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ALMANACH FESTIVALIS 2008 - Sobre o 13º Festival Brasileiro do Cinema Universitário







Antonio Paiva Filho

O FESTIVAL EM SI

Pois eis que a coluna Gente Boa, que Joaquim Ferreira dos Santos publica no Segundo Caderno do jornal O Globo, solta esta simpática notinha:

AULAS DE CINEMA – A abertura de dezenas de faculdades de cinema pelo país repercutiu no Festival de Cinema Universitário deste ano, no Rio, que aumentou em 40% o número de inscrições. A grande maioria dos filmes fala das relações amorosas. Em segundo lugar, com quase 5% dos inscritos, os universitários estão interessados, vai entender? na temática do "travestismo".(1)

Tudo azul no ensino de audiovisual de um certo país de língua portuguesa da América do Sul?

Nem tanto.

Prova disto é a seleção da Mostra Competitiva do 13° Festival brasileiro de Cinema Universitário — na média, de boa qualidade técnica; infelizmente, também em fogo baixo, com uma baixa chama criativa, de invenção. Majoritariamente careta, se este é o termo que está procurando.

Motivos disto? Difícil definir.

Um possível motivo é que esta produção conformista — na forma, no conteúdo e mesmo nas tentativas de experimentar ou, pelo menos, do que acham que é experimentar — reflete apenas o pensamento da geração de jovens que está estudando cinema atualmente — que é, basicamente, a juventude atual: individualista, cética a respeito da ação coletiva (nada a ver com ação em grupo — geralmente pequeno), conformista. Daí a maioria dos filmes — "certinha", bem cinema clássico-narrativo, boa para agradar as comissões de seleção de editais de curta-metragem. É verdade que muitas destas comissões de seleção não privilegiam muito a criatividade e a invenção (embora os textos dos editais digam o contrário...). Mas, especialmente por isso, parece uma rendição.

Outra possibilidade é a linha atual destas escolas, declaradamente voltadas para a preparação de profissionais para o mercado de trabalho. Até aí morreu Neves: o mercado precisa de profissionais, e quanto mais criativo ele for, melhor. E as escolas de cinema sempre foram o território por excelência da pesquisa e da invenção. O problema é que a maioria destas novas escolas de cinema tem uma visão diferente do que é um profissional de cinema; para elas, ele não precisa ter liberdade para criar, pesquisar, inventar, nem precisa conhecer outras formas de cinema: deve apenas ser "adestrado" nas técnicas do cinema clássico-narrativo — o único, segundo estes "çábios", que presta e que deve prevalecer. (Claro que eles esquecem que estas técnicas do cinema clássico-narrativo, grosso modo, vieram da curiosidade de técnicos do primeiro cinema — tipo assim, um certo D.W. Griffith — em descobrir— ou seja, em pesquisar — novas formas de narrar uma história em um filme mas o que se há de fazer se eles devem achar que a história do cinema não lhes interessa?) Mais que isso: este novo profissional de cinema deve ser um "operário-patrão", sem novas idéias e sem senso crítico. Possivelmente, as novas escolas de cinema já surgiram aderindo piamente a esta nova ideologia, desestimulando os seus alunos, de cara, a criar, a inventar. Também é bem provável que as mais antigas e tradicionais (UFF, ECA-USP, UnB e FAAP) resistam, mas pouco a pouco comecem a aderir a esta ideologia, limitando a liberdade criativa através de restrições de acesso a equipamentos e outros recursos materiais (que já são muito limitados nas escolas de cinema públicas a priori, isto é, por falta crônica de verbas suficientes para custeio) e processos bur(r)ocráticos restritivos (seleções internas, "manuais de produção" etc.). (Claro que devem haver regras internas para o acesso de alunos a equipamentos e outros recursos materiais com responsabilidade, para que não fiquem sujeitos ao bundalelê de qualquer um pegar uma câmera a hora que quiser, ficar filmando com ela o tempo que achar melhor e devolvê-la quando quiser — seja em que estado for. Mas também é público e notório que o bundalelê de alguns alunos de cinema sem-noção serve de ótimo pretexto para vocações de censor imponham suas normas ultra-restritivas.) Ainda mais quando isto se torna diretriz quase unificada do FORCINE (Forum Brasileiro das Escolas de Cinema e Audiovisual), durante o longo domínio em que esteve nas mãos de pessoas da ECA-USP, onde esta bur(r)ocratização e restrição criativa começou (aliás,bem ao gosto do tucanato, que A-DO-RA poupar dinheiro público para remunerar os felizes possuidores de títulos da dívida pública...).

Mas isso são opiniões minhas. Você decide.

Só não pode achar que tudo está azul no ensino de cinema do Brasil. A Universidade Gama Filho que o diga:

Nós, abaixo assinados, alunos, docentes e funcionários do curso de cinema da Universidade Gama Filho, viemos reivindicar nosso direito de formação com a qualidade docente que nos foi propagandeada. Tal atitude deve-se a súbita demissão do nosso coordenador e professor Ruy Guerra - deixando uma falha no grande patrimônio deste curso.Nos sentimos lesados tendo em vista que, ao investirmos nossa formação profissional na Universidade Gama Filho, levamos em consideração o corpo docente que essa oferecia.(2)

Só para esclarecer todo este imbróglio.

Quem quer fazer um curso superior (além de detalhes comezinhos como a carreira, o local e, no caso de universidades particulares, pelo valor das mensalidades) decide-se por um deles por itens como a credibilidade, a solidez da instituição e a qualidade, especialmente de seu corpo docente. No caso do (a) jovem que quer fazer cinema e decidiu prestar vestibular para o curso da Universidade Gama Filho, guiou-se principalmente pelo corpo docente, chefiado por ninguém menos do que Ruy Guerra.

