muito curioso perceber que Sérgio Machado se disse atônito e espantado ao ver pela primeira vez seu produto na tela grande - ato falho partido de ser que tem sua carreira nascida na sétima arte? Muito curioso perceber que atores e diretores referiram-se ao que foi apresentado como algo revolucionário, como a "solução" futura para a arte de filmar, ou a de representar frente as câmeras - é óbvio que havia o entusiasmo do momento, um certo endeusamento em causa própria: mas cinema continua sendo cinema, sempre, com possibilidades e espaços como esse; jamais tendo esse modelo como substituto. Verdade que o que vi mais me agradou - muito mais - do que imaginava antes, mas é bom ressaltar que o que vi foi em dimensões avantajadas, na tela grande, no escuro respeitoso da sala de cinema, e não saberia quantificar a perda estética quando da obra transposta para seu veículo imaginado (imagino que toda a plasticidade da cidade, o movimento das baladas, a energia do espaço grande - mesmo nas cenas de Palmas - serão bastante afetados quando tolhidos pela dimensão de um televisor, quando projetados em imagens irradiadas pela frente, não por trás. É para se esperar e ver na telinha - na comparação com o outro produto da HBO que vi anteriormente, o "Mandrake", Alice dá de dez. Lembrando que acorrida de atores na época parece ter resultado em escolhas bastante apropriadas, com resultados bem bons.


Cid Nader é editor do cinequanon.art.br.