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Tropa de Elite: Cosmética do trapo













Érico Fuks

Em debate realizado após a tumultuada pré-estréia de “Tropa de Elite”, em São Paulo, o diretor José Padilha fez um discurso de apresentação, baseado em suas vivências acadêmicas pelas Ciências Exatas, pelas Ciências Humanas e pelo Cinema. Suas proposições concluem, resumindo, que as manifestações artísticas não dão conta de reproduzir a realidade sem que haja perdas e vernizes mais subjetivos. Indo por esse caminho, o diretor deixou bem claro que seu polêmico filme não tem a intenção de ser um retrato fiel do que ocorre com as instituições policiais e o dia-a-dia dos morros e das favelas cariocas. Houve sim um embasamento em livros, tratados antropossociológicos, depoimentos reais de profissionais diretamente ligados a esse cotidiano, aliado ao imaginário coletivo de que é na urbe do Rio de Janeiro que se defecam todas as falcatruas desse imenso e pútrido planeta Brasil. Esse esclarecimento serviu de preâmbulo para Padilha reiterar que o filme, ali como foi projetado ou pirateado, não é reacionário em si. A narrativa, conduzida pela voz em off do personagem Nascimento, é que expõe elementos de um discurso protagônico que pode ser considerado fascista numa leitura distante e posterior que se pode fazer da obra. Em última instância, para se eximir de qualquer culpa sobre possíveis acusações e leviandades, afirma-se que reaça é o soldado Nascimento. Sérgio Rizzo, mediador do debate e crítico da Folha de São Paulo, complementou sobre a necessidade de se diferenciar discurso de protagonista e visão de mundo de diretor. De fato essa confusão mental, se não generalizada, é no mínimo recorrente no público brasileiro. É comum, em documentários, por exemplo, considerar o filme bom devido à empatia, carisma e fluência do objeto-título. Não foram poucas as vezes que ouvi que “O Homem Urso” (Herzog) é um filme chato porque a figura central foi considerada chata. Já em “Santiago”, o apreço e a receptividade que se tiveram ao trabalho de Moreira Salles deve-se mais à idiossincrasia peculiar do mordomo do que aos métodos de resgate de se trabalhar a metalinguagem de um produto refeito. História e atores ganham os altos-relevos, enquanto que os mecanismos gramaticais que regem a película são jogados para segundo plano.

Ainda sobre esse assunto, Rizzo apontou generalizadamente que, nos casos de certas avaliações preconcebidas, há talvez uma miopia estética e/ou falta de cultura cinematográfica. Desembaçar a vista dos noticiários sensacionalistas ou de qualquer ideologia carregada no peito antes de se assistir a “Tropa de Elite” é, portanto, uma tarefa essencial. Rizzo completou seu raciocínio com uma paródia interna da categoria profissional, batizada de “cosmética da crítica”. Como o filme “Cidade de Deus” – que na época ganhou debates chamados de “cosmética da fome” – foi comparativamente mencionado no debate, essa alusão irônica foi pertinente. Mais uma vez, ponto para o mediador. A crítica brasileira atual, ou pelo menos parte dela, sofre de um certo criticismo. Existe uma vontade de se analisar o que não está na tela. Muitos profissionais ou aspirantes deixam-se levar por falsos silogismos ou teorias e visões pessoais de mundo que não encontram um ponto de contato com a obra. É claro que não existe a fórmula ideal para um texto crítico. O que se procura fazer para esquentar um artigo e deixar o trabalho o mais consistente e persuasivo possível é buscar o ponto de equilíbrio entre os conceitos e fundamentos cinematográficos canônicos e o vigor subjetivo e impressionista das vivências particulares. É por isso que “cosmética da crítica” ganha um tom pejorativo nesse contexto. Existe a sensação de que, por falta de um mergulho mais profundo e direcionado ao específico, pululam análises superficiais e envernizadas de tratados antigos.

Foi essa deixa que permitiu a Padilha chegar ao ponto. O diretor comentou, com um certo tom ressentido de deboche, sobre um debate realizado no Rio de Janeiro, com a presença de alguns críticos. De acordo com ele, o pequeno grupo foi unânime e taxativo ao considerar que “Tropa de Elite” é um filme fascista. Cada um expôs um determinado argumento, desde a citação de enquadramentos até a escolha da música. Padilha defendeu-se de cada um deles, apontando que escolhas estéticas e motivações ideológicas, naqueles exemplos, não tinham qualquer correlação. A escolha da música homônima “Tropa de Elite”, do grupo Tihuana, ao invés de induzir a um raciocínio manipulatório, nada mais foi do que o resultado estatístico de uma pesquisa informal que o diretor fez com alguns soldados do batalhão, que disseram ouvir esta canção no rádio do carro antes de iniciar a ação nos morros.