No entanto, quando o incauto... digo, o calouro entra na Gama Filho, descobre que a sua solidez está se desmanchando no ar rarefeito de uma crise financeira (apesar do preço de sua mensalidade...); que a solução encontrada para resolvê-la é o bom e velho corte de custos que considerava supérfluos (o que não é nada de mais em economia, desde que nos lembremos que cada um tem uma opinião própria do que acha ser supérfluo; na administração pública, por exemplo, existem governantes que acham supérfluo investir no sistema de saúde e na prevenção de doenças, mas acha importantíssimas obras suntuosas como Cidades do Raio-que-o-Parta — não é verdade, ó Cesar Maia, assassino da Riofilme?); que o método encontrado para estes cortes foi a chamada "reengenharia empírica à brasileira" (também conhecida em tempos idos como "passaralho" = pássaro + isto mesmo que a senhora está pensando...) — isto é, demissões a torto e a direito; que uma das vítimas desta "reengenharia" foram vários bons professores do curso de cinema — inclusive o próprio Ruy Guerra; e que os professores que ficaram, revoltados, falam em greve ou mesmo demissão coletiva, em protesto — atitudes que, segundo rumores muito fortes, são ansiosamente esperadas pela reitoria da gama Filho para uma segunda parte de sua "reengenharia": extinguir de uma vez este curso, considerado supérfluo, tal qual os generais da ditadura militar fizeram com o curso de cinema da Universidade de Brasília, em 1965.

Daí, este abaixo-assinado, que ainda continua correndo na internet. E seria interessante que tivesse mais assinaturas. Porque, se for consumada a extinção deste curso — e ainda que seus alunos consigam se transferir para outros cursos de cinema mais sólidos — é, no mínimo, um desrespeito com o esforço de estudo deles, tanto antes (o vestibular) quanto durante (o curso propriamente dito). Por outro lado, este incidente é uma mostra de quais destes cursos poderão sobreviver: os efetivamente querem ter algum papel na formação de pessoal para a, digamos, indústria cinematográfica ou os que foram fundados no oba-oba de que pode ser um bom negócio. Sobre estes últimos, faço minhas as palavras de vovó, que Deus a tenha: quem não agüenta com a corda, não bota caçamba.

Nesse maio tempo, algum esprit de cochon (do francês: "espírito de porco") poderia acusar o FBCU de cumplicidade com esta situação, por omissão. Alegam-se dois motivos: a prioridade na exibição de filmes universitários, e a falta de espaço para uma discussão mais profunda do ensino de audiovisual no Brasil e de sua relação com o panorama geral do audiovisual brasileiro (através de seminários mais alentados e aprofundados).

Está bem, isto até faz algum sentido, mas se eu fosse o (a) gentil leitor(a), que porventura pense assim, examinaria estas afirmações com mais serenidade.

Quanto ao 1º motivo, gostaria de lembrar-lhe que você está chovendo no molhado. O FBCU, como o nome diz, é um festival universitário de CINEMA e, noves fora outras funções paralelas que tenha ou possa vir a ter, um festival de cinema serve principalmente para exibir filmes (Dããã...). No caso do FBCU, especificamente, para exibir filme e vídeos universitários com identidade própria — isto é, como filmes e vídeos produzidos pelos alunos das instituições de ensino superior desta Ilha de Vera Cruz — coisa que nenhum outro festival de cinema brasileiro fazia até 1995, ano de sua primeira edição. (É verdade que, considerando-se o tamanho que o FBCU atingiu, a seleção dos filmes da Mostra competitiva Nacional não pode ficar a cargo apenas de UM DE SEUS COORDENADORES e seu assistente, pois fica sujeita a alguma de suas idiossincrasias — uma delas, a cisma com a terra do Padre Cícero e com um de seus cidadãos, mas isso, discutiremos mais tarde. Em uma comissão de seleção com duas ou três pessoas, no mínimo, as idiossincrasias de cada integrante se anulam mutuamente, sobrando apenas os filmes e suas qualidades.)

Quanto ao outro motivo: sim, o FBCU poderia e deveria ter se dedicado menos aos aspectos, digamos, mundanos do evento; sim, poderia e deveria ter feito (e fazer ainda) seminários para discutir a fundo o ensino de cinema. Talvez as propostas e conclusões tivessem impedido a linha “operário-patrão” das novas escolas de cinema do país. Talvez. O problema— e, neste caso, dá para entender a, digamos, resistência do FBCU em fazê-lo — é que propostas e conclusões de seminários só teriam importância se: 1- viessem a público; e 2- fossem po0stas em prática. E aí cabem duas perguntas.

Neste caso, cabem aqui duas perguntas a ser feitas.

A primeira pergunta: qual público se interessaria pelas propostas e conclusões de um seminário sobre ensino de cinema? Se a resposta for “apenas quem é ligado a cinema”, acertou, e isto não adianta muito, pois fica dentro de um circuito, digamos, incestuoso. E precisamos que mais gente — quem sabe, o público que o cinema brasileiro quer atingir — se interesse por este assunto.

A segunda pergunta: quem poderia se interessar por tais propostas e conclusões e colocá-las em prática? Infelizmente, quem poderia fazê-lo não o fará, porque sequer as leria, já que se habituou a decidir as coisas a portas fechadas—especialmente as portas do FORCINE, do MEC, do MinC, das secretarias estaduais e municipais de educação e cultura...


OS DESTAQUES DO FESTIVAL:

Terminado este chororô particular, vamos aos destaques da Mostra Competitiva Nacional do XIII FBCU. Como foram muitos filmes (53 filmes, selecionados — por uma pessoa só, por increça que parível! — de um total de 334 filmes inscritos e enviados), vou abordá-los em grupos.

- Grupo de filmes 1 – Filmes acometidos pela "Síndrome de Bagata"

A "síndrome de Bagata" acomete alguns filmes e vídeos universitários, e muitas vezes é confundida com erros de aprendizagem em sua realização.

A síndrome apareceu na produção universitária pela primeira vez com o filme Bagata, de Lucas Margutti, então aluno da primeira turma do curso de cinema da Universidade Estácio de Sá. A sinopse oficial nos informa: "Bagata é uma homenagem aos grandes compositores da história do cinema". Na verdade, o que vemos no filme é a seguinte historinha: um jovem, possivelmente problemático, come pizza e assiste a vídeos no apartamento onde vive, do tipo "a faxineira não vai lá há uns dez anos', sujo e cheio de restos de pizzas anteriores, que possivelmente sobraram da festa de aniversário de Ramsés II. De repente (como é de se esperar num apartamento cheio de lixo), eis que aparece uma barata. E descobrimos neste instante que, além de problemático e porquinho, o rapaz tem um problema grave de dicção—trocando os Rs pelos Gs quando fala — ao exclamar: "Cagalho, uma bagata!", antes de passar o resto do filme correndo atrás da barata, ao som de trechos de músicas de filmes, de Missão Impossível ao tema de Indiana Jones... Grande homenagem!...

