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Viva a Boca do Lixo - Meus Homens, Meus Amores














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Meus Homens, Meus Amores            (publicado: 09/2014)


Por Gabriel Carneiro

Por diversas vezes, um elevador de um prédio residencial é o centro de Meus Homens, Meus Amores. Lá, encontram-se, ocasionalmente, Miriam e Ana, vizinhas que apenas se conhecem de vista e trocam, naquele espaço, palavras e gestos de gentileza, ainda que resvalem em problemas e situações ordinários – gripe, festa, viagem. É uma cumplicidade serena e mundana, típica da grande metrópole, que transforma o ambiente público restrito – o do prédio residencial – num ponto de impessoalidade. O elevador, descobrimos também, é o espaço da normalidade, ou melhor, o espaço em que Miriam e Ana podem se sentir normais, comuns, sem grandes aflições ou consternações.

Miriam e Ana, as vizinhas que pouco se encontram, protagonizam Meus Homens, Meus Amores, segundo longa-metragem escrito e dirigido por José Miziara, também lançado em 1978 – meses depois do estrondoso sucesso e sua obra-prima O Bem Dotado – O Homem de Itu (1978). Egresso do circo e da televisão, Miziara trabalhou muito como ator, antes de estrear na direção. Sua carreira no meio artístico começou nos anos 1950. Apenas em 1976, faz seu primeiro trabalho como diretor para cinema, com o episódio O Furo, do longa Ninguém Segura Essas Mulheres, única incursão dos Estúdios Silvio Santos na telona. Na Boca do Lixo, Miziara ainda faria Embalos Alucinantes – Troca de Casais (1979), As Intimidades de Analu e Fernanda (1980), Os Rapazes da Difícil Vida Fácil (1980) e Pecado Horizontal (1983), entre vários outros, antes de voltar para televisão, como ator regular do programa “A Praça é Nossa”.

Mais conhecido por suas comédias de costumes, Miziara era também um competente diretor de melodramas. Meus Homens, Meus Amores, provavelmente um de seus filmes menos conhecidos, filia-se a esse segundo gênero. Se o elevador é mostrado como o ponto de neutralidade na história, é só pra explorar a verve trágica de duas mulheres que tentam se encontrar dentro de uma sociedade opressora para com a figura da mulher. Miriam, interpretada pela cantora Rosemary, é a jovem que cresceu ouvindo de sua mãe, uma religiosa fervorosa, que não aceita qualquer incursão sexual de sua filha, como uma moça direita deve se comportar. Traumatizada, Rosemary é confrontada pelos desejos, mas sem saber como lidar com eles – externando-os em seus desenhos -, e se sentindo ameaçada por qualquer aproximação masculina. Apenas um antigo amigo (John Herbert) do falecido pai consegue provocar nela algum fascínio. Ana (Sílvia Salgado), por sua vez, é a mulher sem pudores, mas que é constantemente cerceada pelo marido muito mais velho (Roberto Maya), sujeito que não lhe dá liberdade alguma (como ver as amigas, ir em festas, estudar e trabalhar fora etc).

A impessoalidade da metrópole – personificada pelo elevador – aproxima e afasta Miriam e Ana. Se, como já dito, aquilo lhes traz um senso de normalidade, afasta-as como mulheres que sofrem do mesmo mal, por mais que elas, como indivíduos, sejam diferentes. Casta, Miriam não consegue se relacionar socialmente. Ela deve carregar o peso da crença de sua mãe, um tanto atrasada e bastante moralista. Tem um caminho a seguir – e desviar-se dele é uma afronta à própria existência da mãe. Ana também sofre com o moralismo e a crença do marido. Não a religião da mãe, mas o puro e simples machismo, em que o homem soberano é livre para o que quiser, cabendo à mulher servi-lo. Em determinado momento ele brada que para ficarem juntos, ela deve ser uma mulher do tempo dele – e não do dela, jovem e libertário.

Miziara, como bom contador de história, compõe a trajetória de ambas paralelamente, construindo bem as personagens e apontando para a evolução dramática da trama. O cineasta acena para uma questão maior: nada é pior do que o cerceamento da liberdade individual, não importa sob qual aspecto. Miziara sempre foi ousado tematicamente. Ao longo de seus filmes, trabalhou tabus diversos, como o sexo livre, a troca de casais, o lesbianismo, a prostituição, entre outros, em histórias hiperbólicas sim, em que tudo é levado às últimas consequências, mas com abordagem desmistificadora. É o mesmo caso em Meus Homens, Meus Amores, que tem esse título quase irônico. Poucos eram os filmes que carregavam de maneira tão explícita a bandeira da liberdade sexual da mulher sem algum tipo de condenação.

Miriam e Ana são tão sufocadas pela pressão da sociedade que, por não saberem lidar com aquelas situações – o homem que se aproveita da ingenuidade e o machista que não sai de cima -, acabam tomando medidas drásticas, no susto. Elas tentam reconquistar a liberdade, a ideia da normalidade de suas vidas, não importando o que lhes custasse.


FICHA TÉCNICA:

Direção: José Miziara
Direção de fotografia: Carlos Reichenbach
Câmera: Carlos Reichenbach
Assistência de câmera: Hideo Nakayama
Efeitos Especiais de Fotografia: Mané Young
Montador: Gilberto Wagner
Roteiro: José Miziara
Argumento: Cleston Teixeirta
Produção: Antônio P. Galante. Roberto P. Galante, Aristides Abramides, Edson Romano, Genésio de Carvalho
Som: Walter Goulart
Eletricista: Luiz de Souza, Agnaldo de Almeida
Direção de Arte: Walter Goulart
Figurinos: Áurea Lima
Maquiagem: Marino Henrique
Assistente de Maquiagem: Creuza de Souza
Vestuário: Sílvia de Souza Galante
Seleção Musical: José Miziara


Elenco: Rosemary, Sílvia Salgado, Roberto Maya, John Herbert, Bárbara Fázio, Neuza Amaral, Arlete Montenegro, João Signorelli, Luiz Felipe, César Robherto, Marcelo Coutinho, Tânia Poncio, Suzy Camacho, Alzira Andrade, Olindo Dias
Participação Especial: Teca Klaus, Fátima Peres, Sônia Saeg, Fátima Porto, Chiquita, Alvamar

Ano: 1978

Companhia Produtora: Produções Cinematográficas Galante Ltda.; Atlântida Empresa Cinematográfica do Brasil S.A. Companhias Distribuidoras: U.C.B. - União Cinematográfica Brasileira S.A.; W.V. - SP; Condor - SP





Sobre a Boca do Lixo

Geograficamente, a "Boca do Lixo" está situada no centro de São Paulo, vizinha à estação da Luz. Nos anos 1950, recebeu esse nome por ser pauta das crônicas policiais da cidade. A proximidade com as estações ferroviárias atraiu o cinema. Era muito mais barato manter sua distribuidora e/ou produtora em um local com fácil acesso a tais estações, para o transporte das cópias dos filmes.
A partir dos anos 1960, a "Boca" se tornaria o principal polo produtor cinematográfico do país, congregando produtores, técnicos, diretores, atores e intelectuais nas cercanias da Rua do Triumpho. Berço do chamado Cinema Marginal e responsável por uma grande variedade de filmes de gênero, quase sempre com apelo erótico, a "Boca do Lixo" frutificou em questão de público e bilheteria, mas naufragou quanto às avaliações críticas.
A "Boca" continuou produzindo filmes populares, de baixo orçamento e sem verbas estatais até o final dos anos 1980, quando já estava dominada pelo cinema de sexo explícito.