“Tropa de Elite” não é um filme-problema no seu potencial sofista de se levar a acreditar em um discurso reacionário, mas a atitude defensiva do diretor talvez seja. Padilha não tem que provar nada a ninguém quanto às suas convicções políticas. Do ponto de vista estético e dramatúrgico, o filme fecha-se nele mesmo. Em tese, não há mal algum em se concretizar um projeto com subtextos mais conservadores. “Valente”, novo filme do diretor Neil Jordan, que o diga. Ali se coloca às últimas conseqüências, com todas as hipérboles narrativas que lhe cabem, o ditame de se fazer justiça com as próprias mãos. Há de se convir que o discurso da chamada “elite das esquerdas” enfraqueceu nessa década globalizada. No Brasil, um sistema de Estado corrupto e inoperante serve de prato cheio como pano de fundo para produções hollywoodianamente mais armadas, mais selvagens e mais retrógradas.

Ainda que Padilha tenha encontrado os escudos certos para os ataques da facção leninista dos críticos de cinema cariocas, seu controverso filme é sim reacionário. Mesmo que a opção morfológica musical de se tocar Tihuana e Titãs seja mera conseqüência de uma coleta despretensiosa de relatos verídicos. De fato, Tihuana não é uma questão no filme, mas R.E.M. é. Colocar a música “Shiny Happy People”(pessoas alegres e reluzentes) embalando uma festinha particular da classe média carioca, os chamados consumidores recreativos de drogas, demonstra um rigoroso e convicto posicionamento ideológico do diretor. Fazer uma rapa social, uma limpeza biológica nos becos e nas cancerígenas instituições militares faz parte do discurso do personagem Nascimento. Mas será que a retratação dantesca e felliniana dos policiais corruptos no treinamento (bem como sua conseqüente desistência) da Tropa não é uma interpretação partidária do diretor? A platéia riu geral. E dar gargalhadas do colega que “amarelou”, confinado num método de aperfeiçoamento (que nem em Israel se pratica, segundo a voz de Nascimento) tático-militar certamente não foi o registro estatístico de nenhuma pesquisa informal.

Padilha vê como um erro associar a sua imagem cidadã à concordância e conivência com a narração do personagem de Wagner Moura. Entretanto, é equívoco afirmar que ele se destitui incólume de qualquer analogia nesse sentido. A burguesia carioca, a verdadeira elite das tropas econômicas, políticas e jurídicas desse país, é colocada no filme chapada o tempo todo. Parece que os personagens não têm voz própria. Diminuir a sua importância cênica é uma escolha que vai ao encontro das declamações rancorosas de Nascimento, que considera que esses “playboys”, hipocritamente pacifistas e distribuidores do mato alucinógeno nas universidades, sejam os verdadeiros financiadores do narcotráfico. Outro ponto é que a narração em off do protagonista é um caso raro em que a palavra se sobressai em relação à imagem. O soldado Nascimento leva uma vida modesta, é truculento e sangue ruim. Sua única demonstração de erudição é apresentada no treinamento, quando se ampara em um caderninho para pronunciar o termo “estratégia” em diversos idiomas. Difícil acreditar que os tons excessivamente carregados de vermelho do início do filme sejam resultantes de um processo de finalização feito às pressas para tentar combater a pirataria. Naquele ponto, a cor escarlatina e o ritmo frenético são ideológicos do diretor. Já o poeta Nascimneto, aquele que costura as cenas com sua delicada e melíflua voz em off, tem uma impressionante capacidade de organização de idéias e uma absurda coerência em relação ao caótico estado das coisas. Não seria essa doce fala um mecanismo facilitador de empatia simbiótica entre personagem e público? Não foram raros os casos no debate em que alguns espectadores e palestrantes confessaram seu mea culpa por “torcerem” para o super-homem Nascimento.

Apresentar um esquema organizado fétido que deixa a maioria da população indignada e impotente só tem a contribuir para a viabilização das convicções de Padilha. A narração dá conta de um controle fictício da situação. Enquanto a polícia continuar suprindo o narcotráfico com armas pesadas (usadas somente na guerra; qual guerra?), e enquanto os líderes das gangues continuarem pagando as propinas aos milicos, nada poderá desestruturar a roubalheira institucionalizada. Contudo, o início do filme começa tenso. O BOPE é mostrado como uma entidade acima da lei. A Tropa de Elite é maior do que a polícia, gigantescamente maior do que o indivíduo, e existe para corrigir as cagadas que ela faz e não dá conta de resolver. Nascimento, sobrenome que condiz com a gravidez de sua mulher, entre o nascimento (de seu rebento e do líder da tropa que irá substituí-lo) e a morte (do colega de profissão, dos bandidos, dos mauricinhos maconheiros, das instituições), é o justiceiro, o salvador da pátria. Numa deliberda licença poética e anagramática em relação ao substantivo-título, a humanidade dentro do sistema é constituída de farrapos humanos. Porém, Nascimento está acima dessa condição. E o lettering inicial rousseauniano de que todo indivíduo nasce bom por natureza não se sustenta pelos desmembramentos do filme. “Tropa de Elite” mostra-se determinista por apresentar a necessidade de se mudar o atual estado das coisas, mas não muda. Aniquila os cancros sociais, mas deixa os lampiões da justiça se proliferarem e viverem em paz, ainda que com seus conflitos internos cefalálgicos.



Érico Fuks é um dos editores do Cinequanon.art.br