De lá para cá, Lucas Margutti tornou-se um profissional competentíssimo, e a Estácio passou a enviar bons filmes para o FBCU (falaremos de sua última recaída daqui a pouco). Mas a "síndrome de Bagata", infelizmente, ficou, infectando uma boa parte dos filmes universitários. E um filme acometido pela "síndrome de Bagata" é assim: uma idéia imbecil, desenvolvida de modo idiota. Só não digo que desperdiça tempo, equipamentos e película (ou fitas, no caso dos vídeos) porque proporciona prática aos estudantes. Mas supunha-se que, ao fazer um filme ou um vídeo, eles quisessem algo mais do que praticar: quisessem criar.

É claro que as causas da "síndrome de Bagata" não são únicas. O "vírus" causador (digamos assim) tem três versões diferentes.

A primeira versão, mais leve, atinge os filmes cuja única aspiração é ser tecnicamente bem realizados, mas que deixam passar alguma(s) falha(s) — de roteiro, de conteúdo, de técnica — que o impede(m) de atingir seu objetivo — também conhecidos como tropeços de aprendizagem. O que não é nenhum problema: o tempo e a prática — na escola de cinema ou fora dela, depois de formado — farão com que os realizadores destes filmes se aperfeiçoem ou clareiem suas idéias.

Entre os filmes-vítimas desta forma mais leve da síndrome estão Cidade do tesouro, de Célio Franceschet (ECA-USP), Pipa, de Leonardo Bello (FAAP) e Partir, de Márcia Paveck (UNISINOS).

Cidade do tesouro tenta trazer o clima dos quadrinhos e romances de Lourenço Mutarelli (inclusive com ele próprio no elenco), mas a narração é falha, abusando da banalidade e tornando o filme tedioso.

Quanto a Pipa, ainda que o argumento tenha sido escrito por um aluno provindo de uma comunidade carente (cenário da história), o roteiro e a direção são de outro (Leonardo Bello), que não é de lá e, portanto, parece expressar mais uma vez, um olhar etnográfico (ou seria etnocêntrico?) de alguém de fora. E expressa mesmo. Some-se a isso o seu ritmo arrastado (são os 16 min. 50 seg. mais longos da história do curta-metragem brasileiro), produto de falhas de direção e montagem e de algumas incoerências narrativas do roteiro. Em suma: não se sustenta.

E Partir tenta, a partir de uma situação histórica — a repressão do regime militar — levar adiante a manjadíssima situação-limite de um grupo de pessoas — dois rapazes e uma moça — fechadas num lugar. Até aí morreu Neves: de acordo com a Segunda Lei de Chacrinha (3) , idéias antigas podem ser recicladas, desde que com originalidade. Infelizmente não foi o caso deste roteiro, que calhou de encontrar resposta numa direção de atores colegial. Mas a guria realizadora tem algum futuro, já que enquadramentos, fotografia e música são muito bons.

A segunda cepa do "vírus" da "Síndrome de Bagata" já é um pouco mais séria, um pouco mais forte, e pode ser resumida a uma palavra: pretensão — de ser genial e revolucionar o cinema, de ser um novo Steven Spielberg etc., etc.—tudo isso antes de aprender e dominar a técnica cinematográfica. Para esta cepa, o tratamento também se resume a uma palavra: humildade — ou, se preferirem, simancol. Neste caso, as vítimas desta cepa foram Noite amarga, de Val Rocha (Estácio), Nosferatu, de Heloá Fernandes (Faculdade Cambury – GO), e [colorado esporte clube], de Fábio Allon (FAP-PR). Noite amarga tenta misturar no mesmo liquidificador todos os climas de Cidade de Deus e Tropa de elite, acrescentando um molho meio humorístico e o etnocentrismo de sempre. Por falta de rigor e de originalidade e excesso de clichês, o resultado foi um ótimo produto para concorrer com o Lacto-Purga. Nosferatu , como o nome diz, é uma suposta homenagem ao clássico de F.W.Murnau (1922). Se mergulhasse fundo na paródia, seria uma homenagem legal, mas ele se leva a sério demais, sem o rigor que se espera nos casos em que um filme quer se levar a sério. E, apesar de sua matriz literária, dir-se-ia que [colorado esporte clube] é uma experimentação à lá Maria Joaquina Dobradiça da Porta baixa: não sabe se vai ou se fica, não sabe se fica ou se vai... (4) Finalmente, a mais virulenta das cepas deste "vírus" da "Síndrome de Bagata". É um cruzamento híbrido de pretensão elevada à décima potência, egocentrismo, estelionato e complexo de blindagem—também conhecido como certeza de que nunca será descoberto ou punido. Como exemplo desta cepa, temos Jarro de peixes, a segunda arremetida do “realizador” Samuel Santana na Mostra Competitiva Nacional (e prova cabal de uma das idiossincrasias do único selecionador dos filmes da mesma). Seu “documentário”, assim como sua “obra” anterior, A curva (2007), consiste em mais um vídeo VHS do acervo de Miguel Pereira, videomaker de Juazeiro do Norte (CE), terra natal de Salomão — no caso, uma reunião de evangélicos lendo a Bíblia. Ora, um documentário de montagem, como o nome diz, usa imagens e outros materiais de arquivo como ponto de partida e meio primordial para contar alguma história real, especialmente da história recente — do Brasil, da cidade ou mesmo pessoal. Podemos citar bons exemplos deste tipo de documentário, como Revolução de 30 (1980), de Sílvio Back, Os anos JK (1980) e Jango (1984), de Sílvio Tendler. Mas ao ver Jarro de peixes, notamos o seguinte: intervenção nas imagens, de alguma forma? NENHUMA; alguma forma de diálogo com as imagens e entre elas? NENHUMA; alguma informação (porque documentário, além de outras funções, serve para informar, sem ser confundido com reportagem) sobre as pessoas (que devem ser conhecidas lá em Juazeiro, mas são ilustres desconhecidas para o espectador do festival)? NENHUMA. Jarro de peixes , assim como A curva se limita a reproduzir, devidamente digitalizado, o vídeo VHS de Miguel Pereira. PARA QUÊ? Por que é que os créditos do filme não são honestos e dizem: “realização: Miguel Pereira? Por que é que Salomão Santana assina a realização de um vídeo feito por outro? Quanto suor, realmente, foi derramado por Salomão Santana para “realizar” este “documentário”? Se a sua resposta, gentil leitora, for NENHUM, porque é uma grossa vigarice, acertou.

