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O Cinema na Guerra e a Guerra no Cinema











Vanda Serizawa

“A Conquista da Honra” e “Cartas de Iwo Jima”, de Clint Eastwood reacendem debates sobre o tema na filmografia norte-americana.

Os assuntos recorrentes de guerra como nação, fronteira, pátria e morte são em geral, perigosamente carregadas de imagens e discursos para legitimá-la. Não por acaso, o cinema tem o status de um dos mais relevantes instrumentos de estratégia na II guerra mundial.

Recuando para 1938, Olympia, de Leni Riefenstahl vence o Festival de Veneza (na época, o prêmio Copa Mussolini), manobra que indignou membros da organização que decidem criar em Cannes um festival com caráter mais independente.

No ano seguinte, Goebbels e o ministro da cultura da Itália inauguram a VII Mostra de Veneza, onde reafirmam o papel vital do cinema na cultura e propaganda. Lá, até 1942, só a “Germania” arrebatava o prêmio de melhor filme estrangeiro.

Se a História Oficial é escrita pelos vencedores, nos filmes o traçado histórico dependerá das escolhas do diretor.

Nesse sentido, nem aos documentários podem-se auferir a chancela de imparcial. O objeto ou o sujeito retratado, o enquadramento e a edição final entre outros elementos são seleções/manipulações decorrentes do conceito do autor. Como diria Orson Welles, “É Tudo Verdade”, tais as variações de leitura.

É natural que existam diferentes níveis de intervenções. Não se trata de jogar na mesma vala pontos de vista e peças (que não chamarei aqui de obras) com propósito de distorcer um fato.

A II guerra foi o episódio mais representado e analisado nas telas não só pelo seu significado e pelos desdobramentos dessa ordem político-social que afetou territórios e o comportamento de diversas sociedades, mas sobretudo para os Estados Unidos configurar-se como líder (do bem) mundial.

Hollywood foi pródiga na produção de filmes com conteúdo ideológico seja para elevar o moral de suas fileiras, receber o apoio da população ou justificar ataques e invasões ilícitos (pela lógica da guerra). Com ufanismo embalado pelos hinos marciais, exaltava seus combatentes como heróis civilizados contra um inimigo bem aparelhado, violento e cruel. Nas comédias, o mesmo oponente era apresentado com ironia e chacota, o establishment explorava a sua posição de libertador de povos. Essa matriz perdurou até o final da Guerra Fria. De alemães e japoneses, os adversários passam a ser os russos, chineses...

Os filmes exibiam a vitrine do american way of life. Não eram filmes de guerra, mas subliminarmente promoviam a cultura e o ideal americano para contrapor ao modelo soviético. As casas e suas garagens sintetizavam o padrão de modernidade e conforto; a Coca-Cola, as calças jeans, os óculos tipo ray-ban foram os produtos mais assimilados por jovens de outros países; as trilhas sonoras (o rock e outros gêneros musicais) influenciaram legiões.

A indústria cinematográfica também foi um importante agente de difusão da língua inglesa.

Se o cinema divulgou a América como expressão de liberdade e democracia, os sets na era macarthista foram alvos do HUAC que apontaram sua rota de perseguições contra atores, roteiristas e diretores suspeitos de anti-americanismo. Artistas e intelectuais foram personagens cruciais para trazer à luz os intrincados “códigos” elaborados nos bastidores do sistema.

Em outro contexto, a invasão das tropas ianques no Vietnam encontra uma forte indisposição do cinema ao mainstraim. A guerra deixa de ser glamourizada. Muitos títulos vieram na esteira dos protestos dos cidadãos contra o envio (e perdas) de seus soldados.

Evidente que há um repertório de filmes sobre o período de “caças às bruxas”, mas os de crítica ao Estado que abarcam os assuntos de guerra foram bem mais contundentes em relação ao Vietnam.

Eis que agora surgem “A Conquista da Honra” e “Cartas de Iwo Jima”.

“A Conquista da Honra” preenche a lacuna não pelo argumento incomum, mas por ser uma obra impecável em todos os sentidos. Já com “Cartas de Iwo Jima”, Clint Eastwood transcende a ótica do front. O olhar que o diretor empresta-nos é o oposto do olhar estrangeiro que vê o outro como bom selvagem. Difícil não associarmos o filme ao nome de Donald Richie que é considerado no Japão, o maior especialista em cultura japonesa. Para eles, só um estrangeiro com tal erudição e acuidade poderia captar determinadas peculiaridades, normais demais para serem percebidas pelos próprios.

Ele que foi como datilógrafo nas forças americanas de ocupação conheceu e vivenciou momentos importantes com personalidades da literatura, dança, música, artes plásticas, teatro e... cinema: Ozu, Kurosawa, Oshima, Toshiro Mifune, etc e é hoje um dos maiores críticos de cinema japonês.

Se nossa identidade se constrói pelo diferente para saber quem somos, “Cartas de Iwo Jima” é a busca da nossa identidade ocidental. Por esse labirinto de camadas complexas que Clint Eastwood permeia. O peso da herança cultural, ou seja, a lealdade irrestrita dos súditos ao imperador não é vista de forma estereotipada. Cada indivíduo absorve de modo diverso a esse Código de Honra. “Cartas de Iwo Jima“ é um filme de guerra, mas é muito mais sobre homens e suas idiossincrasias.


Vanda Serizawa é cinefila e integrante da Confraria Lumière, lista na internet que congrega cinéfilos de todo o país.