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Meu ego não cabe num opala









Marcelo Lyra

Não sei se alguém lê o blog do dramaturgo Mário Bortolotto (http://atirenodramaturgo.zip.net), um desbocado que lembra a toda hora que não tem papas na língua. Eu não leio, por falta de tempo, mas recebi (via Almanaque da Rosário) o post onde ele detona o roteiro de Di Moretti, que adapta a peça “Nossa "Nossa vida não vale um chevrolet"”, de autoria do Bortolotto. Falar o que pensa e bater pesado parece uma boa estratégia de marketing, pois volta e meia lhe garante espaço na mídia, inclusive este. Num meio cultural onde predomina o politicamente correto, onde todo mundo puxa irritantemente o saco de todo mundo, até seria saudável ter mais gente assim. O problema é que pensar apenas no marketing acaba fazendo, mais cedo ou mais tarde, os pés se meterem pelas mãos.

Achei o texto particularmente excessivo e injusto com Moretti. Pode fazer parte do show de Bortolotto, mas me parecem necessários alguns poréns. Para começar, ele afirma que tem vergonha do roteiro e que foi chamado pelo diretor para participar da edição, onde tratou de cortar impiedosamente os diálogos ruins e piegas. Isso teria salvo o roteiro e feito com que Moretti ganhasse o prêmio de melhor roteiro no Cine Ceará. Graças a ele, o filme estaria enxuto, embora ainda há anos luz da qualidade do texto original. Detalhe: é no mínimo curioso um diretor impor a seu montador (Wilen Dias, de “Crime Delicado”) não apenas suas vontades, mas a de um dramaturgo.

O fato é que montadores mudam a ordem dos roteiros e cortam dezenas, até centenas de planos de filmes há pelo menos cem anos. É sua função. Há exemplos aos milhares, mas para se ter uma idéia, é só comparar a versão dos montadores de “Apocalypse Now”, lançada em 1979, e a versão do diretor, “Apocalypse Now Redux”, lançada em 2001, que tem 50 minutos a mais. Imagine Walter Murch ou os outros quatro montadores reclamando da indicação de John Millius ao Oscar de roteiro. Ou dizendo que cortaram as pieguices de Francis Coppola.

Em resumo, qualquer editor sabe que nenhuma montagem tira o valor do roteiro. Ela é um componente do filme, assim como a direção de arte, a interpretação ou a fotografia. É inimaginável pensar num fotógrafo egocêntrico ao ponto de reclamar que algum diretor ganhou um prêmio de melhor filme às suas custas. Detalhe importante: os montadores cortam não o roteiro, mas o material filmado pelo diretor, que raramente é igual ao roteiro. Ou seja, os cortes impiedosos atingiram cenas que o diretor achou importante filmar.

Deixo claro que não gostei muito de “Nossa Vida Não Cabe Num Opala”. Achei a montagem ruim, especialmente nos pequenos malabarismos temporais, que parecem mais brincadeiras com os recursos do Final Cut (programa de edição), pois não têm função narrativa. Lembram certas montagens de publicidade. O mesmo vale para a trilha sonora, ora redundante, ora manipuladora, quase sempre excessiva.

Pelo que se deduz de seu blog, Bortolotto não entende porra nenhuma de cinema (para usar uma expressão dele). Fica clara a ignorância em relação às necessidades específicas que qualquer adaptação do teatro para o cinema requer, simplesmente por se tratarem de linguagens diferentes. Na comparação entre as duas artes, pode-se dizer a grosso modo que teatro é calcado no texto, enquanto o cinema é calcado na soma imagem-texto.

Na maioria das vezes a imagem é mais forte. Há filmes do cinema mudo, como “A Última Gargalhada”, de Murnau, em que não há uma única cartela de texto e entende-se tudo que se “diz”. Na adaptação do texto teatral para o cinema, mais do que nunca, menos é mais. Para sair do palco e ganhar movimentos de câmera, é comum que o roteirista acrescente cenas e diálogos, de modo a fazer o elo, preencher lacunas entre teatro e cinema. É justamente aí que reside a qualidade do roteiro de Di Moretti. Independentemente de se gostar ou não do filme, o que se vê na tela é cinema. O filme é arejado, tem vida e movimentação para além das três paredes do teatro. Raras vezes se percebe a origem teatral.

Mas o dramaturgo parece não aceitar que toquem em sua obra. Parece mais uma questão de ego, já que evidente que ele queria muito ter escrito o roteiro. Deduzo que certamente resultaria em teatro filmado, pois no mesmo texto do blog ele diz que após seus cortes impiedosos, “ficou um texto enxuto”. Ou seja, para ele cinema é texto, é teatro.

Até aqui tudo bem. Autor de livro ou peça não entender nada de cinema e estrilar com a transposição é coisa que se tem notícia desde os tempos do cinema mudo. E é um direito legítimo. O que me incomoda mesmo no blog é a insinuação de brodagem (panelinha, máfia ou o que seja) na premiação, já que Moretti seria um figurão, presidente do sindicato dos roteiristas. Deixando de lado a contradição (o prêmio não era devido aos impiedosos cortes dele na edição?), é aí que o vale-tudo da pequenez de Bortolotto se emaranha de vez. O Cine-Ceará é um festival ibero-americano e, como convém a um evento desse tipo, teve o júri oficial composto por cinco pessoas: um cubano, um espanhol, um chileno, um argentino e apenas um brasileiro. Dificilmente haveria brodagem em favor de um roteirista brasileiro.

Assim, as afirmações do Boquirrotto entram para o longo anedotário do cinema brasileiro, no mesmo verbete da recente declaração de um dos membros do Casseta & Planeta, para quem “Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro”, de Glauber Rocha, seria uma merda. Qual verbete? Ignorância cinematográfica.



Marcelo Lyra é jornalista.