Pior de tudo: com a exceção das observações acuradas e temperadas de ironia de Cristian Borges (ex-coordenador do festival e membro do júri), foi triste ver cinéfilos e críticos sérios, como Marcelo Ikeda, discutindo esta vigarice a sério, tal qual admirassem os brocados da roupa nova do rei, quando na verdade ele estava nu.

Aliás, este é um caso de se perguntar, mui noelianamente, com maldade: onde está a honestidade? (5)

- Grupo de Filmes 2 – Solitário andar por entre as gentes

Comido o amargo jiló dos filmes com a “síndrome de Bagata”, vamos ao próximo item do cardápio: filmes que lidam com a temática da solidão e da dificuldade de diálogo com o outro.

E, em se tratando disto, muitas vezes pode ser apenas a mera dificuldade de falar com outra pessoa na hora certa em que deveria falar. A viúva de Coração de tangerina, de Juliana Psaros e Natasja Berzoini (FAAP), e o melhor amigo da moça, de Até amanhã, de André Bomfim e Guilherme Freitas (ECA-USP).

Coração de tangerina — uma crônica sensível delicada e melancólica sobre a solidão de uma viúva — é extremamente valorizada pela performance de sua dupla veterana de atores, Etty Fraser (a viúva) e Antônio Petrin (o novo vizinho). Já Até amanhã passa-se na noite de réveillon , e sua história de desencontro e incomunicabilidade — menino (Bruno Feldman) ama menina com quem dividia apartamento (Ana Carol Godoy), que vai morar com o namorado (Gustavo Machado) — tem o seu ponto forte no elenco, extremamente afinado, com destaques para Bruno Feldman e Cibele Bissoli (uma loura num bar).

Em Os sapatos de Aristeu, de Luiz René Guerra (FAAP), a dificuldade de diálogo se dá por conta de um muro temporal e psicológico. Mas de que matéria é feito este muro? Seria feito do ressentimento de uma família, reduzida à mãe (Berta Zemel, em atuação primorosa) e à irmã (Denise Weinberg) pelo filho mais velho, que os abandonou para seguir sua vontade? Seria feito de preconceito e certa homofobia, quando mãe e irmã decidem que o filho e irmão, já morto depois de ter vivido como quis — como um travesti — seria enterrado como homem, de terno e tudo, e sem a presença de ninguém, especialmente suas amigas travestis (tendo uma digna Phaedra D. Córdoba à frente)? Difícil determinar. Podem até ser todos estes materiais ao mesmo tempo. O fato é que, ao final, este muro tão forte acaba se desmanchando no ar, tal qual bolinha de sabão.

Está certo, esta é a minha leitura de Os sapatos de Aristeu. Mas não há como negar a intensidade suas emoções contidas, reforçadas por um preto-e-branco extremamente expressivo. O roteiro, penhorado, agradece à dissecação que sofreu em uma das oficinas do Projeto Sal Grosso, em uma das edições do festival , pois trabalha todas estas emoções de modo igualmente intenso.

Mas, e quando não há ninguém para você dialogar (ou pelo menos, tentar)? Então — óbvio ululante — você está só (dããã...).

O homem velho e só (Miguel Rosenberg) de A espera, de Fernanda Teixeira (Estácio) toma seu café da manhã, lê o jornal em busca de obituários ou Cem anos de solidão, de Gabriel Garcia Márquez, alimenta seu cão — sua única companhia — janta sua sopa etc., etc., enquanto espera a morte. Só que ele prefere desmentir Raul Seixas e não se limita a ficar sentado com a boca aberta, escancarada e cheia de dentes, esperando a morte chegar. Claro, a direção de arte chama a atenção demais da conta — até porque a diretora trabalha principalmente com isso no cinema, e queria muito chamar a atenção para o seu trabalho... Mas não atrapalha o clima melancólico e claustrofóbico da narrativa, só o reforça.

A espera faz um contraponto muito interessante com o documentário Solitário anônimo, de Débora Diniz (UnB). E é uma pena que a diretora não tenha ido ao FBCU para falar sobre este documentário tenso, bruto e até mesmo mórbido, que coloca todas estas qualidades a serviço de uma discussão importante, sobre o conflito entre a vontade do indivíduo — no caso, um velho que quer morrer anônimo e de fome — e a estrutura da sociedade — no caso, do serviço de saúde, que o mantinha vivo e o alimentava contra a sua vontade, até porque este é o declarado dever deste serviço. (Aliás, parece que a diretora deve ter tomado o partido deste homem, pois, ao final, ficamos sem saber quem ele é...)

Finalmente, a pior das solidões: a solidão monitorada. Sistema interno, de Carol Durão (UFF), é quase todo composto de imagens de câmeras de vigilância, que monitoram os passos de uma solitária personagem (Alice Lanari), de sua saída de casa, no trabalho, até sua volta, à noite. É um filme que pega outras cores para acompanhar esta moça. Não cores de Frida Kahlo ou cores de Almodóvar, mas cores, mais sombrias, de George Orwell, cores de 1984. O final que o diga.

-Grupo de filmes 3 – Luzes da cidade

Aliás, Sistema interno é urbano por natureza, e poderia estar neste grupo de filmes, que trata da cidade, seus lugares, seus personagens e outras questões paralelas.

