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Atire no crítico







Marcelo Lyra

O Mário Bortolotto deu uma longa resposta a meu texto em seu blog (www.atirenodramaturgo.zip.net). O tamanho mostra que eu não devo estar tão errado, mas reconheço coisas válidas no texto. Pelo que li dos comentários no blog dele, as pessoas querem apenas se divertir com o sarcasmo, nem prestam atenção no que se está discutindo. O mesmo deve acontecer aqui no Cinequanon e eu desprezo esse tipo de leitor. Sou tão sarcástico quanto ele, mas a discussão sobre adaptação teatro-cinema me interessa muito mais. Então, só para chatear esses leitores que vêm aqui atraídos pela briga, não vou responder às ofensas pessoais, só as relativas ao trabalho.

Vou seguir o modelo dele: o que está em itálico é o texto do Bortolotto e o resto em negrito é reposta minha.

“Pesquisei no Google pra saber quem era o cara. Parece que ele faz crítica de cinema pra Revista “Isto É” e também tem um site de “humor” do tipo que faz piadinhas com a história do Ronaldinho, só pra vocês sacarem o nível.”

- Acho errado avaliar meu trabalho de crítico de cinema pela leitura do blog de humor. Mesmo já estando no Google, sequer leu qualquer crítica minha. É o mesmo que, se tivesse seguido no Google e descoberto que sou maratonista (bem mediano, mas sou), dissesse: “O Marcelinho se diz crítico, mas apenas conseguiu chegar em 1.450º lugar nos 10 km da Nike, só para vocês sacarem o nível”. Meu blog não tem nada a ver com cinema. Sacaneio políticos corruptos, famosos que aparecem na Caras, entrevistadores que perguntam olhando para a câmera (tipo Jô, Amaury Jr e cia) e notícias esdrúxulas.

Meu blog é estritamente pessoal. Só entra aqui quem se identifica. Eu acharia muito estranho um sujeito como você se interessar pela minha maneira de ver o mundo.

- Seu julgamento a meu respeito é errado. Eu não desprezo automaticamente quem não concorda comigo. Na verdade, ao longo da vida tenho aprendido mais com quem discorda. Detesto tapinhas nas costas e admiro quem fala o que pensa. Dei uma boa lida no seu blog e gostei, principalmente por ser um aglutinador de pessoas e um difusor de idéias, textos etc.

Pra começar, onde você leu tudo isso? Pesquisou no Google ou é o Milton Neves da crítica cinematográfica? Depois do Google todo mundo virou enciclopédia.

- Se eu precisasse de Google para falar de Coppola, Scorsese, Ford, Wilder, Lang, Murnau e um par de dúzias de mestres básicos, pendurava a chuteira.

Você tem que entender, Marcelinho, é que minha briga é com o roteirista que mexeu no meu texto à minha revelia. Vou repetir: o texto é meu e é por ele que estou brigando. Não estou brigando com o filme.

- O Di Moretti, me parece um bom roteirista. Gosto muito de “Cabra Cega” e de “Latitude Zero” (outra boa adaptação do teatro), dois filmes que não tem nada de “novela da Globo”. Ao mesmo tempo não gosto de “Filhas do Vento” e acho “Vidas de Maria” apenas razoável. Mas o cara é íntegro. Já estive num júri com ele, no festival de Recife. Agora que li bastante sobre você no Google, entendo seus motivos. Vi que não aceita que atores troquem uma palavra por um sinônimo, não gosta que acrescentem coisas sem perguntar antes, por conta de sua preocupação com a sonoridade das palavras, da frase. Achei perfeito isso, mas continuo discordando de você na questão da adaptação. Acredito que uma frase que no palco precisa de determinada sonoridade, no cinema pode ser dita com um olhar, se o diretor ou o roteirista quiserem. Um travelling em direção ao rosto do ator quebra toda a semiologia trabalhada para a distância palco-platéia. Não é possível que você não aceite isso. O roteirista não é um ator da sua peça, e sim um tradutor de uma linguagem para outra. E traduzir é trair. O espectador tem que entender que cinema é uma coisa, teatro é outra. Não faz sentido ficar tão agressivo por uma coisa que é normal.

