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“Menina de Ouro”: a Academia escreveu certo por linhas tortas











Cid Nader

Ao ler uma crítica a respeito da última obra de Clint Eastwood , “A Million Dollar Baby”, percebi, novamente, como qualquer consideração, interpretação é derivada do momento, da má vontade, do pré-conceito como a olhamos, dos olhos com os quais a vemos.

Pareceu-me que este crítico teria visto o filme com os olhos dos seus circundantes de sala de cinema ou já prevenido por informações de outros sobre as reações e motivações de parte do público que lotava as sessões. Nesse momento, percebi (talvez pretensiosamente) como uma obra complexa, sensível e diversa pode receber os louros, ovações, merecidíssimas, por sinal, por um entendimento, compreensão, simplificado de sua grandiosidade. É mais ou menos como ouvirmos a gravação de uma orquestra em som mono ou pior, somente através de um canal de som; o que obviamente faz com que fiquem desperdiçados os infinitos acordes e sons específicos.

No caso de “Menina de Ouro” houve uma corrida aos cinemas devido ao “melodramaticismo anunciado”, o da história de uma garota pobre, sofrida, trabalhadora e sonhadora no seu leito de morte. Mais: da possibilidade do público poder torcer, interferir pela abreviação de seu carnal sofrimento. Compreensão mono. O filme é tão maior! São no mínimo três personagens e suas vidas. E tudo é mostrado, filmado e editado de maneira tão sóbria, tão avessa ao dramalhão. As imagens tão poéticas e elucidativas, a música contida e apropriada e a narração, bem a narração...

As obras de Clint são tão grandes e pouco apelativas! Estão próximas da simplicidade total e tem um andamento tão calmo - algo dificílimo de se conseguir com uma câmera na mão e com a possibilidade de se exibir ao mundo, mal que atinge tantos cineastas e até alguns veteranos. Na obra de Clint, essa opção não raro, atinge o status de genialidade.

Voltando especificamente ao filme e ao fato de alguns o assistirem tendo aberto um só canal de compreensão. Se obrigatório fosse, se não existissem outros seres no filme, se, se, se... teríamos então como eixo central da história o personagem vivido por Clint Eastwood . Homem que errou - quem não? – e que carrega culpas não tão facilmente compreendidas. Homem que se martiriza e que questiona (ao padre, à Igreja e a Deus), que ante a possibilidade de tomar as rédeas e conduzir um novo destino reluta, tenta fugir e cede. Cede e conduz; se afeiçoa e se apossa. Sempre temendo e pressentido, conduz. E o imponderável age – será? Continua a agir. E por sua culpa, os demônios ressurgem – como não lembrar que toda a tragédia é precedida por uma ordem sua: “Soque o fígado dela por trás, pois o juiz não verá”.

Conduzir destinos não seria o papel do Deus tão questionado por ele? Tirar a vida não seria uma especificidade divina? Um ser absolutamente angustiado tendo de decidir como se fosse Deus.

Se resolvêssemos ver o filme por um só “canal”, por um só personagem, não teria que ser pelo dele? Eastwood nos oferece muito mais. Todos, no filme, têm razão de ser, de existir.

Para encerrar: a Academia teria com todo seu peso e lerdeza captado as sutilezas do filme? A premiação teria sido atribuída pelo real merecimento da complexidade da obra? Ouso imaginar que não. Que a academia tenha se agarrado ao suposto dramalhão, ao entendimento superficial, que foi motivador do comparecimento de boa parte dos adoradores da história e da crítica que motiva esse ensaio. Ouso dizer que a Academia premiou certo por linhas tortas.


Cid Nader
é jornalista por formação (Cásper Libero), cozinheiro por profissão e cinéfilo por opção, adoração e devoção. Freqüenta a Mostra assiduamente desde de 85 e esporadicamente desde 1979 (para assistir os filmes polêmicos que só a Mostra exibia, como “Império dos Sentidos”, “Calígula” etc). Atualmente não tão pervertido, aponta como filme preferido “Comédia de Deus” de João César Monteiro.