Aliás, quer coisa mais urbana do que o celular, com suas chateações inerentes às distrações do dono (atender enquanto dirige automóvel, esquecer de desligá-lo durante uma sessão de cinema ou peça de teatro etc.), mas com suas qualidades e novas funções — como filmar? Pois o celular não é apenas o meio de filmagem utilizado por Gabriel Bortolini e Jéssica Rodrigues para a realização de Sete vidas (Estácio), mas também é mote para a história: a trajetória de um celular roubado de duas turistas que percorre,a partir daí, mais seis donos e sete situações diferentes—as “sete vidas” do celular—no caos urbano. Ainda que a realização não seja tão rigorosa como se esperava, foi uma idéia inteligente.

O mesmo pode se dizer de Praia de Botafogo, de Flora Dias (UFF). Ainda que não chegue às alturas que merecia, lida de modo bem interessante com a memória — ou com o ícone memória — da cidade, ajudado pela imagem preto-e-branco.

Praia de Botafogo faz um contraponto interessante com a animação Ciclovia , de Juliana Corrêa, Júnia Matsuura, Mariana Flor, e Thiago Storch (UFF). Feita com recortes de jornal, também chega quase lá — o que, aliás, fez com que merecesse de gaiatos a alcunha de “filme-de-propaganda-disfarçado-da-prefeitura-do-Rio-de-Janeiro (só se for da próxima gestão, não é?) — mas não desmerece a sua criatividade.

Saindo da Zona sul carioca, vamos para os subúrbios com Noite de serão, de Fernando Secco (UFF). O filme retoma os personagens de Fim de expediente, (2005, participante do 11º FBCU, em 2006), de Alexandre Sivolella Barreto, em seu movimentadíssimo cotidiano: olhar a paisagem (ou fiscalizar a natureza, como diriam os gaiatos de antanho...), fumar sua maconha etc.— mesma idéia e personagens retomados com mais maturidade, no roteiro e na perfeita interação entre os atores.

De uma visão realista, vamos para o quase surreal de Quando o tempo parar, de Gabriela Benedet Ramos (PUC-RS). A atmosfera de ficção-científica destes 4 minutos filmados em Super-8, em preto-e-branco, é interessante.

De volta para o real, temos que encarar a violência urbana e suas conseqüências. Uma delas é o cárcere, cenário de Para que não me ames, de Andradina Azevedo e Dida Andrade (FAAP). Ainda que se negue — ou que não se tenha consciência disso —, nota-se uma certa inspiração na obra de Plínio Marcos, especialmente em Barrela, na relação amorosa entre dois presos, Marisco (Bruno Giordano) e o travesti Vivita (na verdade, uma atriz, Alice Magna). O preto-e-branco forte (recurso que parece recorrente entre os filmes mais interessantes do festival) dá mais força a este filme intenso, lírico em sua brutalidade.

(Aliás, será que Para que não me ames e Os sapatos de Aristeu são a justificativa para a “presença do ‘travestismo’” no FBCU, segundo a coluna Gente boa? Caso a pensar...)

Os dois últimos filmes tratam dos ícones da violência. O primeiro é Romance .38, de Vitor Brandt e Vinícius Casimiro (ECA-USP) — ou: a interessante história de um aspirante a escritor que tenta terminar de escrever seu romance, cheio de cenas violentas... mas que não é só isso, num empolgante jogo de "a-arte-imitando-a-vida" e vice-versa. Este é outro filme valorizado pela direção de atores; Marcelo Pacífico (o aspirante a escritor), Joeli Pimentel (o amigo dele) e Bia Borin (a namorada do aspirante a escritor) estão ótimos.

Finalmente, Os boçais, de Lufe Bollini, que tem a honra de ser a primeira produção do curso de Realização Audiovisual da UNISINOS com um sopro verdadeiro de invenção, fugindo do padrão "limpinho-perfumadinho-arrumadinho-mas-tedioso" de produções anteriores. (Se isto é mérito da escola ou do aluno, não sabemos.) O filme retrabalha sopros de Laranja mecânica (Stanley Kubrick), de Pulp fiction (Quentin Tarantino) e do cinema "udigrudi" brasileiro com um extraordinário vigor anárquico.

- Grupo de filmes 4 – Gran Circo Lírico

Aqui, a poesia — das imagens, das situações e de sentimentos, daqueles que atingem as nossas cordas mais sensíveis — é senhora.

Primeiro, a poesia do real em Pintinho, de Rafael Saar (UFF), não-narrativa simpaticamente lírica em torno de um menino (sobrinho do realizador) e seu pintinho.

Até onde a vista alcança, de Felipe Peres Calheiros (UFPE), é um documentário realizado em torno de habitantes de duas comunidades de quilombolas de Panelas, interior de Pernambuco. O filme acompanha o esforço deles para alugar um ônibus. Seria para ir até Brasília, para protestar contra a usurpação de suas terras por fazendeiros? Não: para ir até o litoral... para ver o mar, que a maioria deles nunca viu na vida. E o que poderia ser mais um documentário militante sobre a luta destes quilombolas pela posse de sua terra, torna-se um filme lírico pela singeleza, reforçada pelo uso inteligente das entrevistas, das imagens do cotidiano e das fotos preto-e-branco dos quilombolas na praia, na beira do mar. Prova cabal de que, ainda que em quantidade menor do que nos anos anteriores, Pernambuco e seus coletivos de cinema (como o Asterisco, realizador deste documentário) são um dos centros de criatividade, fora do eixo Rio-São Paulo, mais ativos do cinema brasileiro.

Depois, temos a poesia dos ícones.

Primeiro, os ícones propriamente ditos, em People, de Natália Klein (UFRJ): fotos de família, de diversas famílias e épocas, fala das pessoas, das relações e do tempo (que, no caso deste filme, é curto: 3 minutos e 50 segundos) de modo poeticamente nostálgico.

A trupe, de Guilherme Pinheiro (FAAP), como o nome diz, lida com outro ícone do imaginário: a troupe de artistas mambembes que sai por aí, fazendo o espetáculo onde estiver—desde que não seja na hora do Rebelde... Com ecos de Fellini — especialmente de A estrada da vida (La strada, 1951) e de I clowns (1965) — o filme encanta tanto quanto eles, apesar de sua produção despojada. Ou talvez por isto mesmo.