Porra, Marcelinho, nem vou defender a minha trilha. Ela se defende sozinha. É só ver a cena do personagem Slide se preparando para a luta no final com a música do “AeoZ” ou a própria cena da luta com “Big Stomach“ da Patife Band. Parece até que a música foi feita especialmente para a cena.

- Na verdade, aqui há um mal entendido. A trilha me parece ruim, não pela qualidade das músicas. A questão é a forma como é utilizada no filme. Para mim, muitas vezes é repetitiva em relação ao que está na tela. Em outras é manipuladora. Por exemplo: há várias cenas dramáticas onde a música entra antes, avisando ao espectador que é para entrar no clima dramático. As novelas da Globo fazem muito isso. Música demais não dá chance de sentir a cena só pela direção e o trabalho dos atores. Parece que o diretor não acredita no seu trabalho (ou na capacidade do espectador, sei lá) e usa a música como muleta.

Aliás, vou defender sim. Vou transcrever aqui o que a Belisa Figueiró (da Revista de Cinema ) escreveu sobre a trilha: “A música tem um papel fundamental e, a cada subida da bateria ou da guitarra, temos a certeza de que ela é trabalhada como mais um personagem, e não para impulsionar a história ou para arrancar lágrimas do público. Cuidadosamente, os acordes interferem nas cenas como Bortolotto já tinha testado na peça”.

Pois é, Marcelinho, mas você deve “entender” mais de cinema do que ela, né?


- Esse critério é engraçado. Gostou de você, entende de cinema, não gostou, não entende. De fato, entendo mais que a Belisa sim. Apenas porque estou há quase dez anos na área e ela deve estar há uns dois. Em crítica de cinema, oito anos significam, na minha rotina, uma bagagem de quase três mil filmes (média de um por dia, o básico), dezenas de debates e livros. Na verdade a Belisa é repórter, não crítica.

Marcelinho, você não entende nada de teatro.

- De fato, entendo pouco. Além do teatro ser caro, mal consigo assistir a todos os filmes em cartaz, rever tudo que gosto e/ou preciso em DVD etc.

Teatro é calcado na soma ator-texto-direção-marcação-luz e som. Mas principalmente é a arte do ator. A “grosso modo”, só pra explicar pra você, Marcelinho, já rezando pra que você entenda (já que você só “entende” de cinema), o texto seria a partitura do ator.

- Sarcasmo fora, a definição é muito boa.

Se tivesse visto “Uma pilha de pratos na cozinha” teria visto que eu construo o final da peça com uma cena de 10 minutos sem uma única fala. Eu também acredito nisso. Pra mim, silêncio é texto.

- Isso me interessa muito. Vou procurar esse texto.

Marcelinho, não é possível que você conheça o meu texto. Aliás, também não conhece o roteiro do Di Moretti. Vai ler antes de falar.

- Não conheço, mas o crítico de cinema tem que analisar o que está na tela. A análise fílmica não implica na leitura do livro original, roteiro ou da peça. Pode até servir de contraponto, mas não é essencial. Não interessa se tal peça tinha outro enfoque, era mais enxuta, se tal romance era mais completo. Interessa avaliar o que o diretor quer contar e a forma com que isso está na tela.

As peças que assisti, li o texto e foram adaptadas, como “Barrela, Escola de Crimes” e “Dois Perdidos Numa Noite Suja”, exemplificam bem essa questão das mudanças na adaptação teatro-cinema. Em “Barrela”, para arejar o texto, o diretor Marco Cury ficava o tempo todo mostrando a viatura que levava o preso à cadeia. E depois, tome teatro filmado onde a câmera se movimenta. Em “Dois Perdidos”, as cenas ao ar livre destoavam das internas, evidenciando a enxertia. “Nossa Vida Não Cabe Num Opala” não me deu a sensação de teatro filmado e considero isso um mérito do roteiro e da direção.


O meu texto é essencialmente cinematográfico, até mais do que teatral.

- Não conheço seus textos, mas me interessa conhecer um texto de teatro cinematográfico, vou atrás deste também.

