Fonte: [+] [-]

Controle e vontade











Louis Kodo

Não se tem, é claro, qualquer controle sobre a história em que se é jogado e muito menos o poder sobre os lances que farão um dado indivíduo sobreviver ou cair esgotado sob o que está além de suas medidas. Sempre se está à deriva das intrigas que se processaram no passado e que atribuem, no presente, as causas que nos farão orar, gozar, ou morrer. O que aconteceu sempre ecoa no presente como um belo foda-se! Este é o caso da Rússia e de tantos outros países.

Como cenário do filme ‘O Pequeno Italiano’, do diretor Andrei Kravchuk, a Rússia aparece sobre a plenitude de uma experiência desgraçada. Mas, não há nada de novo nesta representação; a desgraça é o fruto mais comum do século passado. E as crianças, óbvio, suas maiores vítimas. Crianças miseráveis? Caramba!! Este tema poderia ser sobre chineses, sobre todos nós aqui na América Latina, ser sobre o continente africano, o Oriente Médio, o Camboja etc.

A história é bem simples: abandonado por sua mãe em um orfanato, Vanya Solntsev (Kolya Spiridonov), uma bela criança, vive o peso das dificuldades que caem sobre sua pequena rotina. Sua diferença: ele vive um processo de adoção/tráfico e vale 5000 euros. E essa diferença só o afeta porque ele ousa... Para as outras crianças, que nada valem, o futuro de Vanya surge como um duro sinal de que elas permanecem presas, ao acaso de uma sorte nada benevolente. E os adultos que rolam à sua volta, pelejam para tomar-lhe a vida e negociá-lo... com uma família italiana. Se isso ocorrer, ele estará supostamente salvo do inferno. Mas, não há inferno. O orfanato é comum, notavelmente pobre, nem por isso um lugar que se presentifica sobre o ódio; há amor por ali.

O pequeno italiano transita por todas as relações: da ‘cosa nostra’ dos internos mais velhos à cobiça do diretor e de alguns agenciadores. Às vezes apanha, às vezes sai como um vencedor. E o seu despertar para a sua jornada se dará com a dor de uma mãe desesperada, que vai até ao orfanato à procura das sombras de seu filho, já que ela sabia que ele não estava ali. Porém, nada de heroísmo!! O pequeno Solntsev é o que é. E mesmo tão jovem já manifesta a intransigência de um velho. Querer, no seu caso, não é se entregar à sorte e permitir que o acaso o deixe jogar. Não!! Ele joga seus dados. Quer certas chaves e faz de seu sonho - reencontrar sua mãe - o seu apontamento. Se precisar aprender a ler, aprenderá; se precisar de dinheiro, ele o obterá, mesmo que tenha que roubar de seus supostos amigos. Nada lhe importa, a não ser o que escolheu. E será está escolha que o jogará numa jornada repleta de pequenos acidentes.

A paisagem acinzentada, a neve suja, o excesso de umidade e frio, as velhas casas e os velhos carros, tudo como sobreviventes de algum grande desastre, criam uma atmosfera de decadência. E situando um ar bucólico, repetidas vezes o diretor - Andrei Kravchuk - nos coloca sob a densidade do olhar do pequeno Solntsev, numa atmosfera minuciosamente íntima, que de dentro ausculta lá fora, sobre o parapeito de uma janela. Aonde ele vai? A um pensamento cuja ousadia o conduz a encontrar aquilo que resulta de seu amor.

Sendo perseguido por uns, ajudado por outros, Vanya se põe a caminho. Há uma mãe à sua espera? Tudo está do outro lado do que conhece. Mas as surpresas são-lhe meras formalidades; ele é uma criança habilidosa. E teve uma boa escola: os anos e o aprendizado no orfanato. E não será ludibriado!! E quando tudo parece perder-se, já que ele cai sobre as mãos de um de seus perseguidores, sua bela natureza e as razões que o movem, levarão o suposto malfeitor a descobrir-se estranhamente humano, e a permitir-lhe o encontro com o seu possível sonho.

Enfim, um filme sem estranhamentos, até mesmo previsível, extremamente comedido. Sua virtude não está em considerar o fato da miséria ou de tamanho empobrecimento – que é a de todos nós, em qualquer lugar. Mas, o de colocar sob as mãos de uma criança o capricho de uma tal vontade, que nós homens velhos já abandonamos. Como iniciei este texto, não se tem é claro, qualquer controle sobre a história, mas é bem possível mandá-la à merda e assumir, sobre uma volição incomum, a nossa própria salvação... como o faz o pequeno Vanya Solntsev.



Louis Kodo é professor universitário, filósofo e autor do livro "Blefe: o gozo pós-moderno", lançado pela editora Zouk.