Luzes de Noel, de Marcela Paschoal, e Do lado de cá da porta, de Luiza Favale (ambos da ECA-USP), poderiam ter ficado no Grupo 2, mas a poesia, ainda que melancólica, é mais forte. O primeiro lida de modo simpático e despojado com as neuras da infância de uma empresária (Paula Mirhan) com o Natal de modo despojado, como uma versão 2008 do Conto de Natal, de Charles Dickens. O segundo é puro delírio, em torno de um homem solitário (Marco Biglia) e sua bela vizinha (Flavia Lorenzi Azevedo) — a solidão e o inatingível numa experimentação fascinantemente delirante, valorizada por uma criativa direção de arte.

Depois, a poesia da literatura (e se puderem, me desculpem a redundância do pleonasmo...), em Moradores do 304, de Leonardo Cata Preta (UFMG), e Outros modos de sentir, de Giovanna Belucci e Rodrigo Pepe (Universidade Anhembi-Morumbi). A partir da Elegia 1938, de Carlos Drummond de Andrade, Moradores do 304 — uma animação experimental — viaja sem nenhum pudor por um lirismo tenso e visualmente alucinante.

Outros modos de sentir é outro papo. Afinal — e me desculpem mais uma redundância do pleonasmo — ser mulher não é nada fácil. Ser uma autora como Clarice Lispector também não. E lidar com uma matéria-prima como a obra de Clarice é bem mais difícil. Mas, por increça que parível, não é que este curta se sai muitíssimo bem nesta difícil tarefa? Cortesia de uma direção de arte impecável, de um roteiro com raríssimos tropeços e da direção de atores — ou melhor de uma atriz, Martha Meola, em três papéis—milimetricamente delicada. Os três papéis: a própria Clarice e duas personagens de seus livros — duas donas de casa e suas epifanias em suas salas de jantar, ocupando-se bem mais do que em nascer e morrer.

A poesia do cotidiano urbano fica em O cineasta, a menina e o homem-sanduíche, de Daniella Saba (FAAP). A poesia está em três perguntas básicas. Primeira: por que ninguém ouve o cineasta? (Metáfora à la Veja da situação do cinema brasileiro?) Segunda: será que o hipnotismo da menina poderá funcionar sempre para que ela possa enfrentar a vida? Terceira: será que homem-sanduíche (figura cada vez mais rara na grande cidade moderna) conseguirá reverter sua obsolescência e seu fracasso amoroso? Já eu acrescento uma pergunta: por que é que o encontro entre este strês fracassos termina em aberto, ao fim do filme? Quem não souber, paciência: pode ser que este final seja parte de sua poesia. E faz. Agora, quem souber, pode mandar cartas ou e-mails para este escriba.

Brincos de estrela, de Marcela Bertoletti (UFF), também pode ser chamada de "choro para flauta, violão, câmera de cinema e sentimentos medrosamente recolhidos" No caso, os de Beatriz (Luanne Araújo, aluna de Cinema da UFF) por sua amiga (Ana Claudia Castro) — sentimentos que, há algumas décadas atrás, não poderiam dizer seu nome. A timidez de Beatriz parece se refletir no roteiro e na direção, mas isso não tira o modo sensível e delicado com que este "medo do amor e do não" é tratado.

Finalmente, a poesia dos chamados ritos de passagem, em Corpo no céu, de Luísa Marques (UFF), Espalhadas pelo ar, de Vera Egito (ECA-USP), Antes que seja tarde, de André Queiroz (ECA-USP), e O vampiro do meio-dia, de Anita Rocha da Silveira (PUC-RJ). Até porque nenhum rito é igual para ninguém.

O rito da adolescente (Clarisse Zarvos) de Corpo no céu é deixar a casa da mãe e partir em viagem, e o filme acompanha os seus últimos dias no espaço em que viveu grande parte de sua vida. A poesia está na imagem realmente pura e despojada.

O rito da adolescente de Espalhadas pelo ar — que fuma escondida com suas amigas no corredor do prédio em trajes íntimos, para não deixar o cheiro do cigarro nas roupas — são suas confidências com uma vizinha mais velha, cujo casamento acabou de acabar, sobre seu primeiro namorado, que também não dura muito. Quase chega ao resultado que pretendia, mas fica uma certa delicadeza na direção das atrizes.

O rito de Digo (Fábio Lucindo, ex-ator mirim), em Antes que seja tarde, é escolher uma universidade e tentar conquistar a melhor amiga de colégio. Esta crônica irônica (ih, rimou!) flui sem muitos traumas (a não ser para Digo...) e sem tropeços.

E o rito do personagem principal de O vampiro do meio-dia — que poderia se chamar também, muito Zé do Caixão, "o estranho mundo de um adolescente tímido" — é lidar com suas pulsões. Este filme pode ser considerado o contraponto mais criativo de Antes que seja tarde, onde este estranho mundo é revelado a nós através de uma narrativa sem diálogos (aliás, pra quê?) e experiências de imagem e de som ambiente — cortesia dos poucos recursos de captação, transformados, mui pauloemilianamente, em condições de produção — inteligentes.

- Grupo de filmes 5 – Cinema como no Cinema. Ou não.

Finalmente, os filmes que falam sobre cinema e do fazer cinema.

Neste grupo, vale tudo. Valem paródias auto-referenciais, como O rapto da Lua, de Vínícius Pereira e Fábio Escovedo (UFF), um thriller noir que poderia ser assinado por Ed Wood, com um ótimo e hilário resultado. (A propósito: O alerta, filme de montagem realizado por Raquel Gandra (UFRJ), dentro de uma oficina de realização do RECine – Festival Internacional de Filmes de Arquivo, também bebe muito em Ed Wood, e sua montagem inteligente e irreverente valoriza muito a “história”.)

Vale também uma animação igualmente auto-referencial, Entrada para o sucesso, de Daniel Bydlowski e Marcos Casilli (FAAP), que também poderia ser chamado de “Edgar Allan Poe revisto por Woody Allen”, e igualmente engraçado.

Também vale misturar vaudeville – tipo assim, uma mulher (Paula Braun), seu marido (Augusto Madeira) e seu amante (Mateus Solano) – com José Roberto Torero e filme-dentro-do-filme, em Maridos, amantes e pisantes, de Ângelo Defanti (Estácio). O resultado é uma comédia escrachada e engraçada, onde mais uma vez a força está na direção de atores.