Porque você acha que os diretores andam interessados nos meus textos apesar de saber que sou um puta chato “desbocado”? Não é pela origem teatral dos textos, isso você pode ter certeza.

- Eu não teria tanta certeza. No caso do Eduardo Belmonte, conheço bem a obra dele, incluindo os curtas e li várias entrevistas. É um Diretor de cinema, com D maiúsculo. É impressionante como consegue uma energia visual, e um domínio do que está na tela, com tão pouco dinheiro. Meu “Mundo em Perigo” é um filmão. Se ele se interessou por seu texto, deve ter sido pela qualidade. Ele não teria dificuldade em adaptar um texto não-cinematográfico. Mas é só minha opinião. Aproveito para deixar claro que crítico é apenas um cara que tem espaço para falar o que pensa e assistiu a um pouco mais de filmes que a média das pessoas. Não sei porque valorizam tanto esse rótulo.

Eu que escrevi a primeira versão do roteiro. O que acontece é que depois que o Di Moretti botou a mão, eu pedi pra tirar o meu nome dos créditos. Não posso deixar que alguém pense que eu escrevi um diálogo tão ruim.

- Olhando de fora eu diria que, se a primeira versão do roteiro de “Nossa Vida Não Cabe Num Opala” fosse bom, o diretor não teria chamado um roteirista para refazer tudo. Mas pode ser também insegurança do diretor, pelo que se deduz da maneira como usa da música no filme. Teria que ler o seu roteiro. De qualquer forma, para quem é do ramo, tirar seu nome dos créditos deixa claro que você não é responsável pelos diálogos finais. Se eu fosse escrever uma crítica ao filme, colocaria algo como “O autor da peça retirou seu nome dos créditos por discordar de alguns diálogos acrescentados à sua revelia”. Ponto.

Ando escrevendo roteiros para cinema, para desespero de críticos que “entendem” muito de cinema como você.

- Continua equivocado. Um cara que escreveu o roteiro de “Meu Mundo em Perigo” sempre vai ter minha atenção, por mais que saiba que considera minha opinião insignificante. Também ando escrevendo roteiros e pensado muito nessa questão da adaptação.

E cinema pra mim também começa no texto, é claro. Vai dizer pro Woody Allen que não é assim. Ou pro Domingos de Oliveira.

- É sintomático você só citar justamente Woody Allen e Domingos Oliveira, cuja principal característica é que são mais voltados aos diálogos que às imagens. Em boa parte do tempo, são diálogos filmados, com belas exceções em alguns momentos, claro. Compare com o Karim Ainouz, ou com o Sérgio Leone, que investem muito em silêncios, achados visuais. Nem vou falar nos asiáticos, como Kim Ki-Duk, Tsai Ming-Liang, que são quase essencialmente visuais.

Só para ficar claro, adoro o Allen, assisti a todos os seus filmes mais de uma vez. Não há problema em se interessar mais pelo diálogo. Estamos discutindo adaptação teatro-cinema, literatura-cinema.


Você não é ingênuo e sabe muito bem que uma mão chilena pode muito bem lavar uma Argentina e assim por diante. Troca de favores entre países não é novidade pra ninguém.

- Já fui júri no mesmo Cine Ceará em 2006 e afirmo que não há a menor possibilidade de se propor qualquer coisa que não seja o simples julgamento do filme, ainda mais para um estrangeiro. Já fui júri em Portugal e sei que, quando se está fora do país, há ainda a responsabilidade extra de estar representando o próprio país.

Para encerrar, concordo com você em mais uma coisa: se essa polêmica ajudar minimamente a alavancar o filme, ótimo. “Nossa Viva não Cabe num Opala” pode ter os problemas que citei, na montagem e na trilha, mas tem coisas interessantes e não é um filme ruim. Gosto particularmente da direção de atores. Milhen Cortaz, em particular, dá uma verdade impressionante ao personagem dele, e a relação dos personagens com seu meio na formação do caráter de cada um me fizeram pensar bastante no filme.




Marcelo Lyra é jornalista