Por falar em escracho, como não falar de A bela P..., de João Marcos de Almeida (Faculdade Cásper Líbero)? Ainda que se notem influências do cinema de José Antônio Garcia e Ícaro Martins (O olho mágico do amor, 1981, e Estrela nua, 1984) e do cinema “udigridi” – e não só porque Helena Ignez faz a narração em V.O. –, A bela P... é um sopro fortíssimo, quase um tornado, de invenção, liberdade, falta de vergonha (no sentido que a gentil leitora quiser dar a esta expressão...) e humor, que fazia muita falta neste panorama de cinema universitário.

Claro que isso não impede que o cinema universitário possa reverenciar a história do cinema brasileiro, bem como alguns de seus personagens importantes. Como em Remo Usai – um músico para o cinema, de Bernardo Uzeda (PUC-RJ), merecidíssima homenagem a Remo Usai, um dos mais prolíficos, melhores e maiores compositores de trilhas sonoras para filmes brasileiros – especialmente O assalto ao trem pagador (1962), de Roberto Farias, apresentado como um exemplo de seu talento – afinal, 20 minutos não bastaram para mostrar seu trabalho. Mas bastaram para ser um filme brilhante e tocante, que mereceu todos os prêmios que ganhou, especialmente no É Tudo Verdade 2008.

E também não nos impede de observar a realidade do cinema, aqui e no mundo. Como em Corpo de Bollywood: o povo quer cinema, de Raquel Valadares (UFF). O filme vai além de olhar a maior indústria de cinema do mundo (a Índia), mas, a partir dela, observa, com extrema competência e sensibilidade, os contrastes deste subcontinente – especialmente entre a Índia urbana e moderna e a índia rural tradicional. De lambuja, fala sobre as mudanças desta indústria de cinema, de 1948 para cá, bem com o ela se insere de modo simbiótico com a realidade e com o imaginário – e esta parece ser a chave dela para deixar apenas uns 5% de seu mercado interno para a segunda grande indústria de cinema do mundo (uma tal de Hollywood), ficando com os outros 95% para si.

Aliás, não é exatamente isso que o cinema brasileiro busca: ser uma roupa original que caiba no corpo de seu povo, sem precisar ser um paletó americano usado? Caso a pensar.(8)


Escritor e roteirista de cinema, ANTONIO PAIVA FILHO foi editor da revista eletrônica SOMBRAS ELÉTRICAS (http://www.sombraseletricas.xpg.com.br/)



PREMIAÇÃO DO XIII FESTIVAL BRASILEIRO DE CINEMA UNIVERSITÁRIO – 2008

MOSTRA COMPETITIVA NACIONAL

Júri: Beth Formaggini, Cristian Borges, Elyseu Visconti, ("Os monstros de Babaloo", 1970), Heverton Lima (aluno de Cinema e Vídeo da UFF - 5º período), Ian Schüller (aluno de Cinema da Universidade Estácio de Sá - 3º período), Jasmin Tenucci (aluna de Audiovisual da USP - 8º período) e Paula Santos (aluna de Cinema da PUC-RJ - 8º período)

O júri decidiu, por unanimidade, privilegiar as obras que primassem pela ousadia na abordagem dos temas e pelo rigor em sua transposição à tela.

Além dos destaques, o júri resolveu oferecer ainda quatro menções honrosas:

- Menções honrosas:

- Para duas grandes damas da atuação:

Etty Fraser em CORAÇÃO DE TANGERINA, de Juliana Psaros e Natasja Berzoini, da Fundação Armando Álvares Penteado;

Berta Zemel em OS SAPATOS DE ARISTEU, de Luiz René Guerra, da Fundação Armando Álvares Penteado.

- Pelo lirismo e a simplicidade, para PINTINHO, de Rafael Saar, da Universidade Federal Fluminense.

- Pelo frescor e a leveza com os quais experimenta a linguagem audiovisual, para O COELHO – PRÓLOGO: PÁSCOA, de Daniel "Sakê" Madureira, da Universidade Federal Fluminense.

- Pela total falta de vergonha e por já ter nascido um "clássico", para "A BELA P...", de João Marcos de Almeida, da Faculdade Cásper Líbero.

Destaque em Retrato da Realidade Nacional, pela forma como coloca em questão a ética do documentarista e pela complexidade com a qual aborda a questão da cidadania no Brasil, para SOLITÁRIO ANÔNIMO, de Débora Diniz, da Universidade de Brasília.

- Destaque em Pesquisa de Linguagem , pela concisão na adaptação literária, utilizando os recursos audiovisuais de maneira altamente ousada e rigorosa, para [colorado esporte clube], de Fábio Allon, da Faculdade de Artes do Paraná.

- Destaque em Expressão Cultural , pela curiosidade e capacidade de compreender a relevância e a complexidade do cinema no imaginário e no cotidiano de um povo, para CORPO DE BOLLYWOOD, O POVO QUER CINEMA, de Raquel Valadares, da Universidade Federal Fluminense.

- Destaque em Expressão Poética , pela elaboração de um trabalho plástico e sensorial sofisticado para expressar o despertar da sexualidade na adolescência, para O VAMPIRO DO MEIO-DIA, de Anita da Silveira, da Pontifícia Universidade Católica - RJ.

- Destaque em Construção Narrativa, pela precisão do conjunto de elementos cinematográficos na composição de uma dramaturgia plena, para OS SAPATOS DE ARISTEU, de Luiz René Guerra da Fundação Armando Álvares Penteado.

- Destaque em Contribuição Artística, pela excelência na elaboração de um universo fílmico carregado de um clima singular, para CIDADE DO TESOURO, de Célio Franceschet, da Universidade de São Paulo.

- Destaque em Contribuição Técnica , pela qualidade e riqueza na concepção da fotografia, do som, da direção de arte, da montagem, da direção de atores e da decupagem, para OS SAPATOS DE ARISTEU, de Luiz René Guerra, da Fundação Armando Álvares Penteado.

- Destaque pelo Voto do Público, ROMANCE .38, de Vitor Brandt e Vinícius Casimiro, da Universidade de São Paulo.

- Premiado Projeto Sal Grosso, roteiro ÁGUA-VIVA, de Raul Maciel, da Universidade Federal de São Carlos.


MOSTRA COMPETITIVA INTERNACIONAL

Júri: Fernando Coimbra, Tatiana Leite e Carlos Heli de Almeida

- Retrato da Realidade Nacional – HEJ, TOVARISI/EI, CAMARADAS (Eslovênia), de Gregor Bozic. - Akademija za Gledalisce, Radio, Film in Televizijo (AGRFT)

Pela forma como sintetiza o choque entre duas gerações eslovenas.

- Pesquisa de Linguagem – HORMONÁLNÍ AKVÁRIUM/PEIXE E PÍLULAS (República Tcheca), de Tereza Tara. - Filmová a Televizní Fakulta Akademie Muickych Umìní v Praze (FAMU)

Pela originalidade no uso da linguagem cinematográfica na exploração de um tema inusitado.

- Expressão Cultural – ZOHAR (Israel), de Yasmine Novak. - Tel Aviv University (TAU)

Pelo modo que representa a sexualidade feminina dentro da cultura israelense contemporânea.

- Expressão Poética – UNFAMILIAR DREAMS/SONHOS ESTRANHOS (Coréia do Sul), de Jigon Kim. - Dongeui University

Pela peculiaridade do olhar, quase afetivo, sobre a extinção de um grande cinema de rua.

- Construção Narrativa – SECURITY/SEGURANÇA (Alemanha), de Lars Henning - Kunsthochschule für Medien Köln (KHM)

Pela concisão e precisão com que constrói seus personagens e estrutura sua narrativa.

- Contribuição Artística – CONVITE PARA JANTAR COM O CAMARADA STALIN (Argentina/Brasil) , de Ricardo Alves Jr. - FUC-Universidad Del Cine, E MISH'OLIM/CAMINHOS (Israel), de Hagar Ben-Asher. - Minshar For Art, School and Center.

Por revelar dois jovens cineastas com fortes traços autorais.

- Contribuição Técnica – DONG-MOOL-NONG- JANG/A REVOLUÇÃO DOS BICHOS (Coréia do Sul), de Jeong Min-Ji. - Mokwon University

Pela visceralidade na utilização de recursos de animação para externar perturbações do subconsciente feminino.

PRÊMIO ABDeC-RJ

Júri: Antonio Paiva Filho, Douglas Soares e Eveline Costa.

- MENÇÃO HONROSA para “REMO USAI – UM MÚSICO PARA O CINEMA”, de Bernardo Uzeda – CINEMA. PUC-RJ

- PRÊMIO ABDeC-RJ para “OS SAPATOS DE ARISTEU”, de Luiz René Guerra – CINEMA. FAAP

PRÊMIO CACHAÇA CINEMA CLUBE

Júri: João Mors Cabral e Karen Black

- Melhor filme narrativo: O VAMPIRO DO MEIO-DIA

- Melhor filme de futebol: [colorado esporte clube]

- Melhor filme do ocidente: A BELA P...

Troféu ARARIBÓIA (figuraça masculina) – HEVERTON LIMA (UFF)

Troféu DIACUÍ (figuraça feminina) – FLORA DIAS (UFF), realizadora do curta PRAIA DE BOTAFOGO.



NOTAS

(1) Coluna Gente Boa, Segundo Caderno de O Globo, 17 de julho de 2008, pág. 3.

(2) Abaixo assinado on-line, em http://www.abaixoassinado.org/abaixoassinados/826. Destinatário: butecoproducoes@gmail.com.

(3) A 2ª lei de Chacrinha (Abelardo “Chacrinha” Barbosa), parodiando Lavoisier: “Na televisão, nada se perde, nada se cria, tudo se copia”. Pode mudar para cinema, que dá no mesmo...

(4) A fadista “Maria Joaquina Dobradiça da Porta Baixa”, vulgo “A Severíssima”, foi um dos personagens criados e encarnados por Lauro Borges (1901-1967) em seu programa PRK-30, em que ele e Castro Barbosa (1909-1975) atuavam fazendo diversos personagens, além dos seus principais, Megatério Nababo de Alicerce (Castro) e o “porigrota da voz lantijolada” Otelo Trigueiro (Lauro). Programa que parodiava o rádio broadcasting da época, foi transmitido em diversas emissoras de rádio do Rio de Janeiro e São Paulo de 1944 a 1964.

(5) “E o povo já pergunta com maldade / onde está a honestidade? / onde está a honestidade?” (Noel Rosa, Onde está a honestidade? – 1935)

(6) Informação que o próprio diretor do filme, Luiz René Guerra, nos apresenta durante o debate após a exibição do filme, dentro do Programa 5 da Mostra Competitiva Nacional.

(7) Informação do próprio realizador do filme, Guilherme Pinheiro, durante o debate após a sessão. Para quem não se lembra, Rebelde foi mais uma das incríveis (em que sentido, fica a seu critério...) novelas da Televisa importadas pelo SBT, de Sílvio Santos enquanto durou o acordo entre as duas redes de TV. Seu diferencial é ser um High school musical avant la lettre e regado a tequila: falava de um grupo de jovens de um colégio que cantavam... Por conta disso — conta Guilherme — a apresentação da troupe teve que ser filmada de uma só vez, a pedido das crianças, que eram fãs de Rebelde.

(8) “Fica a imagem geral de que os realizadores do Cinema brasileiro são como o personagem principal de O Canto da Saudade, o humilde Galdino, sonhando com seu paletó americano, cobiçado e nunca realmente seu. Um cineasta brasileiro também é um sonhador humilde que tem o Cinema como seu sonho de consumo, seu “paletó americano”, e parece pegá-lo emprestado dos irmãos estrangeiros algumas vezes para uma festa ou ocasião especial. O Cinema nos escapa por entre os dedos e insistimos em correr atrás dele.” SORREL, Sabine. Paletó americano: o cinema como sonho de consumo. Revista SOMBRAS ELÉTRICAS, N° 3 – 2004. Ver link Arquivo (http://www.sombraseletricas.xpg.com.br/).



Escritor e roteirista de cinema, ANTONIO PAIVA FILHO foi editor da revista eletrônica SOMBRAS ELÉTRICAS (http://www.sombraseletricas.xpg.com.br/)